Auroville

Compreender Auroville não é tarefa fácil, visitá-la é ainda pior, em particular para quem não tem meio de transporte próprio. O local encontra-se a poucos quilómetros a norte de Pondicherry, no estado de Tamil Nadu, mas estende-se por um raio de cerca de 50 quilómetros. As alternativas são os autocarros disponibilizados pelo Ashram e pela organização de Auroville, ambos apresentando rígidos e reduzidos horários, e com visitas guiadas em grupo.

A primeira tentativa revelou-se frustrante, pois não foi mais do que conhecer o centro de acolhimento a visitantes, onde somos encaminhados para assistir a um vídeo sobre Auroville, o conceito, a história e o plano futuro, e depois seguir a passo acelerado para o local de onde ao longe se pode observar o edifício que constitui o núcleo do espaço e representa a filosofia associada a Auroville, a Matrimandir.

Da segunda visita, já com as coisas organizadas, e que me permitiram obter o passe de acesso ao interior da Matrimandir e ao espaço envolvente, não pude ver mais do que o edifício e os jardins circundantes, tendo também que assistir a um outro vídeo, desta vez sobre a construção da Matrimandir.

O conceito de Auroville surgiu da ideia da The Mother com o intuito de “criar uma cidade internacional, onde não existissem barreiras religiosas, culturais ou linguísticas, onde o ser humano se pudesse desenvolver em harmonia e ascender a uma consciência superior e divina”.

O projecto foi iniciado em 1968 numa cerimónia que reuniu enviados de diversas nações de todo o mundo, onde durante uma longa cerimónia cada um depositou um pouco de terra do seu país, num recipiente localizado abaixo do solo, pretendendo-se assim representar simbolicamente a união dos povos.

Em 1973, após a morte da The Mother, inicia-se a construção da Matrimandir, com base numa das suas visões, um “templo dedicado à meditação e que pretende criar um ideal de beleza capaz de elevar os espíritos”.

A Matrimandir, uma esfera ligeiramente achatada, coberta de discos forrados a folha de ouro, dispostos em várias camadas, que parece irromper do solo vermelho transportando o seu brilho para a superfície, devido ao efeito criado pelas construções que a circundam e que se assemelham a pedaços de solo levantados do chão, mas que são pequenas salas dedicadas também à meditação.

Anexa a cada uma destas salas de meditação, num total de doze conforme o números de pétalas do símbolo da The Mother, encontra-se um jardim cuja disposição e as flores escolhidas correspondem às suas doze qualidades: progresso, bondade sinceridade, gratidão, humildade, paz, igualdade, generosidade, coragem, perseverança, aspiração, receptividade.

Toda esta estrutura assim como os jardins, situam-se no cima de uma ligeira elevação do terreno, envolvida um vasto relvado pontuado de árvores, onde somente se ouve o som do chilrear das aves.

No interior do edifício, ao qual os visitantes somente podem aceder em visitas de grupo, previamente marcadas, calçando peúgas branca fornecidas à entrada, encontra-se um amplo espaço oval, todo revestido de mármore e alcatifa, dominado o branco e o tom suave e pálido rosa-salmão, que é a côr característica de Auroville. Daqui partem duas rampas de forma curva, delicadamente suspensas no espaço, que ascendem ao interior da sala de meditação, de forma cilíndrica, cuja amplitude do espaço somente é interrompida por um conjunto de pilares dispostos em círculo, no centro do qual está situada a espera de cristal que é para onde se foca toda a atenção. Mede cerca de setenta centímetros de diâmetro e está assente sobre uma estrutura metálica formada pelo símbolo do Sri Aurobindo, sendo atravessada por um raio de luz solar captado por um complexo sistema de sensores e de espelhos que se adapta à orientação do sol, que desce verticalmente desde o topo do edifício, por onde entra através de um orifício existente no tecto.

Ao atravessar esta esfera de cristal, criando assim o “símbolo da realização futura”, o foco de luz sai pela base do edifício, na direção de uma esfera de cristal de menor diâmetro que repousa no centro de uma estrutura de mármore, formada por diversas pétalas, claramente alusivas ao símbolo da The Mother, sobre as quais desliza suavemente uma fina camada de água, cujo suave mourejar contribui para realçar o efeito onírico e relaxante do espaço.

No interior da sala, onde os visitantes têm direito a permanecer quinze minutos para meditação, à medida que a iluminação elétrica se vai tornando menos intensa, reduzindo a sala a uma calma penumbra, o foco de luz-solar vai-se tornando mais visível aumentando o efeito místico da esfera de cristal.

A visita terminou no anfiteatro situado próximo, de forma oval que se desenvolve em torno do recipiente que simboliza o centro de Auroville e que reúne solo de vários países, mas que se encontra exposto ao inclemente sol tornando a permanência neste espaço uma verdadeira penitência, com a pedra usada da sua construção e de uma forma geral em todo o espaço envolvente, um arenito vermelho, a concentrar todo o calor. Este espaço é usado esporadicamente para espetáculos aquando do aniversário do Sri Aurobindo e da The Mother, e outras efemérides.

Quando começou a construção da Matrimandir, somente existia uma árvore a “banyan”, uma espécie que se encontra frequentemente no sul da Índia e que juntamente com a “bodhia” e a “neem” são consideradas sagradas. Em volta desta árvore, cujas raízes aéreas formam uma pequena e densa floresta, foi construído um espaço relvado, com banco onde os visitante podem descansar abrigados do sol sob a imensa copa da árvore.

O projecto ainda não esta concluído, tendo até agora sido feito com base em trabalho voluntário e financiado por donativos. De acordo com a visão da The Mother, prevê-se a construção de um canal que circundará todo o espaço, formado uma barreira de água e separando-o do resto de Auroville, mas que de momento está a ter dificuldades de implementação devido à escassez de água que caracteriza a região e à localização da Matrimandir numa zona elevada do terreno.

Depois desta visita, que nenhuma liberdade deixa para explorar o espaço, fica a questão: para que serve tudo isto? Não é somente para meditar, pois para isso não é necessário nada desta complexa estrutura! Será, segundo as palavras da The Mother “o símbolo da resposta divina à aspiração do homem à perfeição”? Ou será somente para satisfazer o ego humano e deixar uma marca da sua existência para a posteridade, com a aspiração de que o seu nome nunca seja esquecido?

Auroville. Matrimandir
Auroville. Matrimandir
Auroville. Matrimandir
Auroville. Matrimandir
Auroville. Matrimandir
Auroville. Matrimandir
Umas das várias árvore “banyan”
Umas das várias árvore “banyan”
Auroville. Quiet Helaing Center
Auroville. Quiet Healing Center
Auroville. Quiet Helaing Center
Auroville. Quiet Healing Center
Auroville. Quiet Helaing Center
Auroville. Quiet Healing Center

Á volta do núcleo central, dominado pela Matrimandir, Auroville desenvolve-se em forma de uma elipse copiando a forma de uma galáxia, estando dividida em três zonas distintas: residencial, industrial e comercial, esta ultima incluindo supermercado destinado aos habitantes e algumas lojas onde se vendem artigos produzidos internamente, situadas na zona de recepção aos visitantes e uma outra em Pondicherry.

Aqui estão alojadas diversas comunidades, também elas com nomes retirados dos textos escritos pela The Mother, como Serenity, Felicity, Surrender, Sincerity, Fraternity, Silence… cada uma delas desenvolvendo projectos específicos, mas nem todas partilhando da filosofia do Sri Aurobindo e da The Mother.

A maioria está dedicada à agricultura, algumas integrando elementos da comunidade local, desenvolvendo técnicas para a produção sustentável de alimentos neste tipo de terreno e de clima e ao esforço de florestação que tem vindo a ser feito à cerca de quarenta anos, de tornar esta zona semi-desértica numa floresta, criando uma proteção natural ao solo e às reservas de água, tendo-se criado o chamado “green belt”.

Comunidades há, mais focadas na arquitectura e construção, desenvolvendo novas

técnicas, experimentando materiais e criando casas que ao mesmo tempo que correspondem à finalidade de alojar pessoas que aqui habitam, servem também como laboratório de experimentação de novas formas arquitectónicas.

Esta comunidades aceitam voluntários para trabalhar em troca geralmente de comida e de alojamento, podendo em alguns casos receberem um simbólico salário.

Foi adaptado um sistema financeiro em que não circula fisicamente dinheiro dentro de Auroville, tendo cada um dos habitantes um número associada a uma conta, que se apresenta nas lojas e restaurantes de Auroville. Este sistema pouco amigável para os visitantes pois têm que inicialmente se dirigirem ao Centro de Acolhimento para pedir um cartão temporário ou simplesmente dirigirem-se a alguns dos residentes que esteja por perto para efetuarem o pagamento, recebendo o nosso dinheiro.

Apesar de se pretender tornar Auroville auto-sustentável em termos financeiros, com a venda de produtos fabricados localmente, como o queijo, o pão, incensos, óleos essências e suplementos alimentares como a spirulina, e com as contribuições mensais de quem aqui habita, continua a haver o financiamento do Governo Indiano.

Graças ao Gundolf, um arquitecto alemão dedicado a este projecto à quarenta anos, pude visitar finalmente Auroville, onde tive a possibilidade de apreender melhor o conceito que está por trás desta estrutura e a forma como funciona. Conheci algumas das infraestruturas desta utopia social, como escolas, centro de saúde, biblioteca, restaurantes, salas de exposição, cinema, campo de jogos, piscina e inúmeros espaços destinados a espetáculos e a actividades culturais. Na designada Área Internacional, alguns países como a Índia e o Tibete têm os seu pavilhões com exposições e actividades culturais, onde também se realizam espetáculos.

Tudo isto funciona actualmente para cerca de 2500 habitantes, número muito inferior aos 50 mil inicialmente esperados e para a qual a cidade tem sido dimensionada.

Pertencente a Auroville, mas localizada a alguns quilómetros, junto à praia, encontra-se o Quiet Healing Center, dedicado às massagens, às terapias naturais e medicinas alternativas, com infraestruturas que permitem a realização de cursos e de secções de terapia, dispondo de um conjunto de edifícios destinados ao alojamento de quem aqui vem para tratamento ou simplesmente para relaxar.

Segunda a frase da The Mother “Auroville não pertence a ninguém em particular, sendo um local de busca espiritual e material, tirando partido das novas tecnologias e descobertas, em constante progresso”. Pelo que vi, cumpre estes objectivos, onde por exemplo se podem encontrar escolas com métodos de ensino alternativos, em que os alunos escolhem as disciplinas a desenvolver, de acordo com as suas potencialidades e capacidades, sob orientação de professores e acompanhamento dos pais, preparando-os ao mesmo tempo para ingressarem em universidades no estrangeiro, europa e estados unidos, essencialmente.

Das pessoas que conheci, tanto em Auroville como no Quiet Heling Center durante o tempo que frequentei o curso de Niamaya Ayurvedic Therapeutic Massage, apercebi-me que existe uma identidade comum às pessoas que aqui vivem e que aqui nasceram, que quando questionadas sobre a sua origem, respondem que são “auroviliens”.

A maioria dos habitante é de origem francesa ou alemã, existindo ainda pessoas de outras trinta nacionalidades.

Mas para conhecer Auroville não chegam umas visita. É necessário permanecer semanas ou meses para ter contacto com os inúmeros projectos nas diferentes áreas onde cada um se pode associar e participar. Ficou a vontade de voltar!

Reprodução da esfera e do suporte existentes no interior da sala de meditação da Matrimandir. Esto fot foi tirada na Mother House
Reprodução da esfera e do suporte existentes no interior da sala de meditação da Matrimandir. Esto fot foi tirada na Mother House

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