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Stepping Out Of Babylon

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Índia

Mamallapuram

Mamallapuram, também conhecido por Mahabalipuram,  é uma pequena povoação que se situa a cerca de 50 quilómetros a sul de Chennai, conhecida pelo conjunto de templos situados junto da praia que datam do século 5 a 8 DC, correspondentes ao período em que esta zona foi dominada pelo reino dos Pallava ocupando o território que é hoje o estado de Tamil Nadu.

A parte antiga da cidade, classificada pela Unesco como património mundial, é composta por um vasto conjunto de templos, concentrados num zona mais elevada duma extensa planície, escavados na rocha granítica de tons castanhos-alaranjados, formado pequenas grutas decoradas com estátuas representando deuses e animais mitológicos associados a religião hindu.

Os templos, maioritariamente dedicados a Shiva e a Vishnu, constituem um marco importante no desenvolvimento artístico e arquitectónico, servindo como referência às construções realizadas posteriormente, e que caracterizam a arquitectura religiosa do sul da Índia.

 

Praia de Mamallapuram banhada pelas águas mornas da Baía de Bengal
Praia de Mamallapuram banhada pelas águas mornas da Baía de Bengal
Templo situada na praia de Mamallapuram
Templo situado na praia de Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Pausa para descanso de duas vendedoras de snacks compostos por manga verde temperada com sal e uma mistura de especiarias picante (massala), que é bastante comum encontrar à venda nas ruas das cidades do sul da Índia. A rocha cujo equilíbrio precário parece desafiar as leis da gravidade, é o local mais fotografado de Mamallapuram e é identificada pelo nome de Krishna’s Butterball…
Pausa para almoço de um grupo de alunos em visita de estudo Mamallapuram
Hora de almoço nos jardins que envolvem o conjunto de templos que constituí a zona histórica de Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Mamallapuram
Escultura principal de Mamallapuram, chamada de “Arjuna’s Penance (a Penitência de Arjuna, uma das figuras mitológicas hindus), onde algumas das esculturas não chegaram a ser terminadas
Mamallapuram
Mamallapuram

Apesar da beleza dos monumentos e do espaço envolvente impecavelmente arranjado, ficou uma pontinha de desilusão pois o conjunto de monumentos não era muito vasto, tendo a visita demorado pouco tempo, o que não compensou as três horas e meia de viagem de autocarro, grande parte delas passadas no caótico trânsito de Chennai, sob o frio glaciar do ar-condicionado.

Da povoação pouco há a referir pois é mais um aglomerado incaracterístico de pequenos edifícios de habitação, restaurantes e lojas destinadas à venda de artigos para turistas, nacionais e estrangeiros, em especial estátuas feitas em pedra.

Recentemente, aquando do tsunami de 2004, parte desta costa foi também afectada, aumentando ainda mais os problemas de erosão existentes, que actualmente ameaçam o templo junto à praia.

Chennai. Broad Lands

Estamos no ramadão, e ao fim do dia a mesquita que se encontra nas traseiras do hotel Broad Lands, enche-se de fiéis que vêm fazer as oração que marcam o fim do jejum a que os muçulmanos estão obrigados desde o nascer do dia, durante este período.

O hotel, a funcionar desde 1951, é um verdadeiro achado nesta cidade que aparentemente não tem muito para oferecer, tendo sido nos anos 70 e 80 o ponto de encontro da comunidade hippie que rumou a Índia em busca do exotismo e de espiritualidade. Actualmente a realidade que aqui se vive e bem diferente, não tendo deixado contudo de ser ponto de encontro para viajantes ocidentais.

O edifício, um antigo palácio, construído ao estilo árabe, pintado de branco e azul claro, é composto por vários pátios dispostos sequencialmente, circundados por varandas que dão acesso aos cerca de quarenta quartos, distribuídos por dois andares, cujo acesso é feito por um intricado conjunto de escadas, passagens estreitas, conferindo ao espaço um ambiente misterioso.

As portas e as portadas das janelas dos quartos são de madeira, com ripas, pintadas no mesmo azul pálido das paredes, que abrem para o pátio e permitem a entrada de luz; não existem vidros conforme é tradicional nas habitações do sul da Índia, onde o clima não apresenta grandes variações entre o verão e o inverno, para além da presença da chuva.

Um olhar mais atento revela claros sinais de decadência, com a tinta das portadas e das varandas descamar, deixando a madeira ao sujeita a degradação provocada pelo clima húmido, a humidade a fazer os estragos nas paredes, a cor da tinta a desbotar, teias de aranha nos cantos mais obscuros e uma fina camada de pó que atesta a passagem do tempo que retirou alguma dignidade ao edifício sem contudo lhe beliscar no charme que apresenta.

Do terraço, ao qual se tem acesso por uma íngreme e precária escada de madeira, onde nos espera uma solitária cadeira pintada no mesmo tom azul pálido que caracteriza o hotel, avista-se grande parte do bairro de Triplicane, que é dominado pela comunidade muçulmana.

No último e o maior dos vários pátios, encontra-se uma árvore que ultrapassa em altura os vários pisos do edifício, que aqui chamada de “neem” que para além de ser considerada sagrada tem propriedades medicinais sendo usada na naturopatia e na medicina ayurvédica.

Broadlands Hotel
Entrada do Broad Lands Lodging House no bairro de Triplicane
Pateo principal do Broadlands Hotel com a árvore "neem"
Pátio principal do Broad Lands com a árvore “neem” ao centro
Broadlands Hotel
Broad Lands Lodging House
Quarto no Broadlands Hotel
Casa de banho do meu quarto no Broad Lands
Quarto no Broadlands Hotel
Quarto no Broad Lands situado no piso térreo com vista para o pátio principal e para a imponente árvore de “neem”
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O meu quarto no Broad Lands com claros sinais de decadência mas com lençois empecavelmente limpos. O quadro eléctrico, situado à entrada do quarto, do lado esquerdo, que dada a variedade de interruptores mais parece um mostruário, constitui uma verdadeira ameaça à segurança, em especial quando se liga alguma coisa à tomada!!! 
Terraço do Broadlands Hotel
Terraço do Broad Lands onde uma solitária cadeira metálica espera os que se aventuram na subida da precária escada de madeira que lhe dá acesso

Do meu quarto, situado no piso térreo do ultimo pátio do hotel Broad Lands, olhando através da janela rasgada quase até ao chão, sentada na minha cadeira de verga pintada de verde pálido, de onde a tinta se vai soltando aos poucos, observo a grande árvore que domina todo o pátio, que se agita e range violentamente com o vento forte que anuncia a aproximação da trovoada.

A chuva cai forte, em mornas pingas grossas, alagando tudo em pouco minutos, mas deixando um ar mais fresco e limpo. Mesmo assim, não é suficiente para afastar a espessas camadas de nuvens que cobrem o céu de Chennai, roubado as cores à cidade e ao mar.

No Broad Lands reina a calma e apesar de se situar num dos bairros mais movimentados da cidade, consegue-se aqui ter algum descanso do incessante som dos automóveis e das buzinas que noite e dia servem de banda sonora a vida da cidade de Chennai. Aqui encontro refúgio para passar as horas de maior calor, lendo ou desenhando, enquanto no pátio o grasnar das gralhas se sobrepõe ao melancólico chamamento para as orações, emitido pelos altifalantes da mesquita vizinha.

(este texto data de Julho de 2013)

Broadlands Hotel
Broad Lands Lodging House

 

Broadlands Lodging House

18, Vallabha Agraharam Street (numa perpendicular à Triplicane Road)

Triplicane, Chennai

broadlandshotel@yahoo.com

Quarto individual, com casa de banho: 400 rupias

Chennai

Está na hora de partir… Sente-se quando chega o momento em que uma cidade ou um local não tem mais para nos oferecer.

Pelo que vi, dos quatro dias que aqui passei, Chennai é mais uma grande cidade indiana com 6,4 milhões de habitantes, a quarta em população, depois de Mumbay, Delhi e Calcutá, que de certo tem muito para oferecer mas que dada a dimensão torna-se difícil para um forasteiro encontrar os seus encantos. Mesmo assim, fui surpreendida com a visita ao templo principal de Mylapore, na parte sul da cidade, .

Fui lá por sugestão do Shan, um professor de yoga indiano, barrigudo e bonacheirão, sempre vestido de preto e que não é vegetariano, que habitualmente passa grandes temporadas em Chennai enquanto espera que termine a monção em Goa, e que actualmente se dedica ao estudo e a escrita livros sobre filosofia e religião hindu. Juntamente com a Roxanne, uma rapariga suíça em viagem pela Ásia, fomos visitar o templo Kapalishuara, tendo o Shan como guia, fornecendo-nos vastas explicações sobre a mitologia hindu e sobre as formas como se manifesta nos ritos praticados assim como nas estátuas que decoram os templos.

Foi também uma boa abordagem para ficar a conhecer o estilo arquitectónico e decorativo dos templos do sul da Índia, geralmente dispostos no interior de um recinto murado, onde a porta principal é sinalizada por uma torre profusamente decorada com estátuas em pedra, representando episódios e figuras da mitologia hindu, que muitas vezes se encontram pintados de cores garridas.

O espaço ocupado pelo templo foi percorrido nos intervalos da chuva que tornavam o pavimento de pedra granítica escorregadio sob os nosso pés descalços, devido aos restos de ghee que é usado para iluminar as lamparinas que os devotos colocam junto das imagens.

Esta tarde passada com o Shan deu para conhecer um pouco dos meandros de uma grande cidade onde num primeiro andar de um edifício ocupado por um posto dos correios, se pode alojar uma vasta livraria repleta de livros sobre religião, filosofia e yoga; o dia terminou um restaurante onde podemos comer uma generosa e complexa refeição que congregou os diversos sabores que caracterizam a culinária do sul da Índia, que é bastante diferente da comida do norte da Índia.

Chennai
Chennai
Rua principal do Bairro muçulmano de Triplicane, onde fiquei alojada nos dias que passei em Chennai
Rua principal do Bairro muçulmano de Triplicane, onde fiquei alojada nos dias que passei em Chennai
Triplicane antes da tempestade que geralmente chega ao fim do dia, mas que nem sempre traz chuva
Triplicane antes da tempestade que geralmente chega ao fim do dia, mas que nem sempre traz chuva
Templo Kapalishuara em Mylapore
Templo Kapalishuara em Mylapore
Mulheres varrendo o pavimento do templo depois de ter caído uma forte chuvada que apesar da intensidade não afasta os peregrinos nem tão pouco abranda o frenesim da cidade
Mulheres varrendo o pavimento do templo depois de ter caído uma forte chuvada que apesar da intensidade não afasta os peregrinos nem tão pouco abranda o frenesim da cidade
Torre principal correspondente à entrada no templo Kapalishuara em Mylapore
Torre principal correspondente à entrada no templo Kapalishuara em Mylapore
Templo Kapalishuara
Templo Kapalishuara
Templo Kapalishuara em Mylapore
Templo Kapalishuara em Mylapore
Shan e Roxanne... os meus companheiros enquanto esperávamos que a chuva abrandasse para continuar-mos a visita ao templo
Shan e Roxanne… os meus companheiros enquanto esperávamos que a chuva abrandasse para continuar-mos a visita ao templo

Chennai, e a capital do estado de Tamil Nadu e atravessada por um fétido rio, de águas negras e de aspecto viscoso, rasgada por grandes avenidas, permanentemente congestionadas de trânsito que se intensifica ao fim do dia com o aumento de pessoas na rua, aproveitando a ligeira diminuição da temperatura que se sente com o pôr do sol, que aqui no sul, ocorre cerca de uma hora mais cedo do que no norte da Índia.

Aqui sente-se claramente uma grande diferença cultural em relação aos estados do norte por onde tenho andado: por aqui dominam os sharis, e as mulheres enfeitam o cabelo com grinaldas de flores de jasmim que deixam um aroma doce quando passa: enquanto os homens vestem maioritariamente os dothis, que são panos de algodão, quase sempre brancos ou com estampados, enrolados a volta da cintura, e que vão até aos pés, mas que dado o calor, são muitas vezes dobrados ao meio, ficando pelo joelho.

Fisicamente as pessoas são também diferentes: pele mais escura, baixos e de constituição franzina, cabelo espesso e ligeiramente frisado. Os homens usam maioritariamente bigode, pequeno e bem aparado, desde tenra idade.

Nota-se uma cultura diferente do que tenho visto no norte do país, que orgulhosamente se manifesta no dia a dia, não só pela língua que aqui e falada e escreve, o Tamil, como também na religião que aqui e mais presente, tanto pelo numero de templos como pelos sinais do puja que ostensivamente os habitantes apresentam na testa, como nos desenho feitos com pigmentos que diariamente são feitos no chão, a entrada das casas, como motivos florais ou complexos desenhos geométricos.

Acho que no sul se encontra uma Índia mais indiana, vivida a um ritmo mais calmo e pachorrento.

(este texto data de Julho 2013)

Um dos muitos locais de venda de comida espalhados pelas ruas de Chennai. Aqui preparam-se as "parothas" um pão não fermentado, feito de massa elástica que é trabalhada de forma a criar um pão fino e achatado formado por várias camadas que é depois cozinhado numa chapa aquecida a lenha
Um dos muitos locais de venda de comida espalhados pelas ruas de Chennai. Aqui preparam-se as “porothas” um pão não fermentado, feito de massa elástica que é trabalhada de forma a criar um pão fino e achatado formado por várias camadas que é depois cozinhado numa chapa aquecida a lenha. É comido geralmente ao meio da tarde, acompanhado com um líquido e picante carril de vegetais
Visitar grandes cidades como Chennai, implica sempre deslocações, mas para evitar as complicações com os motoristas dos tuk-tuk optei por andar de bus o que é muito mais relaxante e barato, proporcionando um maior contacto com a população e um amimado ambiente, pois geralmente os autocarros têm música e estão decorados com pequenos altares decorados com flores, onde ardem incensos
Visitar grandes cidades como Chennai, implica sempre deslocações, mas para evitar as complicações com os motoristas dos tuk-tuk optei por andar de bus o que é muito mais relaxante e barato, proporcionando um maior contacto com a população e um amimado ambiente, pois geralmente os autocarros têm música e estão decorados com pequenos altares decorados com flores, onde ardem incensos
Mesquita no bairro de Triplicane, na hora da oração que corresponde ao fim do jejum a que os muçulmanos se obrigam durante o ramadão
Mesquita no bairro de Triplicane, na hora da oração que corresponde ao fim do jejum a que os muçulmanos se obrigam durante o ramadão

De Delhi para Chennai… de comboio

Ao fim de mais de quatro meses sem ver o mar, encontro-me finalmente na Baía de Bengal (em português chamada de Golfo de Bengala), em Chennai, no estado de Tamil Nadu, no sul da Índia.

O cinzento do céu que não deixa passar um único raio de sol, confere às águas um tom baço, tornando-as escuras e acastanhadas, que vêm rebentar junto na grossa areia. Sopra uma brisa quente e carregada de humidade, mas que em nada se compara ao que nesta altura do ano se sente em Delhi e Varanasi…. aqui ainda não chegou a monção.

A praia de Chennai, chamada Marina Beach, é considerada uma das maiores praias do mundo, com uma extensão de 6 quilómetros; pode ser… mas está longe de ser uma das mais bonitas. Esta, assim como muitas das praias espalhadas pela costa indiana encontram-se sujas, tanto de lixo trazido pelas marés como pelo que é diariamente deixado pelos visitantes.

Aqui na Índia, a praia não e local para apanhar sol ou para mergulhar no mar, é sim local de convívio, onde grupos de homens e de mulheres, alguns casais e uns raros indivíduos solitários passeiam junto à água, enquanto conversam, tiram fotografias, bebem refrigerantes, comem e debicam amendoins. Algum mais audazes arriscam avançar em direção ao mar em pequenos grupos, totalmente vestidos, molhando-se na forte rebentação, sem nunca mergulharem. Subsiste ainda a pesca, a avaliar pelo número de pequenos barcos espalhados no extenso areal e pelas redes de pesca que aguardam quem as lance ao mar.

Marina Beach em Chennai
Marina Beach em Chennai

A viagem de comboio, de Delhi para Chennai, que demorou 36 horas, incluindo duas noites embaladas pela oscilação da carruagem, foi bastante calma e sem complicações. O facto de viajar sozinha e de ser o único ocidental na carruagem vez de mim vedeta, recebendo a atenção dos outros passageiros e em especial dos funcionários dos caminhos de ferro que constantemente passavam vendendo as refeições, água, chamussas, gelados, bolachas, chocolates e mais uma infinidade de coisas, só abrandado o ritmo com o cair da noite, após ser servido o jantar, para recomeçar logo ao nascer do dia com a venda de “chai”.

Valeu a pena ter gasto mais dinheiro na compra do bilhete para a viajar na classe 2AC, que é muito menos concorrida e mais espaçosa do que a 3AC onde geralmente tenho viajado. Tem a desvantagem de ser frequentada maioritariamente por homens de negócios ou por famílias de classe mais alta, que se resguardam nos compartimento, fechando as cortinas, o que torna estas viagens mais monótonas se a animação e o colorido humano que se encontra geralmente quando se viagem na “sleeper class” sem ar-condicionado.

Toda a viagem foi feita com tempo de chuva, onde o cinzento-chumbo do céu se abatia sobre a paisagem, aumentando o contraste entre o verde brilhante da vegetação, que varia entre montanhas cobertas de floresta semi-tropical, ausentes de presença humana e extensos campos agrícolas alagados pela monção, que realçam os tons vermelho ferrugem da terra.

Dentro do comboio, olhando através das grossas gotas de chuva, vendo a paisagem deslizar pela janela, iam-se abatendo sobre mim uma melancolia que juntamente com a trepidação do comboio tornavam as pálpebras pesadas, fazendo com que o livro que me acompanhava repousasse fechado ao meu lado.

De tempos a tempos, passeava pelas carruagens vizinhas para esticar as pernas e aproveitava para ficar junto a uma qualquer porta que estivesse aberta para sentir o ar morno e húmido e saborear as grossas gotas de chuva que com o vento me salpicavam o rosto. É a verdadeira sensação de viajar, de liberdade absoluta.

Acho que o que mais gosto nas viagens e o acto de viajar em si, de me deslocar… especialmente se for de comboio. Antes de chegar à estação sinto um pequeno formigueiro na barriga, um certo nervosismo, que passa à medida que me aproximo do edifício e me vou embrenhando nos seus meandros, seguindo as regras internacionais de funcionamento de uma estação ferroviária, deixadas pelos ingleses; procuro a plataforma onde se encontra o comboio que me levará a novo destino e enquanto espero, ouço em hindi e em inglês o anúncio das chegadas e das partidas emitidas em simpática voz feminina, por altifalantes roufenhos que se fazem ouvir por toda a estação. Depois de verificar o número do comboio, procuro a carruagem e o lugar que me está destinado, confirmando a minha reserva nas listagens que se encontram coladas junto à entrada de cada carruagem, com o nome, idade e sexo dos passageiros: um sistema complexo mas eficaz.

As viagens noturnas são as melhores, pois com o balanço do comboio rapidamente adormeço, e proporcionam uma razoável noite de sono, com direito a lençóis, almofadas e cobertor… sim, cobertor que apesar dos mais de 30 graus de temperatura que se sentem no exterior e indispensável para sobreviver ao frio provocado pelo ar-condiconado. Contudo uma paragem noturna, numa estação intermédia durante o percurso, provoca geralmente um despertar abrupto em resultado do barulho e agitação provocados pela chegada de novos passageiros, pois os indianos viajam geralmente em família, com crianças, transportando inúmeras malas e sacos, o que leva o seu tempo até se conseguir recuperar a serenidade no compartimento.

paisagem dominante da viagem ao atravessar o centro do páis, nos estados de Madhya Pradesh e Andhra Predesh, onde o monção fez extravazar as margens dos rios
Paisagem dominante da viagem ao atravessar o centro do páis, nos estados de Madhya Pradesh e Andhra Predesh, onde o monção fez extravazar as margens dos rios
Compartimento da classe 2AC onde fiz as viagens de ligação entre Delhi e Chennai
Compartimento da classe 2AC onde fiz as viagens de ligação entre Delhi e Chennai
O almoço servido pela empresa ferroviária: um thali com dhaal, arroz e um caril de vegetais... não é bom mas também não é mau.
O almoço servido pela empresa ferroviária: um thali com dhaal, arroz e um caril de vegetais… não é bom mas também não é mau.
A alternativa vegetariana ao "thali" que escolhi para almoço, é "biriani" tanbem de vegetais... bom mas muito picante.
A alternativa vegetariana ao “thali” que escolhi para almoço, é “biriani” tanbem de vegetais… bom mas muito picante.
... para passar o tempo.
… para passar o tempo.

No livro que me acompanhou nesta viagem, “The Great Railway Bazar”, Paul Theroux, adepto das viagens de comboio, escreve que “viajar de avião é como entrar num submarino”… concordo. Perde-se a percepção de como a paisagem e o clima mudam, como são diferentes as pessoas, as roupas, os edifícios, os cheiros… como vamos sentido o passar do tempo, a chegada da noite ou o romper do dia. Mesmo a informação disponibilizada pelas companhias aéreas e que mostra o avião a deslocar-se sobre um mapa, indicando os países e cidades que estamos a sobrevoar, não é suficiente para nos fazer sentir que estamos realmente a viajar, mas somente nos dá a percepção de que nos estamos a deslocar. E nunca nos preparam para o choque que é chegar ao destino, com outro clima, outra cultura e com um horário totalmente diferente que nos deixa atordoados durante dias.

A desvantagem das viagem de comboio feitas de noite é a impossibilidade de apreciar a vida que fervilha nas várias estações, perdendo-se também as mudanças que se registam na paisagem à medida que atravessamos o vasto território indiano… é quase como se fosse uma viagem de avião, mas sem os problemas da adaptação aos fusos horários nem da mudanças brusca de clima.

Destes quase cinco meses passados na Índia, registei os quilómetros percorridos nas 11 viagens que fiz de comboio, e que se encontram indicados nos bilhetes: 8254 quilómetros no total.

Fiquei a saber que é possível atravessar a Índia, de norte a sul num único comboio, numa viagem que demora entre 60 a 86 horas, ligando a cidade de Jammu, no estado de Kashmir a Kanyakumari, o extremo sul do país, onde o Mar Arábico se junta com a Baía de Bengal (ou Golfo de Bengala), no estado de Tamil Nadu, perfazendo 3500 quilómetros… aqui está um desafio!

(este texto data de Julho de 2013)

no comboio saboreando o vento quente e húmido
no comboio saboreando o vento quente e húmido

Notas da India #3

Indicações.

Por muitos mapas que se usem… por muitos guias que se consultem… acaba sempre por ser necessário, para quem anda em viagem, perguntar aos habitantes locais um caminho, a localização da estação de comboios, do terminal de autocarros, onde se pode apanhar o autocarro (pois é raro os locais de paragem estarem identificados), onde fica um templo, um hotel ou uma guest house, um restaurante…

Aqui na Índia estas perguntas têm geralmente uma resposta vaga, um gesto impreciso a indicar uma direcção e algumas palavras pouco perceptíveis a completar a resposta, o que muitas vezes obriga a fazer a mesma pergunta várias vezes, ou caminhar em direções opostas até chegar ao destino pretendido, mesmo quando se está à procura de algo que se situa a curta distância ou que e um local muito conhecido.

Em Leh, por exemplo perguntamos a um polícia (erro crasso… geralmente falam muito pouco inglês) pela estação de autocarros, que se situa dentro da cidade, sendo de certo conhecida por todos os habitantes, pois e de lá que chegam e partem praticamente todas as ligações para as cidades e povoações vizinhas. Depois de muito pensar, e olhando desorientadamente em várias direções, disse-nos que o melhor era apanhar-mos um tuk-tuk, pois ainda ficava longe, o que parecia dificultar a explicação do caminho que devíamos seguir. Com paciência lá obtivemos a direção a tomar, pois estávamos decididos a ir a pé, pois entretanto encontrámos a placa que indicava o terminal de autocarros; descemos a rua e em menos de dez minutos chegamos onde queríamos!

Público vs Privado

Os indianos são conhecidos pelo seu pudor em mostrar o corpo em público, o que se torna bem evidente junto das praias, onde se banham integralmente vestidos e com a mesma roupa que usam no dia a dia.

Contudo, atividades que para nós, ocidentais, são consideradas do foro privado, como lavar os dentes, tomar banho, cortar as unhas, lavar e pentear o cabelo, etc… são aqui executadas na rua, ou em outros locais públicos sem o mínimo de constrangimento. Em algumas cidades vêem-se barbeiros a cortar o cabelo e a fazer a barba a clientes sentados em cadeiras em plena rua, protegidos pela sombra de alguma árvore, alheios ao frenético movimento que os envolve.

A passagem de comboio pelos subúrbios de uma cidade indiana, em especial quando coincide com o inicio do dia e sempre presenteada com a imagem de inúmeros indivíduos que aproveitam a proximidade da linha para urinar ou defecar, enquanto olham alheadamente para o comboio a passar, como se o caminho de ferro marcasse o limite do seu mundo e partir dessa linha nada mais houvesse.

Uma das coisas com que ainda me surpreendo e com o arrotar, que aqui e feito sem a mínima descrição ou embaraço…. Don’t panic… is only organic!

Abaixo de cão

Somente aqui na Índia dei o devido valor a esta portuguesa expressão. Realmente pouco mais existe abaixo do que a vida que os cães aqui levam e a forma da como são tratados.

Exceção são os cães que vi no norte do país, em especial nas zonas montanhosas do estado de Himachal Pradesh, onde têm melhor aspecto espelhando a qualidade de vida que aí se tem.

Praticamente todos os cães na Índia são vadios e encontram-se espalhados pelas ruas das cidades, dormindo praticamente todo o dia, nas sarjetas, valas, nos mais estranhos locais e nas mais bizarras posições, para de noite ocuparem as ruas com os seus latidos, em matilhas ferozes.

Vagueiam pelas ruas, tímidos assustados,alimentando-se à base do lixo espalhado pelas cidades, ou de restos de comida que é diariamente despejada nas ruas ou próximo de contentores do lixo, local que serve também de alimento às vacas, cabras, búfalos, macacos e às gralhas.

São quase sempre animais sem dono: magros, estropiados, sujos, muitas vezes com feridas profundas, doentes ou mesmo próximo da morte. São repelidos pelos muçulmanos pois os cães não são bem vistos segundo o Alcorão; os hindus geralmente não os tratam mal, mas não lhes oferecem mais do que indiferença.

Não sei se existe mais alguma coisa abaixo dos cães, mas vêem-se por aqui pessoas que levam uma vida que aparentam estar ao mesmo nível destes animais, sem terem melhores condições de vida ou de tratamento.

Ninhada de cachorros numa das ruas de Varanasi
Ninhada de cachorros numa das ruas de Varanasi

Línguas

Segundo um estudo recentemente desenvolvido pela “People’s Linguistic Survey of India”, foram identificadas no território indiano 780 línguas e 66 escritas diferentes, isto considerando somente línguas faladas ou escritas por mais de 10 mil pessoas.

O estado do Arunachal Pradesh, situado no nordeste da Índia, entre o Tibete e a Birmânia, é o que apresenta maior riqueza linguística, com 90 línguas diferentes, seguido dos estados de Assam, Gujarat, Maharashtra e West Bengal. O nordeste do país regista uma das mais elevadas diversidade de línguas do mundo, proporcionalmente à população, dado tratarem-se de regiões montanhosas, de difícil acessibilidade, onde ainda existem muitas tribos e comunidades nómadas.

Alguma desta diversidade linguística está espelhada nas notas, onde o valor facial aparece escrito por extenso com 15 línguas e grafias diferentes, para além do inglês e do “hindi” escrito nos correspondentes caracteres devanagri.

O “hindi”, apesar de ter sido adoptado como língua oficial da Índia em 1950, não é falado em todo o país: no sul, nos estados de Tamil Nadu, Goa e Kerala mantêm-se fortemente enraizadas as línguas locais.

Quando cheguei a Tamil Nadu, deparei-me com uma língua e com uma escrita totalmente diferente, o “tamil”, semelhante ao que se fala no Sri Lanka, e contatei que pouca gente fala ou compreende o “hindi”; no estado de Jammu e Kashmir, falam o “kashmiri”, semelhante ao “urdu”, língua oficial do vizinho Paquistão, e que se escreve com caracteres árabes; em Leh, assim como em toda a região do Ladakh, fala-se o “ladakhi” que deriva da língua tibetana, tanto na fonética como na escrita.

A juntar toda esta manta de retalhos existe o inglês, que aparece muitas vezes a acompanhar a escrita local, e que e mais ou menos falado por quase toda a gente… na maior parte dos casos, somente palavras isoladas, ou frases decoradas, sendo raro encontrar pessoas com quem se possa ter uma conversa mais aprofundada para além das habituais perguntas: “what is you good name?”, “where are you from?”, “how much time in India?”, “what is your job?”, “how old are you?”, “do you like India?”

A população urbana e mais jovem fala inglês com fluência, e muitas das aulas nas universidades são dadas nesta língua. As pessoas que conheci de Delhi e de Mumbai, expressam-se fluentemente em inglês, mesmo quando conversam entre eles na presença de estrangeiros. E também esta língua usada pelos outros indianos, quando visitam o sul do país, concretamente Kerala e Tamil Nadu, pois aqui a maior parte das pessoas não fala “hindi”… nem quer ouvir falar, pois são extremamente orgulhosos da sua diferença cultural que os torna bem destintos dos habitantes dos restantes estados.

Em Pondicherry, antiga colónia francesa onde ainda hoje é bem evidente a influência francófona, encontram-se vários indianos a falar fluentemente francês, tanto com os turistas como entre si… em especial as pessoas mais velhas! Alguns indianos vem propositadamente para esta cidade para estudarem e praticarem a língua francesa nas várias escolas existentes como a Alliance Françaises. Coisa que em Goa, não acontece com o português… que pouco mais se encontra do que no apelido de algumas famílias, no nome de algumas ruas e em alguns pratos tradicionais.

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Escrita “tamil” no estado de Tamil Nadu… aqui pouca coisa é traduzida para caracteres ocidentais ou mesmo para inglês
Esctita "ladakhi" No estado de Jammu e Kashmir
Esctita “ladakhi” na região do Ladakh, no estado de Jammu e Kashmir, onde o inglês e falado com pela maior parte dos habitantes e onde muitas das indicações estão escritas nos caracteres ocidentais
Escrita "hindi" com caracteres devagrani, que se encontra frequentemente na maioria dos estados da Índia
Escrita “hindi” com caracteres devanagri, que se encontra por toda a Índia com excepção dos estados mais a sul, Tamil Nadu e Kerala e no extremo norte: Jammu e Kashmir

Pobreza

Segundo um artigo publicado no jornal diário publicado na língua inglesa “The Hindu” em Julho deste ano, o número de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza na Índia e estimado em 217 milhões nas zonas rurais e em 52 milhões em áreas urbanas.

Contudo verifica-se um decréscimo geral dos níveis de pobreza, em comparação com os anos de 2004/05, de cerca de 21%, sendo esta diminuição mais significativa nas zonas rurais, onde a percentagem de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza passou de 42% para 26%, em 2011/12.

Em termos de zonas urbanas, os estados de Sikim, Goa, Tamil Nadu e Andhra Pradesh, foram os que apresentaram os valores mais baixos em termos de pobreza, nos meios urbanos.

Contudo a realidade que se observa é bem diferente… nos meios rurais a pobreza e menos evidente, apesar de a maior parte das pessoas viver da agricultura e do gado, vivendo muitas vezes em casas rústicas, muitas ainda mantendo a construção tradicional e com condições básicas de abastecimento de água e de saneamento…mas não se vêm pedintes ou pessoas a dormir nas ruas.

Nas cidades a situação é bem diferente, com os superlotados subúrbios a abarrotar de casas semi-construídas, degradadas, barracas construídas com plásticos e madeiras, junto a lixeiras e a ribeiras imundas devido a esgotos domésticos e industriais. Por baixo de viadutos é frequente verem-se pessoas a dormir, partilhando o espaço com cães, vacas e ratazanas; muitos dormindo no chão, sem qualquer abrigo ou proteção, e transportando todos os seus pertences consigo, que pouco mais espaço ocupam do que um saco ou dois sacos.

A maior parte das pessoas que mendiga pelas ruas das cidades são mulheres com crianças, deficientes e idosos, pois na Índia não existe um sistema de assistência social que dê apoio a quem não pode trabalhar. É bastante frequente verem-se pessoas que aparentam ter muita idade, por vezes com evidentes dificuldades em se movimentarem a trabalhar, varrendo ruas, conduzindo richshaws, carregando mercadorias, limpando mesas de restaurantes, vendendo frutas e legumes ao longo das ruas e em mercados… Os deficientes são em grande número se comparamos com os países ocidentais, não tanto em resultado de acidentes mas aparentemente devido a malformações genéticas e ou a doenças.

Por onde andei, somente em Varanasi e no sul da Índia, em Tamil Nadu, é que o número de pessoas a dormir e a mendigar nas ruas se tornou bastante evidente, ultrapassando as habituais zonas que envolvem os templos, e abordando directamente, e as vezes com alguma insistência, quem passa, em especial os estrangeiros; em Leh e Srinagar, no estado de Jammu e Kashmir, praticamente não havia mendigos nem tão pouco me apercebi de pessoas a dormir nas ruas.

Curiosamente, em Pondicherry, talvez a cidade mais bem conservada, limpa e organizada, por onde passei, e sem dúvida a que oferece melhor qualidade de vida, vêm-se bastantes mendigos e pessoas a viver na rua, uns dormindo em jardins outros em abrigos precários construídos em ruas menos movimentadas. Também foi aqui que encontrei instituições destinadas ao apoio dos mais pobres, maioritariamente geridas pelas várias instituições religiosas de inspiração cristã; noutras partes do país vê-se por vezes a distribuição de comida, de manhã muito cedo, junto aos principais templos hindus.

Para além da mendicidade, a pobreza também transparece através do trabalho infantil, muitas vezes com crianças ajudar em negócios de família ou na agricultura, em horários nem sempre compatíveis com a ida à escola.

A propósito de pobreza, transcrevo uma frase escrita por Mark Twain, aquando de uma viagem de três meses que fez a Índia em 1895: “olhando para os mais pobres, das mais pobres e superpovoadas cidades, a vida de uma vaca na Índia parece ser mais sagrada do que a via humana”.

Mulher vendendo cerejas numa das aldeias do estado de Himachal Pradesh
Mulher vendendo cerejas numa das aldeias do estado de Himachal Pradesh
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Um dos muitos trabalhos pesados que são executados manualmente
Trabalho nos campos em Dharamkot, no estado de Himachal Pradesh
Trabalho nos campos em Dharamkot, no estado de Himachal Pradesh

Varanasi

A meio da tarde o ceu escoreceu e ao longe rebentaram os trovoes, anunciando a aproximacao de chuva; quase de imediato grossas pingas cairam-nos em em cima, colando a roupa ao corpo. Abrigados sobre precarios toldos de lojas de artigos religiosos no centro de Varanasi, assistimos a descarga do ceu que se abateu ferozmente sobre a cidade, inundando ruas e criando pequenos rios que velozmente desciam pelas estreitas ruas arrastando toda a sujidade acumulada. Rapidamente, em menos de cinco minutos as ruas ficaram cobertas de agua, tornado impossivel andar sem mergulhar os pes num caudal lamacento.

Perante este cenario, os habitantes de Varanasi, pouca emocao demonstraram, sem se notar grande mudanca no frenetico movimento da cidade, com muita gente a caminhar a chuva, sem qualquer protecao e sem aparentarem grande pressa. Foi o nosso primeiro contacto com uma chuvada tipica da epoca das moncoes: intensa, ameacadora mas que traz um ar mais limpo e algum alivio ao calor que se sente.

Varanasi, tambem conhecida por Benares, e uma das cidades mais antigas do mundo, datando os primeiros registos do seculo VI AC, constituindo o principal centro da cultura hindu, que atribui a este local o poder de conferir a iluminacao espiritual e a libertacao do ciclo de reencarnacoes a quem aqui morra.

A zona mais antiga da cidade, situa-se ao longo do Rio Ganges, aqui chamado de Ganga, onde diariamente sao realizados os banhos sagrados, nas aguas purificadoras do rio, tanto por peregrinos como por habitantes. E tambem considerado um local auspicioso para a  cremacao dos mortos, existindo “gahts” especificos para a realizacao destas cerimonias, que sao discretas e sem grande aparato.

Segundo ouvimos… “Delhi e a capital, mas Varanasi e o coracao da India”… realmente e uma cidade vibrante, cheia devida, sons, cores, movimento. Somente o calor e a humidade que se sente nesta altura do ano, roubam a energia aos seus habitantes, fazendo com que os corpos se entreguem a uma certa lassidao que leva ao sono leve; passando por uma loja ou olhando para o interior de uma casa cuja porta permanece despreocupadamente aberta, numa soleira de uma porta, ou junto a entrada de um templo encontram-se pessoas a dormitar, completamente alheias do movimento que as rodeia. Corpos abandonados, expostos e vulneraveis.

Ruas estreitas com pavimento em pedra ja gasta pelo tempo, contornam de forma labirintica os edificios que compoem a parte antiga da cidade, onde inumeros templos hindus disputam ardoamente o espaco, convivendo de perto com as habitacoes que se aninham umas contra as outras, elevando-se instavelmente por varios andares, conferindo as ruas uma quase premanente sombra, onde se pode sentir algum alivio do calor e da humidade provocada pela moncao. Nesta densa paisagem urbana, surge esporadicamente o verde brilhante de uma arvore, cujo retorcido tronco ou as suas raizes aereas atestam a sua antiguidade. Muitas delas sao as chamadas arvores de Bodhi, junto a qual Budha atingui a iluminacao e por isso consideradas sagradas e local de devocao pelos hindus.

Varansi apresenta uma aparente decadencia, como se lhe tivessem estendido um manto de humidade e  fungos, cobrindo todos os edificios, casas, lojas e templos, roubando o brilho das cores berrantes com que estao pintados, sem contudo perder a sua dignidade ou a beleza do conjunto.

Por todas as ruas se veem vacas, cabras, caes, criancas semi-despidas a brincar, velhos sentados junto a entrada das casas, mulheres a preparar a comida ou a lavar roupa, homens a tirar aguas dos pocos, vendedores de “paan”, de comida, de artigos religiosos para as cerimonias do “puja”… Nuvens de moscas sobem dos dejetos das vacas, dos caes e dos habitantes a medida que vamos passando, o que juntamente com o lixo domestico existente nas ruas, impregna o ar com um odor acre e azedo. A chegada aos ghats traz uma lufada de ar-fresco e de luz, abrindo as estreitas ruas ao Ganges que corre castanho e lamacento.

Com a moncao e especialmente devido as chuvas que cairam no mes passado provocando inundacoes no estado de Uttarakhand, o nivel do rio subiu bastante, sobmergindo a maior parte dos ghats, tornando impossivel percorrer a cidade junto ao Ganges e impedindo a circulacao dos barcos donde se tem uma vista previligiada de Varanasi. Nos seis dias que aqui passamos, assistimos incredulos a descida do nivel da agua, cerca de dois metros, pondo a descoberto muitas das escadas de acessoao rio.

“Varanasi e uma aldeia com dois milhoes de habitantes” ouvimos esta frase da boca de um australiano que vive a cerca de seis anos, com a familia, nesta cidade, que ama e por vezes odeia. Uma aldeia que cresceu sem planeamentonem infra-estruturas ou de agua, na maioria das casas da parte antiga. As ruas principais encontram-se em mau estado, sem passeios, em valetas e com grandes buracos nas zonas pavimentadas, que quando caem as grande chuvadas, foram grandes pocas lamacentas, dificeis de contornar, tornando as ruas quase intransitaveis e provocando o caos no transito. O lixo e despejado nas ruas e recolhido diariamente de manha, de forma rudimentar com a ajuda de tabuas em substiuicao de pas e vassoras, e reunido em locais especificos em varias zonas da cidade, onde ai vai sendo empilhado permanecendo dias ate ser transportado para outro local,servindo de repasto as vacas, cabras e caes impregnando o ar de um cheiro a azedo e repleto de moscas.

Somente no ultimo dia que passamos em Varanasi vimos um pouco do azul do ceu, que se manteve sempre carregado de espessas nuvens cinzentas e que perante a ausencia de qualquer aragem permaneceram sobre o rio e a cidade roubando-lhe as cores.

Varanasie tem personalidade, alma, passado, devocao e religiosidade. E, sem duvida a cidade indiana mais bonita, onde espero voltar.

Ghats – zona de acesso a um rio ou lago, constiuido por degrau em pedra onde os crentes hindus se banham

Vendedores de flores para a cerimónia do "puja" no Assi Gath
Vendedores de flores para a cerimónia do “puja” no Assi Gath
Vendedores de "chai" num dia de chuva durante o "puja"
Vendedores de “chai” num dia de chuva durante o “puja”
"puja" no Assi Gath
“puja” no Assi Gath
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Varanasi junto aos "ghats"
Varanasi junto aos “ghats”
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Templo inundado em resultado das fortes chuvas da monção
Templo inundado em resultado das fortes chuvas da monção
Varanasi junto aos "ghats"
Varanasi junto aos “ghats”
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
"lingam" símbolo da religião hindu que representa Shiva, a criação e a destuição
“lingam” símbolo da religião hindu que representa Shiva, a criação e a destuição
Assi Ghat
Assi Ghat
Uma das ruas de acesso ao nosso alojamento, um pouco a sul do Assi Ghat
Uma das ruas de acesso ao nosso alojamento, um pouco a sul do Assi Ghat
Om Café perto do Assi Ghat, onde se podem tomar pequenos almoços e refeições ligeiras ao gosto ocidental
Om Café perto do Assi Ghat, onde se podem tomar pequenos almoços e refeições ligeiras ao gosto ocidental
Sonapura Road que limita a zona mais antiga da cidade e liga, paralelamente ao Ganga, o Assi Ghat e o centro da cidade, Godaulia
Sonapura Road que limita a zona mais antiga da cidade e liga, paralelamente ao Ganga, o Assi Ghat e o centro da cidade, Godaulia
Perto do Ganga
Perto do Ganga
O autor do primeiro roubo que fomos sujeitos: atacou sub-repticiamente um saco de mangas, tendo-se apropriado de uma delas
O autor do primeiro roubo que fomos sujeitos: atacou sub-repticiamente um saco de mangas, tendo-se apropriado de uma delas
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Junto ao Manikarnika Ghat, um dos ghats onde se realizam cremações de corpos
Junto ao Manikarnika Ghat, um dos ghats onde se realizam cremações de corpos
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Experimentando um "longi"numa das lojas próximo do Dashaswamedh Ghat
Experimentando um “longi”numa das lojas próximo do Dashaswamedh Ghat
Próximo do Dashaswamedh Ghat
Próximo do Dashaswamedh Ghat
Assi Ghat
Assi Ghat
Assi Ghat, com vendedores de artigos religiosos para oferendas durante o "puja"
Assi Ghat, com vendedores de artigos religiosos para oferendas durante o “puja”
Godaulia: centro de Varanasi
Godaulia: centro de Varanasi
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Godaulia: centro de Varanasi
Godaulia: centro de Varanasi
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Restaurante Keshari em Godaulia, que ficámos clientes apesar de termos que apanhar um rickshaw para lá irmos, pois situa-se em Godaulia, na rua de acesso ao Dashaswamedh Ghat
Restaurante Keshari em Godaulia, que ficámos clientes apesar de termos que apanhar um rickshaw para lá irmos, pois situa-se em Godaulia, na rua de acesso ao Dashaswamedh Ghat
Estação de Mughal Sarai, bastante afastada de Varanasi, onde tivemos que ir apanhar o comboio de regresso a Delhi
Estação de Mughal Sarai, bastante afastada de Varanasi, onde tivemos que ir apanhar o comboio de regresso a Delhi

Para fugir a confusao e a intensidade que se vive no centro da cidade de Varanasi, seguimos a sugestao da nossa amiga Rebecca e ficamos no Assi Ghat, o mais afastado do centro. Foi realmente uma boa sugestao pois o local e amplo e muito mais calmo do que qualquer outro que visitamos.

Depois de uma longa procura, onde nos perdemos nas intrincadas ruas em busca de uma guest house, limpa, com o minimo de condicoes e com precos razoaveis, o que se revelou dificil apesar de estarmos em epoca baixa, encontramos o Yoga Mandir; este espaco funciona tambem como centro de yoga, centro de terapias ayurvedicas, escola de massagens e restaurante de comida organica (nao e toda?!?!). Mas o que os levou a ficar aqui alojados foi o espaco: situado junto ao rio, com os quartos disposto em galerias, virados para um pequeno jardim.

Apesar de tudo nao encontramos aqui o ambiente necessario para tornar a estadia agradavel, devido a um misto de antipatia e desinteresse demonstrado pelo pessoal que estava a gerir a guest house, que nao ajudou a criar boa impressao deste espaco, que durante a epoca alta deve estar entregue em melhores maos.

A comida “oarganica” que experimentamos era comestivel mas muito basica e de confecao descuidada.

Para compensar tinhamos wi-fi incluido no preco do quarto, que custou, depois de algum regateio, 600 rupias por noite… mais do que estamos habituados a pagar.

Varanasi vista da guest house onde ficámos alojados, perto do Assi Ghat: Yoga Mandir
Varanasi vista da guest house onde ficámos alojados, perto do Assi Ghat: Yoga Mandir
Perto do Toga Mandir
Perto do Toga Mandir
Acesso do Assi Ghat ao Yoga Mandir
Acesso do Assi Ghat ao Yoga Mandir
Assi Ghat e Varanasi, ao fundo, vistos do Yoga Mandir
Assi Ghat e Varanasi, ao fundo, vistos do Yoga Mandir
Yoga Mandir, onde todas as tarde eram entoados cânticos religiosos ao som de campainha e do harmónio
Yoga Mandir, onde todas as tarde eram entoados cânticos religiosos ao som de campainha e do harmónio
Yoga Mandir
Yoga Mandir
Entrada do Yoga Mandir
Entrada do Yoga Mandir
Vista do nosso quarto no Yoga Mandir
Vista do nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir... espartano como uma cela de mosteiro
O nosso quarto no Yoga Mandir… espartano como uma cela de mosteiro

Delhi… segundo “round”

De volta à grande cidade, a segunda maior da Índia com mais de 12 milhões de habitantes, desta vez para enfrentar temperaturas mais elevadas e a intensa humidade provocada pela monção, que contribui fortemente para o desconforto que se sente quando se anda pelas ruas, mesmo de manhã cedo ou depois do pôr do sol, obrigando-nos a procurar refúgio por baixo de uma ventoinha ou com sorte, perto de um ar-condicionado.

Quando chegámos ao terminal de autocarros de Delhi, tivemos a ajuda de um rapaz de Kashmir com quem viajamos, para irmos de metro até Paharganj, evitando assim os astronómicos preços que os condutores de tuk-tuk nos pediam. Uma boa surpresa que em nada fica a dever ao Metro que conhecemos de Lisboa… até na semelhança de apresentarem uma rede extremamente pequena tendo em conta a dimensão das cidades; o ar-condicionado nas carruagens foi uma bênção pois com o calor, humidade e com o peso das malas, o suor escorria em abundância, empapando a roupa e tornando a pele peganhenta e luzidia.

Nesta segunda estadia, afastámo-nos um pouco da zona do Paharganj, junto à estação de comboios de New Delhi, e explorámos o bairro de Connought Place, um pouco mais a sul, mas suficientemente perto para irmos a pé.

Connought Place é uma zona ampla, formada por ruas circulares que se desenvolvem em volta de uma rotunda, onde os edifícios de estilo clássico, com dois ou três piso, disposto homogeneamente em volta da praça central, se encontram bem conservados e uniformemente pintados de branco; à volta desta área vêm-se edifícios modernos, altos e de aspecto pesado. As ruas são largas, onde é possível circular pelo passeios (… sim, aqui há passeios) a confortável distância do trânsito, que nesta zona nem apresenta a habitual confusão nem a sinfonia de buzinas.

Aqui é o coração da zona mais sofisticada de Delhi, onde se podem encontrar, protegidas pelas arcadas apoiadas em pilares, muitas lojas com as mais conhecidas marcas internacionais e outras vendendo luxuosa roupa tradicional indiana, ourivesarias, cinemas, hotéis de luxo, restaurantes sofisticados, boas livrarias… tudo destinado aos consumidores com mais dinheiro. As pessoas com quem nos cruzámos vestem de forma ocidental, alguns com roupa de “escritório”, por vezes falando inglês entre si.

Paharganj, a zona onde estamos alojados, é o oposto: andar a pé é uma verdadeira prova de perícia, tendo constantemente que nos desviar de pessoas, bicicletas, tuk-tuk, motas e carros, poças de lama, montes de lixo, vendedores ambulantes que empurram carrinhos de mão, mendigos, vacas deambulando calmamente pelo frenesim das ruas, alheias ao movimento humano, cães que dormem enroscados durante quase todo o dia nos locais mais estranhos, água que escorre não se sabe bem de onde… enfim um mundo fervilhante de vida!

Com a chuva que chega ocasionalmente mas com bastante intensidade, todo o chão fica lamacento e escorregadio, formando poças nos vários buracos da estrada… não há passeios onde procurar refúgio e um passo em falso pode significar mergulhar dramaticamente o pé, ou mesmo a perna, num liquido escuro, espesso e fétido.

Nas ruas escuras e estreitas que dão acesso ao Main Bazar, a rua principal de Paharganj, nuvens de moscas sobem do lixo e dos dejectos das vacas à medida que passamos; o cheiro dos urinóis que se encontram espalhados pelas ruas secundárias, invade acidamente as narinas.

Esta zona corresponde à imagem tradicional das cidades indianas: confusa, barulhenta e suja, prédios inacabados e outros prestes a cair, mas ao mesmo tempo é intensa, cheia de vida e de cor: são os “sarhees” das mulheres, os “lungis” dos homens, o laranja dos panos que cobrem os “babas”, o cheiro das chamuças acabadas de fritar, do “chai” acabado de fazer, a acidez do leite junto aos vendedores de iogurte e “panner”, o doce dos “lassis”… o perfume das especiarias que sai dos restaurantes cuja cozinha é quase sempre na rua… excessivo, intenso e apaixonante.

Connought Place e Paharganj são duas imagens dos contrastes que a cidade de Delhi apresenta e reflectem também a Índia, em que o desenvolvimento e a ocidentalização caminham paralelamente com a pobreza e as tradições religiosas e culturais. Aparentemente, as mudanças estão a ser aceleradas devido ao rápido crescimento económico, do qual os indianos têm consciência e de que se orgulham, mas que cria uma sociedade mais materialista e que vai minando os valores morais de respeito, honestidade e generosidade que caracterizam o povo indiano. A isto chama-se progresso.

A ultima paragem que fizemos da viagem de Srinagar
A ultima paragem que fizemos da viagem de Srinagar, num restaurante à beira da auto-estrada
Interior do autocarro-cama onde fizemos a viagem de 26 horas entre Srinagar e Delhi
Interior do autocarro onde fizemos a viagem de 26 horas entre Srinagar e Delhi. Viajamos no piso de cima onde os lugares são “camas”… até nem foi das piores viagens!
Connaugath Place
Connougth Place
Connaugath Place
Connougth Place
Delhi. Main Bazar, rua principal do Paharganj
Delhi. Main Bazar, rua principal do Paharganj
restaurante Sita Ram, no Paharganj em New Delhi especializado em "channa bhtura"... e aqui na Índia quando um restaurante se especializa em algo, só tem mesmo isso!!!
restaurante Sita Ram, no Paharganj em New Delhi especializado em “channa bhtura”… e aqui na Índia quando um restaurante se especializa em algo, só tem
mesmo isso!!!
"Channa Bhatura" do restaurante Sita Ram em New Delhi
“Channa Bhatura” do restaurante Sita Ram em New Delhi. Há hora do almoço a fila chega à rua… e foi isso que me chamou a atenção e me fez entrar! O prato, um caril de grão, é servido com caril, um pão frito semelhante ao qe chamamos “massa-tenra”
vendedor de snaks, à base de massa frita temperada com diferentes variedades de "massalas"
vendedor de snaks, à base de massa frita temperada com diferentes variedades de “massalas”, que são feitos no interir da loja, cuja banca ocupa  parte da rua.
Chamussas numa das ruas secundárias do bairro de Paharganj... aqui somente se vendem chamussas, um outro frito semelhante mas de forma circular achatada e os
Chamussas numa das ruas secundárias do bairro de Paharganj… aqui somente se vendem chamussas, um outro frito semelhante mas de forma circular achatada e os tradicionais doces indianos que se encontra com mais frequência por todo o país: gulab
Pelas 5 da tarde, altura em que a loja abre e em que começas a ser fritas, os clientes fazem fila... e com razão, pois foram das melhores que comi... e repeti muitas outras vezes!
Pelas 5 da tarde, altura em que a loja abre e em que começas a ser fritas, os clientes fazem fila… e com razão, pois foram das melhores que comi… e repeti muitas outras vezes!
Espaço anexo que também ocupa parte da rua, como é normal na Índia, onde as maravilhosas chamussas são fritas
Espaço anexo que também ocupa parte da rua, como é normal na Índia, onde as maravilhosas chamussas são fritas
Um dos mais de cinco empregados que esta pequena loja tem, fora os que se encontram nas traseiras a preparar as chamussas
Um dos mais de cinco empregados que esta pequena loja tem, fora os que se encontram nas traseiras a preparar as chamussas
Rua do Hotel Ajay e do Hotel Hare Rama
Rua do Hotel Ajay e do Hotel Hare Rama

Depois da espelunca onde ficamos na primeira vez que aqui viemos, optámos por “abrir os cordões à bolsa” e ficar alojados num sitio decente e com ar-condicionado, para podermos recuperar decentemente das 26 horas de viagem de autocarro, que nos trouxe de Srinagar. Escolhemos o Ajay Guest House, mesmo em frente do Hare Rama Hotel, onde tínhamos ficado em Abril.

Por 1000 rupias (cerca de 14€) tivemos direito a um quarto de luxo, sofá, mesa, secretária, televisão, internet no quarto, limpeza e espaço… muito espaço; até fomos presenteados com os habituais “kits” de hotel que incluem sabonete, pasta e escova de dentes, champô, cotonetes, lâmina de barbear… um luxo para a nossa condição de “backpackers”!

Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay

Ajay Guest House

5084-A, Main-bazar, Paharganj, New Delhi

Tel: +91-11-23583125

ajay5084@hotmail.com

www.ajayguesthouse.com

Srinagar e a John Friends Guesthouse

Mesquitas, mausoléus, jardins, lagos, pontes, canais, houseboats e shikaras… nada foi mais marcante em Srinagar, do que o tempo que passamos na John Friends Guesthouse.

Fica situada junto ao lago Dal, numa zona próxima de uma comporta que dá acesso ao Rio Jhelum, daí chamada Dal Gate. Percorremos um caminho pedonal ao longo do lago afastando-nos da movimentada rua principal, onde somos diariamente saudados e convidados a entrar nas várias lojas de recordações e de artesanato de Kashmir, postos de internet w agencias de viagens, intercaladas com alfaiates, talhos, barbeiros, mercearias, padarias… daqui percorremos um estreito caminho em madeira, assente sobre estacas, que apesar de seguimos a direcção oposta ao logo, é todo feito sobre a água.

Na primeira noite ficamos num quarto situado no piso superior da antiga, pequena e aparentemente frágil casa de madeira, onde vive a família do Javid, que é a pessoa que está à frente do “negócio” da guesthouse.

Os restantes quartos situam-se numa construção mais recente, em tijolo, que se esconde por trás da casa da família.

Entre as duas casa temos os jardim, relvado, com flores e árvores de fruto, que juntamente com a restante vegetação da vizinhança cria um ambiente bastante agradável, onde abundam aves, desde o comum pardal, até às águias… e claro as barulhentas gralhas que são muitas das vezes responsáveis pelo matutino despertar.

A varanda da casa onde estamos, como mesa cadeiras e um sofá, tem sido o local de eleição para passar-mos languidamente as horas de maior calor, ou os dias em que a chuva faz descer as temperaturas. Aqui comemos as refeições que compramos diária e “religiosamente” no New Krishna Daba e pomos a conversa em dia com os nossos “vizinhos” que são maioritariamente ocidentais.

Com todas estas condições, e dispondo de um frigorífico que partilhávamos com os donos da casa, fomos aproveitando a abundância de fruta que se encontra por Srinagar, libertando-nos da forçada dieta de bananas e mangas a que temos estado sujeitos desde que chegamos à Índia; aqui temos cerejas, melão, maçãs, alperces… mas foi a melancia que ganhou e serviu para refrescar os lanches nos dias mais quentes.

Sexta-feira é dia santo para os muçulmanos e durante toda a manhã os altifalantes das várias mesquitas espalham pela cidade as orações e os textos do Alcorão, entoando uma monótona melodia que se sobrepõe ao som das buzinas que dominam a atmosfera da cidade. É quase lua cheia, está quente e um pouco húmido. Da casa em frente vêm os sons de uma família que convive após o jantar. As mulheres, sempre de cabeças coberta por um véu, saem pouco de casa para além das deslocações para algumas compras na mercearia mais próxima; cabem-lhes as tarefas domésticas de preparar a comida, lavar a roupa e cuidar das crianças. A casa não dá muito trabalho, pois praticamente não têm mobília nem tão pouco objectos de decoração. Aos homens da casa, que falam inglês, fica entregue o negócio da guesthouse e da venda de pashminas.

Num dos dias que aqui estivemos fomos convidados a jantar com a família do Javid, no alpendre situado à entrada da casa e que funciona como cozinha, local para tomar as refeições, receber os amigos e passar os tempos livres. A comida foi bastante simples e reflecte o que é habitual: arroz, muito arroz, lentilhas (dahl) e um carril de legumes. Ficámos finalmente a conhecer as relações de parentesco entre as dez pessoas que habitam na casa.

Foi por estarmos tão bem nesta casa que fez com que a estadia em Srinagar se prolongasse por dezassete dias!!!

Vista da marginal que circunda o Lago Dal, chamada Boulevard, perto do Dal Gate, onde se situava a John Friends Guesthouse
Vista da marginal que circunda o Lago Dal, chamada Boulevard, perto do Dal Gate, onde se situava a John Friends Guesthouse
A casa da família
A casa da família
... num dia de chuva
… num dia de chuva
O quarto onde ficámos na primeira noite, situado por cima da casa da família
O quarto onde ficámos na primeira noite, situado por cima da casa da família
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
O nosso quarto na John Friends Guesthouse
O nosso quarto na John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
Refeição no New Krishna Daba, antes de termos tido a ideia de passar a lá comprar a comida e levar para casa, onde relaxadamente a podiamos apreciar, sem a pressão que se sente enquanto outras pessoas esperam por lugar
Restaurante New Krishna Daba, pertencente a hindus, que servia comida tipicamente indiana, antes de termos tido a ideia de passar a lá comprar a comida e levar para casa, onde com calma a podiamos apreciar, sem a pressão que se sente enquanto dezenas de pessoas lutam por um lugar no restaurante. Ficámos fãs e clientes diários; nós e os restantes “vizinhos” da guesthouse a quem fomos espalhando a dica. A comida foi sempre boa e em conta… experimentámos praticamente todos os pratos. Aqui estamos a comer uma Dosa, que é servida tradicionalmente ao pequeno-almoço no sul da Índia, acompanhada de um carril leve mas picante (sambar) e por um refrescante chutney de côco.
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
Mercearia que frequentávamos asiduamente. Ao lado, pertencendo aos mesmo donos, era o posto de internet, com optimas condições de ligação mas com péssimo aspecto
Mercearia que frequentávamos assiduamente. Ao lado, pertencendo aos mesmo donos, era o posto de internet, com optimas condições de ligação mas com péssimo aspecto
o posto de internet que era uma verdadeira barraca, mal construída em tijolo, madeira e plastico, mas que se aguentava firmemente nos seus três andares
o posto de internet que era uma verdadeira barraca, mal construída em tijolo, madeira e plastico, mas que se aguentava firmemente nos seus três andares
A padaria onde diáriamente íamos comprar o pão para o pequeno almoço, e por vezes para o lanche da tarde.... a manteiga era comprada na mercearia próxima que vendia cubinhos de manteiga por 5 rupias.
A padaria onde diáriamente íamos comprar o pão para o pequeno almoço, e por vezes para o lanche da tarde…. a manteiga era comprada na mercearia próxima que vendia cubinhos de manteiga por 5 rupias.

 

John Friends Guest House

Opp. Dal Gate, Ghat nº1, Pedestrian Mall Road

Srinagar, Kashmir

Tel: 0194-2458342

 

 

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Sou a Catarina, uma viajante de Lisboa, Portugal… ou melhor, uma mochileira com uma máquina fotográfica!

Cada palavra e foto aqui presente provém da minha própria viagem — os locais onde fiquei, as refeições que apreciei e os roteiros que percorri. Viajo de forma independente e partilho tudo sem patrocinadores ou anúncios, por isso o que lê é real e sem filtros.

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