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Stepping Out Of Babylon

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Stepping out of Babylon

Kathmandu. Swayambhunath

Kathmandu é nepalesa, mas convive bem com outras culturas, recebendo uma vasta comunidade de refugiados tibetanos que se encontram um pouco por toda a cidade mas que se concentra maioritariamente a oeste do Rio Bishnumati.

 A vasta cidade estende-se por uma planície emoldurada por uma cadeia montanhosa que a envolve, mas que poucas vezes se deixa ver através da neblina causada pela poluição provocada pelo intenso trânsito que entope as principais avenidas e lhes confere um manto de poeira cinzenta.

Das poucas elevações, Swayambhu, situada na zona oeste da cidade, destaca-se não tanto pela vista mas pela stupa, datada do século V que domina a colina e pelo conjunto de templos budistas que a rodeia.

Os 300 degraus feitos em pedra e já muito desgastados são o principal acesso para quem aqui chega a pé, vindo do centro da cidade, que são percorridos pelos peregrinos e pelos visitantes sob o olhar atentos das centenas de macacos que dominam a colina que envolve o templo, convivendo com os visitantes sempre com o intuído de se apoderarem de algo para comer ou simplesmente por curiosidade e divertimento.

A primeira impressão à chegada não foi a mais favorável, parecendo que o recinto religioso se tinha tornado numa feira, onde por todo o lado se encontram bancas de venda de artesanato, souvenires, bandeiras tibetanas e uma parafernália de bugigangas mais ou menos relacionadas com o artesanato tibetano e com a religião budista. No meio de tudo isto, dezenas de visitantes, em muito maior numero do que os peregrinos, em grupos liderados pelos respectivos guias, iam avidamente tirando fotografias a todos os detalhes e pormenores referidos durante a explicação.

Passada a primeira impressão, e demorando o tempo suficiente para que a hora do almoço afastasse grande parte dos visitantes o local revela-se verdadeiramente especial. Como se fosse uma pequena povoação com pouco mais do que duas ou três ruas, ladeadas por casas em tijolo, actualmente convertidas em lojas e restaurantes, e onde estão dispostas estátuas, altares e dezenas de pequenas stupas, decoradas com estátuas representando Buddha sentado em posição de meditação sobre uma flor de lótus que por sua vez repousa num yoni, símbolo feminino da criação, segunda a iconografia hindu, o que mostra como estas duas religiões foram absorvidas ao longo dos séculos, pelos nepaleses, em particular os habitantes do Vale de Kathmandu.

Swayambhu, esconde muitos detalhes que só se revelam numa visita mais demorada, com tempo para apreciar a rotina dos peregrinos efectuado as suas orações, acendendo incenso e pequenas velas que vão ardendo em toscos recipientes de barro, fazendo girar as rodas de orações enquanto circundam a stupa principal sempre no sentido dos ponteiros do relógio. Pequenas stupas e templos ocupam o espaço, onde em pequenos recantos surgem nichos representando várias fases da vida de Buddha.

Mas o que domina a atenção é sem dúvida é a stupa central, cuja brancura da sua enorme cúpula esférica contrasta com o intenso azul do céu. Grande parte do simbolismo e da cosmologia budista está aqui representado proporcionado aos peregrinos meditarem e refletirem enquanto efectuam as voltas em torno da stupa.

A cúpula branca representa o útero e consequentemente a criação; à volta os quatro nichos com imagens de Buddha orientados segundo os pontos cardeais representam os quatro elementos – água, ar, fogo e terra – ao qual acresce mais um representando o elemento espaço ou céu. Sobre a cúpula ergue-se um pilar de madeira que simboliza o elemento masculino, que está apoiado numa base quadrangular decorada com um panos verde brilhante, também orientada segundo os pontos cardeais, onde uma estão pintados os chamados “Adi-Buddha” que olham nas quatro direções, e que tudo vêm. Entre os olhos, do ponto chamado “urna” sai uma espiral que desce com uma forma ondulada e que representa a luz emanada. Os anéis dourados dispostos ao longo do pilar representam os trinta degraus necessários percorrer para se atingir a iluminação. No topo encontra-se uma estrutura cilíndrica dourada, também adornada por panos do mesmo tom, que termina numa forma cónica que aponta para o céu, simbolizando a chegada à iluminação espiritual.

Swayambhu
Swayambhu
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Swayambhu
Swayambhu

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Swayambhu
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Apontamentos do Nepal

Nepal vs Índia

Depois de uns meses na Índia, surgem as inevitáveis comparações entre o modo de vida, a cultura e a religião destes dois países vizinhos que à primeira vista muito têm em comum, mas onde um olhar mais atento revela bastantes diferenças: menos conservadores e mais cosmopolitas em especial em Kathmandu e Pokhara, as duas maiores cidades do país, onde não é raro encontrar casais a namorar, e onde a população mais jovem adopta roupa ocidental acompanhando as modas mais recentes, usando cortes de cabelo modernos, vendo-se mesmo rapazes de cabelo comprido, de dread locks, piercings… com as tatuagens a fazerem parte do visual urbano.

Contudo ainda é bastante frequente o uso das roupas tradicionais, como os sahrees e as kurtas, em especial nas mulheres das comunidades hindus. Quanto aos homens é raro encontrar algum que ainda use a tradicional vestimenta nepalesa, constituída por calças justas e túnica, em tecido de algodão branco, sobrepondo-se um colete em fazenda de côr escura. O tradicional chapéu, o topi, é contudo mantido orgulhosamente pela maioria dos homens nepaleses, mas nunca pelos rapazes novos, nem mesmo nas áreas rurais.

No Nepal a mulher tem um papel mais activo na sociedade, muitas falando inglês, mesmo que básico e encontrando-se à frente de negócios, que é notório mesmo nas zonas rurais, onde grande parte do trabalho recai sobre as mulheres acumulando as tarefas domésticas com o trabalho do campo. Nas montanhas, muitas ganham a vida como carregadoras, transportando pesados cestos às costas, apoiados na testa por tiras de pano, que ajudam a equilibrar a carga e distribuir o peso. Às mulheres fica também reservado o trabalho menos qualificado na construção civil, carregando tijolos, areia e cimento nas muitas obras que são uma presença constante nas zonas mais pressionadas pelo turismo.

São claramente um povo mais calmo e mais conhecedor de outras culturas, talvez devido à sua pequena dimensão face aos países vizinhos, e à emigração que dispersou cerca de dois milhões de nepaleses pelo mundo, em especial no médio oriente, onde constituem a principal fonte de mão de obra não qualificada.

É sem duvida um país pobre e menos desenvolvido do que a Índia, com poucos recursos naturais, sem acesso ao mar, com uma orografia difícil. Está assim vulnerável à pressão económica dos dois vizinhos, a China e a Índia, que vão gradualmente inundando o mercado nepalês com os seu produtos, ao mesmo tempo que financiam projectos de desenvolvimento, em especial de estradas que permitem a estes “gigantes” mais facilmente escoarem os seus produtos, não constituindo um incremento significativo nas exportações nepalesas. Num relatório das Nações unidas de 2008, o Nepal ocupava o 145º lugar em termos de desenvolvimento, num total de 153 países.

Nas grandes cidades, em especial Kathmandu, vêm-se pedintes com frequência; geralmente idosos, mulheres e muitas crianças, que insistentemente pedem comida e dinheiro, notando-se também o trabalho infantil, que não é dissimulado e constitui uma realidade para o sustento de muitas famílias.

O turismo, com mais de 500 mil visitantes anuais, é uma das grandes fontes de entrada de dinheiro no país, e emprega uma boa parte da população, mas está sujeito às flutuações da economia, especialmente da europeia, que condiciona o número de visitantes e a quantidade de dinheiro despendida.

Contudo das cerca dos 29 milhões de habitantes que o Nepal actualmente apresenta, cerce de 80% vive da agricultura, verificando-se nos últimos anos um êxodo para as cidades, em especial para o Vale de Kathmandu que entre 1990 e 2010 duplicou a população residente atingindo os 2 milhões de habitantes, contribuindo para agravar os problemas da cidade, em especial o trânsito e a poluição.

O elevado número de emigrantes revela bem a situação económica que o Nepal vive, onde não existe suficiente oferta de emprego, situação que se tende a agravar com o aumento crescente da população com mais de meio milhão de novos habitantes por ano. O aumento da população não é só devido ao aumento da taxa de natalidade, mas também da melhoria das condições sanitárias e de acesso à saúde, que fez descer a mortalidade infantil e aumentar a esperança média de vida, que em 1971 era de 43 anos e que actualmente passou para os 63.

Tudo isto trás consigo a necessidade de mais infraestruturas: estradas, escolas, casas esgotos, abastecimento de água e especialmente de comida, que se torna problemático num país em dominado por montanhas onde a agricultura é difícil e de baixo rendimento, com pouca possibilidade de mecanização, e onde a procura de novas zonas aráveis leva ao aumento da pressão ambiental e à rápida destruição da floresta.

A educação é uma grande aposta do estado, mas mesmo assim a percentagem de literacia ronda actualmente os 58%, valor em 1951, ano em que o país abriu as portas ao exterior rondava os 2%. Por todo o lado vêm-se crianças a irem para escola, com os seus uniformes, mesmo em zonas mais remotas das montanhas; mas por vezes têm que acumular os estudos com tarefas nos campos e o cuidar dos animais, fazendo com que muitos desistam, em especial nas famílias mais pobres.

Para quem avança para estudos superiores, abrem-se poucas perspectivas de emprego, pois o estado é o maior empregador de quadros superiores, e está sujeito às influências políticas, familiares e de castas que encerram a porta a muita gente, sendo a opção de muitos dos jovens as bolsas de estudo, oferecidas por ONG e outras organizações internacionais, que lhes permite irem para o estrangeiro, onde muitas vezes ficam a viver e trabalhar por falta de perspectivas no Nepal.

Há um esforço no aproveitamento hidro-eléctrico dos inúmeros rios que atravessam o país, construído com base em ajuda financeira externa, que permitiria ao Nepal resolver os problemas de abastecimento eléctrico à população, que actualmente obriga a cortes diários, podendo mesmo ser vendida aos países vizinhos passando a constituir fonte de rendimento. Contudo a actividade sísmica que caracteriza a região dos Himalayas juntamente com o clima de monções põem em causa a estabilidade das grande barragens, tendo já ocorrido acidentes.

É de uma forma geral um país mais limpo, onde não se vê com tanta frequência lixo despejado pelas rua… não quer dizer que estejam limpas mas nota-se um maior cuidado em comparação com as cidades indianas, o que também ajuda o facto de não haver praticamente vacas a passear pelas ruas das cidades de Kathmandu ou Pokhara.

Quanto à condução automóvel, também no Neplal se conduz pela esquerda, havendo à semelhança da Índia algum desrespeito pelas regras de circulação automóvel, mas mesmo assim os nepaleses são mais calmos na estrada não praticando uma condução tão agressiva. Mesmo as buzinas dos automóveis, que são poucos e das motas que são um constante nas cidades são uma presença menos intensa e perturbante, com excepção da cidade de Kathmandu, onde a densidade populacional a faz parecer, neste aspecto, com as mais caóticas cidades indiana.

Ao contrário da Índia, dominada pelo críquete, aqui no Nepal o futebol é rei, o que se vê pelos improvisados jogos de rua e pelo conhecimento de jogadores portugueses: Cristiano e Figo são nomes sabidos de cor o que faz do futebol um dos mais fortes factores de divulgação de um país.

Ktahmnadu onde ainda se encontam homens usando a tradicional roupa nepalesa e o topi, o típico chapéu
Ktahmnadu onde ainda se encontam homens usando a tradicional roupa nepalesa e o topi, o típico chapéu
Junto ao templo de Swayambuh, em Kathmandu
Junto ao templo de Swayambuh, em Kathmandu
Mulher carregnado mercadoria em Bandipur
Mulher carregando mercadorias em Bandipur, usando o tradicional lungi, preso à cintura com uma faixa de tecido
Rua de Kathmandu, onde não é raro encontrar graffitis, que convivem com o abundante número de imagens de Buddha
Rua de Kathmandu, onde não é raro encontrar graffitis, que convivem com o abundante número de imagens de Buddha
Cidade de Kathmandu, numa zona mais afastada do centro da cidade, onde são notórios os efeitos do rápido crescimento que a cidade tem registado nos ultímos anos e que não é acompanhado pelo desenvolvimento de infraestruturas, tornado o rio Bishumati, e outros que atravessam a cidade um depósito de lixo e esgoto
Cidade de Kathmandu, numa zona mais afastada do centro da cidade, onde são notórios os efeitos do rápido crescimento que a cidade tem registado nos ultímos anos e que não é acompanhado pelo desenvolvimento de infraestruturas, tornado o rio Bishumati, e outros que atravessam a cidade um depósito de lixo e esgoto

Castas

Uma das coias que o Nepal importou do seu vizinho do sul, trazida pela população indiana, em especial das castas mais altas, os brâmanes, que foi fugindo da ameaça Muçulmana que aos poucos foi ocupando o norte do país, foi o sistema de castas que apesar de ilegal ainda hoje se mentem e que domina fortemente a sociedade e mesmo a economia.

Apesar de ter sido oficialmente abolido em 1964, o sistema de castas é ainda válido no comportamento social dos Nepaleses em especial no que se relaciona com os casamentos; contudo vão-se verificando lentas mudanças existindo actualmente vários casais constituídos por indivíduos de castas diferentes, mas que por vezes não são bem aceites pelas famílias, o que numa sociedade baseada nas relações familiares implica muitas dificuldades.

Os grupos étnicos habitantes das regiões montanhosas, onde a religião hindu não tem grande expressão, não se encaixam nesta organização social sendo maioritariamente influenciados pelo Budismo Tibetano.

 

Numeração e calendário

Para além de pouca coisa estar escrita em caracteres ocidentais, o Nepal tem a sua própria grafia em relação aos algarismos.

No caso das notas o valor facial aparece com os dois tipos de caracteres, assim como por extenso em nepali e em inglês, mas somente numa das faces, o que obriga a quem ainda não está habituado a virar e revirar as notas para ver o seu valor, com a agravante de estarem quase sempre em mau estado, o que dificulta a percepção da côr que as poderia facilmente identificar. Moedas é coisa rara.

Apesar dos Nepaleses adoptarem o calendário internacional, mantêm o seu próprio calendário cujos meses não coincidem exactamente aos que estamos habituados, fazendo com que o ano nepalês seja actualmente de 2070.

Calendário nepalês
Calendário nepalês

 

Tabaco e Alcool

O álcool está bastante difundido pelo Nepal, tanto nas montanhas com a sua tradicional aguardente, o raksi, como por todo o restante território onde abunda a cerveja e as bebidas destiladas, sendo já o alcoolismo um dos principais problema de saúde pública do país. Nas zonas mais turísticas facilmente se encontra vinho oriundo do Chile, Argentina África do Sul, França… e também o vinho nacional: o Hinwa. No bairro mais turístico de Kathmandu, o Thamel, é possível encontrar Mateus Rosé!!!! Somos grandes!

Num país onde o consumo de tabaco é permitido em praticamente todo o lado, nota-se um elevado número de fumadores, que abrange cerca de metade da população.

As mulheres das várias tribos e grupos étnicos que habitam as montanhas na zona do Annapurna, e que se vêm nas cidades vizinhas vendendo os seus produtos agrícolas, são também grandes consumidoras de tabaco, vendo-as nos momentos de pausa para descanso e conversa entre si a desencantarem um cigarro, do meio da longa faixa de tecido com que envolvem a cintura e que ajuda assegurar o lungi, pano longo até aos tornozelos, que enrolam à cintura, e onde sobressaem os padrões florais e geométricos em cores quentes e ocre.

Nos percursos que fiz pelas montanhas, é muito frequente ver homens e mulheres a consumir tabaco de mascar, que retiram de pequenas caixas metálicas, e colocam na boca, depois de amassarem os pedaços na palma da mão.

 

https://steppingoutofbabylon.com/wp/en/2016/09/a-guide-for-snacks-and-street-food-in-kathmandu/

 

https://steppingoutofbabylon.com/wp/en/2016/11/in-search-of-the-best-dal-bhat-in-kathmandu/

 

Viajar de autocarro no Nepal

Bilhete de autocarro... onde pouca informação aparece em caracteres ocidentais, inclusive os numeros
Bilhete de autocarro… onde pouca informação aparece em caracteres ocidentais, inclusive os numeros

Qualquer percurso de autocarro no Nepal é por si uma viagem.

Num país que somente nos anos 50 começou a abrir as suas fronteiras ao estrangeiros, e onde até então Kathmandu permanecia acessível somente a pé, onde não existe via férrea, as únicas formas de viajar pelo Nepal são de avião ou as estrada que gradualmente têm sido construídas e que cobrem praticamente todo o território.

O avião que é a opção preferida pelos turistas, não só pela rapidez associada ao reduzido custo, mas especialmente para evitar as longas e sinuosas estradas que atravessam as montanhas e que invariavelmente se encontram ao mau estado, com lombas, buracos e por vezes com zonas praticamente sem pavimento, onde cada monção arrasta consigo parte do esforço despendido na construção de novas vias e na manutenção das existentes, e que dados os fracos recursos económicos do país são difíceis de recuperar.

Contudo os autocarros são a forma mais barata de viajar, para quem tem tempo para apreciar o colorido e a agitação de uma destas viagens, em autocarros degradados pelos anos e pelo estado das estadas, mas onde se nota um cuidado muito particular na sua manutenção, não só pelas sucessivas camadas da colorida pintura exterior realçadas pelos elaborados desenhos de “Shiva” como na decoração com fitas de aplicações metálicas que tornam cada veículo diferente de todos os outros.

O interior é também por vezes uma verdadeira obra-de-arte, com painéis coloridos a revestirem o tecto e as paredes do veículo, e coloridos panos cobrindo os assentos que por vezes se encontram partidos ou substituídos por bancos que deve ter pertencido a outro veículo. A música é uma constante em todas as viagens, sendo debitada pelo improvisado sistema de som que cada autocarro tem.

Em todos os autocarros, tanto os que circulam em meio urbano como os de longo curso, para além do condutor existe o cobrador de bilhetes, que acumula com a função de arrumar a diversificada bagagem que é transportada tanto no interior como no exterior do veículo; tem um papel importante na angariação de “clientes”, saindo em cada paragem e gritando pela rua o destino do autocarro, e dando pancadas com a mão no exterior do veículo para indicar ao motorista que ainda tem que esperar por mais algum passageiro atrasado que se apressa a correr para o autocarro.

Provocam um frenesim cada vez que chegam a uma paragem, mas são uma grande ajuda para saber qual o autocarro certo para o nosso destino e para nos indicarem ao local onde queremos sair, especialmente num país onde poucas indicações existem em caracteres ocidentais, incluindo a numeração que usa frequentemente os caracteres nepaleses.

Encontrar uma paragem de autocarro também não é tarefa fácil, pois, com excepção de algumas zonas dentro das cidades e ao longo das principais estradas, não existe qualquer indicação quanto ao local de paragem. A solução é perguntar aos solícitos habitantes que prontamente nos indicam o local, onde geralmente se encontram outras pessoas já à espera. Não há horários certos, iniciando-se a viagem geralmente quando o autocarro está cheio ou quase; pára-se se o motorista quer ir comer alguma coisa ou cumprimentar alguém… e pára-se muitas vezes… Esta ausência de paragens proporciona a entrada e saída do autocarro em praticamente todo o lado, o que torna alguns curtos percursos numa longa viagem, tornando imprevisível a hora de chegada ao destino.

Num país onde o transporte individual é raro, o autocarro serve para transportar de tudo; é preciso arranjar espaço, num veículo já cheio para uma mulher que entra carregando o seu cesto de bambu, com produtos para vender nos mercados, entram sacas de arroz, bilhas de gás… no tejadilho vão uns móveis e mais sacas, umas cabras, que de inicio protestam ao serem içadas mas que permanecem sossegadas o resto do caminho…

Para além dos autocarros, os camiões de mercadorias são também uma presença constante nas estradas, provocando longas filas nas íngremes subidas das estradas de montanha, onde estes veículos acusam o peso da idade, mas cuja decoração é orgulho dos motoristas, com desenhos de deuses hindus e de outra simbologia religiosa, fazendo com que cada veículo seja diferente.

Autocarro de passageiros, que efectuam os maiores percursos; no meio urbano ou entre aldeias os veículos são mais pequeno ao ponto de não terem altura suficiente para uma pessoa viajar de pé.
Autocarro de passageiros, que efectuam os maiores percursos; no meio urbano ou entre aldeias os veículos são mais pequeno ao ponto de não terem altura suficiente para uma pessoa viajar de pé.
Autocarro em Pokhara
Autocarro em Pokhara
Tecto de um autocarro em Pokhara
Tecto de um autocarro em Pokhara
Bus entre Lumbini e Pokhara... o melhor autocarro de todas as viagens que fiz pelo Nepal
Bus entre Lumbini e Pokhara… o melhor autocarro de todas as viagens que fiz pelo Nepal
Estação de autocarros em Bhaktapur
Estação de autocarros em Bhaktapur
Transporte de Mercadorias
Camião de transporte de Mercadorias, numa das muitas paragens na estrada que liga Lumbini a Pokhara
Cabra
Cabra

 

Bandipur

Começa cedo a vida na aldeia, ainda antes de desparecerem as sombras, com o cantar dos galos que se passeiam livremente pelos caminhos da aldeia, ouvindo-se o som da água a correr para as lavagens matinais, o toque do sino à entrada dos templos, a faca a picar os legumes, o ritmo mecânico da máquina de costura… o cheiro da lenha a ser queimada para a aquecer a primeira refeição da manhã, que lentamente vai subindo pela chaminés e permanece sob a aldeia, retido pelas espessas nuvens que cobrem o céu donde se desprendem grossos pingos de chuva.

Situada no cimo de uma colina, perto da estrada que liga as duas maiores cidades nepalesas – Kathmandu e Pokhara – Bandipur foi durante o século IX um posto importante na rota comercial entre a Índia e o Tibete, tendo sido colonizada pelos Newar, povo oriundos do Vale de Kathmandu, desenvolvendo-se essencialmente ao longo de uma rua, com pouco mais de duzentos metros, a partir da qual divergem quatro trilhos, que aos poucos vão ficando desertos de casas e que conduzem aos campos agrícolas que circundam a povoação.

Pela aldeia existem diversos templos e santuários dedicados ao culto religioso, construídos em tijolo e com decorações em madeira trabalhada, deixados pelo Newar que praticam uma religião que consiste num misto de Budismo, que trouxeram do norte do país com o Hinduísmo vindo do Terai, as planícies do sul do Nepal.

Praticamente todos os edifícios da rua principal e alguns dos que situam nas ruas secundárias funcionam como guest-houses e restaurantes, mantendo contudo a arquitectura tradicional, constituída por casas com um ou dois pisos: o de baixo destinado a armazém ou actividade comercial e os restantes a habitação, com paredes construídas em tijolo, telhados em ardósia e onde as ombreiras de portas e janelas, assim como os varandins apresentam motivos decorativos talhados na madeira.

O quarto em que fiquei alojada, é numa destas típicas casas, onde a rústica estrutura interior é de madeira, acusando todos os movimentos dos passos, com a janela do pequeno varandim, sem vidros, protegida somente por portadas, virada para rua principal; e onde tanto as portas como as escadas de acesso ao andar superior obrigam a algum cuidado pela sua pequena altura… Bandipur é dos locais onde mais se vê o aviso “mind the head”!

Bandipur
Bandipur

Vive-se um ambiente calmo, sem veículos automóveis, com as ruas a serem ocupadas por crianças a brincar, enquanto turistas esquadrinham as várias ruas da aldeia e trilhos circundantes, de máquina em punho, em busca de registo da bucólica atmosfera rural que Bandipur proporciona.

Bandipur é uma aldeia bilhete postal, de onde se vê alguns dos picos do Annapurna mas que as nuvens cinzentas que envolvem as montanhas não deixaram captar as melhores imagens.

Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Templo principal de Bandipur
Templo principal de Bandipur
Bandipur
Bandipur
Refeição takali... sempre servida em recepientes de latão... mas aqui devido ao turismo, para se ter o verdadeiro sabor é necessário pedir "spicy" caso contrário a comida é sem picante e pouco condimentada
Refeição takali… sempre servida em recepientes de latão… mas aqui devido ao turismo, para se ter o verdadeiro sabor é necessário pedir “spicy” caso contrário a comida é sem picante e pouco condimentada
New Guest House, na rua principal de Bandipur, onde ao rustico quarto correspondeu uma recepção fria e quase ausente dos donos da casa
New Guest House, na rua principal de Bandipur, onde ao rustico e acolhedor quarto correspondeu uma recepção fria e quase ausente dos donos da casa
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Junto ao templo principal de Bandipur, onde as crianças enchem as ruas nos fins de tarde
Bandipur
Inscirções em pedra à entrada do maior templo da aldeia, numa região onde a religião hindu está fartemente misturada com o Budismo
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur
Bandipur onde o Annapurna se manteve quase sempre escondido pelas nuvens
Bandipur onde o Annapurna se manteve quase sempre escondido pelas nuvens
Uma dos templos existentes na rua principal de Bandipur
Um dos templos existentes na rua principal de Bandipur

Pokhara

Pokhara, rodeada de montanhas é a segunda maior cidade do Nepal, com cerca de 300 mil habitantes. Quase se pode dizer que existem duas cidades bem distintas: uma que se desenvolve junto ao lago Phewa Tal, virada para o turismo e outra, que vai crescendo encosta acima, com avenidas largas repletas dos seus típicos bazares, movimentada, poluída, mas sem a infernal sinfonia de buzinas a que já me tinha habituado nas cidades indianas.

A zona junto ao Phewa Tal, denominada de Lakside,  gira em função do turismo onde tudo está adaptado aos padrões de consumo ocidentais, e especialmente às necessidades de quem aqui vem pelas caminhadas. A rua principal encontra-se repleta de lojas de material de trekking e campismo, artesanato nepalês, tibetano e indiano, agências de viagem, lojas de câmbios, spas, massagens, lojas de aluguer de bicicletas e outras dedicadas à canoagem e aos altos de parapente. Por todo o lado encontram-se hotéis e guest houses, e restaurantes com uma grande oferta em termos de culinária internacional, desde a indiana, passando pela francesa, grega, espanhola, alemã, mexicana e como não podia faltar, as pizzas e pastas! No meio disto tudo encontram-se também alguns restaurantes que servem comida nepalesa, em particular o daal bhat, mas adaptado ao gosto ocidental: pouco condimentado e sem picante.

Muitos dos visitantes, somente permanecem em Pokhara o tempo necessário para os preparativos antes de iniciarem os trekking ou no regresso, enquanto esperam pelo autocarro ou pelo avião que os leve de volta a Kathmandu de onde partem para os países de origem, sem tempo nem disponibilidade, contaminado mais do que absorvem, de uma cultura que continuam a desconhecer. Contudo vêm-se aqui um numero significativo de ocidentais que escolheu o Nepal para viver, falando a língua e adaptando os hábitos.

Por todo o lado crescem novos hotéis e novos restaurantes, num frenesim crescente com a aproximação da época alta, de tal forma que os sete dias que passei fora da cidade, durante o trekking ao Annapurna, foram suficientes para se registarem diferenças… mais lojas abertas, mais restaurantes. E significativamente mais gente nas ruas, pois aproxima-se o pico da temporada do trekking que são os meses de Outubro e Novembro.

Mas tudo isto não é suficiente para retirar a beleza ao lago e às montanhas que o envolvem, e que deixam ver, quando as nuvens levantam um pouco de um dos cumes do Annapurna com a sua neve brilhante contra o céu azul. As suas águas tranquilas são local para canoagem e passeios em pequenos barcos, mas também para muitos pescadores que daqui tiram o peixe que se encontra na ementa dos melhores restaurantes.

O ambiente Pokhara junto ao Phewa Tal é tranquilo, quase sem trânsito, e vai ganhado animação com a aproximação do fim do dia, que proporciona noites amenas, com os passeios a encherem-se de habitantes locais e de turistas em busca de um restaurante ou de algum artigo para comprar, enquanto grupos de mulheres vestindo os tradicionais lungis, de pano pousado sobre a cabeça, conversam sentadas sob as poucas árvores de “bodhi” que são o único apontamento verde ao longo da rua principal.

Os últimos dias aqui passados, depois do trekking no Annapurna foram cinzentos e com alguma chuva, que trouxe consigo dias mais frescos, o que proporcionou condições para passeios ao longo do lago, que é usado para tomar banho e lavar a roupa, e para ruidosos mergulhos dos mais novos.

Naya Bazar uma parte da cidade de Pokhara, afastada do lago Phewa Tal, onde pouco turistas vão
Naya Bazar uma parte da cidade de Pokhara, afastada do lago Phewa Tal, onde pouco turistas vão
Pokhara Lakeside
Pokhara Lakeside
Phewa Tal
Phewa Tal
Phewa Tal
Phewa Tal
Diariamente os habitantes do outro lado do Phewa Tal atravessam o lago para virem trabalhar, vender produtos agrícolas ou para virem à escola.
Diariamente os habitantes do outro lado do Phewa Tal atravessam o lago para virem trabalhar, vender produtos agrícolas ou para virem à escola.
Phewa Tal
Phewa Tal
Jogos de futebol, que diariamente têm lugar junto ao lago, num país onde o críquete tem pouca expressão e onde o nome de Cristiano Ronaldo é bem conhecido.
Jogos de futebol, que diariamente têm lugar junto ao lago, num país onde o críquete tem pouca expressão e onde o nome de Cristiano Ronaldo é bem conhecido.
Incentivos ao ensino num país onde se vêm bastantes crianças a trabalhar.
Incentivos ao ensino num país onde se vêm bastantes crianças a trabalhar.
Um dos principais cruzamentos de Pokhara Lakeside
Um dos principais cruzamentos de Pokhara Lakeside
North Lake Guest House, Lakeside North, Pokhara
North Lake Guest House, Lakeside North, Pokhara
North Lake Guest House onde estive alojada, na zona mais a norte de Lakeside, menos turística, mais calma e mais barata. Bom ambiente, boas condições e uma cozinha à disposição, para não falar na cama de rede de onde avistava o lago e as montanhas circundantes.
North Lake Guest House onde estive alojada, na zona mais a norte de Lakeside, menos turística, mais calma e mais barata. Bom ambiente, boas condições e uma cozinha à disposição, para não falar na cama de rede de onde avistava o lago e as montanhas circundantes.
North Lake Guest House, Lakeside North, Pokhara
North Lake Guest House, Lakeside North, Pokhara

North Lake Guest House

Lakeside, Khahare, Pokhara-6

Tef: 98460-84266

e-mail: paharianil@hotmail.com

Quarto duplo com casa de banho: 500 rupias

Phewa Tal
Phewa Tal
Pokhara
Pokhara

Annapurna Base Camp Trekking: logística e dicas

Licenças e Autorizações

Para entrar na região do Annapurna, seja para qualquer um dos trekkings é necessário ter autorização da ACAP (Annapurna Conservation Area Project) e o TIMS (Trekkers Information Management System), que custam respectivamente 2000 e 2010 rupias nepalesas (perto de 30€) e exigem a entrega de quatro fotografias para a emissão das respectivas autorizações que têm que ser apresentadas em postos situados no inicio e no fim do trekking, onde são carimbadas e onde o nosso nome é inscrito manualmente num grande livro de registos.

Autorizações da ACAP e da TIMS
Autorizações da ACAP e da TIMS

Guest-houses e restaurantes

Ao longo do percurso, desde Naya Pul até Annapurna Base Camp, existem inúmeras guest houses, algumas situadas em povoações, outras, na parte final do percurso, constituem em si a “povoação”, encontrando-se afastadas, no máximo a cerca de duas horas e meia de caminho, entre si. Todas apresentam características semelhantes: quartos básicos, somente com cama, almofada e por vezes uma pequena mesa, casa de banho e chuveiro partilhados e o restaurante onde é suposto serem efectuadas todas as refeições. A construção é em tijolo, mas muitas vezes as divisões entre os quartos são em madeira. Quase todos os quartos têm duas ou mais camas, podendo ser necessário partilhar o quarto com outras pessoas, em especial em dias de chuva, quando as guest houses ficam rapidamente cheias ou durante a época alta.

Os cobertores são fornecidos somente no fim do dia, depois do jantar… nunca cheguei a entender bem o motivo, talvez para que as pessoas permaneçam mais tempo no aconchego do restaurante e assim consumam mais?!?

O preço dos quartos, é de 150 rupias nepalesas, por pessoa (pouco mais de um euro) mas a comida é mais cara do que na cidade, e os preços vão aumentando ao longo do percurso, podendo um daal bhaat, que em Pokhara custa entre 130 e 150 rupias, custar 340 a 480 rupias. Quem optar por levar e preparar comida o preço do quarto duplo fica em 800 rupias. Para além do daal bhaat, as opções são vastas, desde a chamada comida continental, com sandwiches, pizzas, sopas, massas, tostas, panquecas, muesli, porrige, etc… passando pela comida asiática, noodles, momos, spring rools, arroz frito… uma grande variedade de escolha. Dentro de cada povoação os preços são os mesmos de guest house para guest house, assim como o menu, sendo definidos pela organização que gere os circuitos no Annapurna Sanctuary.

Os banho de água quente, que no inicio do percurso são gratuitos, passam a custar entre 150 a 250 rupias, o que pode parecer um abuso comparado com o resto, mas que comecei a achar justo depois de ver os carregadores a transportar bilhas de gás, às costas por percursos que podem demorar três dias a fazer, e onde não é possível recorrer a animais de carga. É necessário pagar para tudo, mesmo para carregar a bateria de um telemóvel ou de uma máquina fotográfica. O aquecimento no quarto é uma opção que também tem o seu custo.

Ao longo destes dias, a cor azul que caracteriza os telhados feitos de chapa metálica ondulada, que cobrem praticamente todos as guest houses e restaurantes das várias povoações e postos ao longo do ABC trek, representando pontos de referência no percurso, rapidamente ficou associada ao local para passar a noite ou somente para descanso, comer ou abastecer de água, trazendo algum alívio e encorajamento quando inesperadamente surgiam na paisagem.

Daal Bhat, prato típico nepalês, à base de arroz, um caldo de lentinhas, um carril de legumes, alguns vegetais verdes salteados, um chuteny e um papad. O arroz e as lentinhas podem ser repetidos várias vezes
Daal Bhat, prato típico nepalês, à base de arroz, um caldo de lentinhas, um carril de legumes, alguns vegetais verdes salteados, um chuteny e um papad. O arroz e as lentinhas podem ser repetidos várias vezes
Um dos pequenos almoços: ovos mexidos e Gurung Brad, pão tradicinal da região, feito à base de massa frita
Um dos pequenos almoços: ovos mexidos e Gurung Brad, pão tradicinal da região, feito à base de massa frita
Versão
Versão “pesada” do pequeno almoço nos dias de caminhada mais intensa: noodls salteados com vegetais
Uma das muitas paragens para descanso e para comer barras de cereais e alguns frutos secos, que substituiram o almoço quase todos os dias
Uma das muitas paragens para descanso e para comer barras de cereais e alguns frutos secos, que substituiram o almoço quase todos os dias
Paragem em Deurali
Paragem em Deurali
guet house em Chomrong
guet house em Chomrong
guet house em Dovan
guet house em Dovan
guet house em Dovan
guet house em Dovan
Quarto da noite passada em Dovan, na descida do ABC, quando começou a chuver e as guest houses rapidamente ficaram cheias; o quarto mais pequeno que alguma vez já estive, sem espaço sequer para a mochila que teve que ficar em cima da cama
Quarto da noite passada em Dovan, na descida do ABC, quando começou a chuver e as guest houses rapidamente ficaram cheias; o quarto mais pequeno que alguma vez já estive, sem espaço sequer para a mochila que teve que ficar em cima da cama
guest house em MBC
guest houses em MBC

Comunicações

Somente existe rede NCell no inicio do percurso até Chhomrong, a partir daqui somente em alguns locais pontuais, e nem sempre durante todo o dia. Em MBC e Dovan existe wi-fi.

Água

No inicio do percurso é possível comprar água engarrafada, mas que em vez de 20 rupias passa a ser 80. Existem postos de abastecimento de água que é filtrada e fervida mas que custar pelo menos 80 rupias. A melhor opção, e a mais ecológica, é levar pastilhas para desinfectar a água que corre das fontes existentes nas povoações ou dos riachos que se encontram pelo caminho.

Guias e carregadores

Praticamente toda a gente que encontrei pelo caminho tinha um guia que geralmente acumula também as funções de carregador. Ajudam mas podem também tornar-se incómodos impondo um determinado ritmo pois muitas vezes querem acelerar o ritmo, aumentando as horas de caminhada diárias, para poderem iniciam rapidamente novo trekking, ou em algumas situações aconselharem, quando existem, o uso de jeeps ou autocarros para encurtarem o tempo de percurso.

São eles que escolhem a guest house onde se fica cada noite, pois têm uma comissão em todas as despesas que lá se efectuam, mas da experiência que tive, foram sempre boas escolhas. Praticamente toda a gente recorre a um destes guias/carregadores; grupos grandes ou que exijam o transporte de mais material, para por exemplo acamparem no Annapurna Base Camp, para além do guia têm também um grupo de dois ou mais carregadores.

Em todas as povoações existem mapas do percurso, com informação relativa à distância “em tempo” até aos postos seguintes.

placar com a informação do percuro
placar com a informação do percuro
placar com a fauna e flora da região
placar com a fauna e flora da região
Carregadores trasnportando mercadoria nas tradicionais cestas de bambu
Carregadores transportando mercadoria nas tradicionais cestas de bambu
transporte de bilhas de gás junto ao MBC
transporte de botijas de gás junto ao MBC, feito por carregadores desde Shinuwa, a partir de onde não é permitida a passagem de animais por ser considerada uma zona sagrada para os Grunug
Carregadores de apoio ao trekkers
Carregadores de apoio ao trekkers

Segurança

Este assunto não deve ser menosprezado pois todos os anos ocorrem acidentes, geralmente devido a desmoronamento de terras e não é raro encontrar cartazes em que se procuram pessoas desaparecidas nestes percursos.

Os trilhos tornam-se por vezes estreitos e que na presença de chuva ou nas zonas húmidas se podem tornar escorregadios. Acresce o facto de ser necessário cruzar linhas de água, que em poucos dias mudam o caudal, passando de riachos que se atravessam a vau, mas que dias mais tarde exigem um desvio para alcançar uma precária ponte feita de madeira e bambu.

A altitude é também um factor a ter em conta, pois são frequentes as queixas de dores de cabeça e dificuldades em respirar quando se caminha acima dos 3000 metros de altitude. Nestas zonas é aconselhável subir no máximo 300 metros em altitude em cada hora, para evitar problemas, mas tudo depende de cada indivíduo… os guias e carregadores com quem falei, nenhum mostrou sinais deste tipo de problemas, mesmo fazendo o percurso com grande rapidez. Pode também recorrer-se a medicação para alívio ou mesmo prevenção destes sintomas, disponíveis tanto na medicina alopática com a homeopática, à qual recorri com sucesso

Ponte sobre o rio Kimrong Khola
Ponte sobre o rio Kimrong Khola

Custos

Optando por duas refeições por dia, pequeno-almoço e jantar, sendo a almoço substituído por barras de cereais e frutos secos, o custo diário fica em 1165 rupias, por pessoa, incluindo um ou outro chá nos dias mais frios. Há que acrescer o preço do transporte para chegar ao inicio do trekking e para regressar a Pokhara; pode ser de autocarro público que custa cerca de 150 rupias ou uma combinação de Jeep mais táxi que ronda as 1000 rupias mas poupa tempo.

Para o pequeno-almoço optei geralmente por um prato de comida, como noodles ou arroz com vegetais, pois as caminhadas duram cerca de 6 a 8 horas o adia em muito a segunda refeição do dia Pode-se sempre por optar por fazer paragens para almoço, mas apercebi-me que não é uma opção muito comum.

Por todo o percurso existem lojas, associadas ou não a guest houses que vendem basicamente tudo o que é necessário, comida, chocolates, artigos de higiene, pilhas, papal higiénico, bebidas alcoólicas, refrigerantes, tabaco… mas tudo a um preço bastante mais elevado. Para se ter uma ideia, um cartão para carregamento de telemóvel com 100 rupias da NCell (companhia nepalesa) custa 150 se for comprado em Chhomrong!

Material

Perante a perspectiva de ir percorrer a pé 80 quilómetros, subindo dos 1025 aos 4130 metros de altitude, em aproximadamente 10 dias, sem recorrer a um carregador, impunha-se o desafio de levar na mochila somente o estritamente necessário.

Depois de cinco meses em viagem, onde muita coisa foi ficando para trás, a estadia em Lisboa serviu também para optimizar o conteúdo da mochila, tentando torná-la mais leve… perante tremendo esforço o resultado foi desanimador: 11.5 kg às costas, mais uma mochila pequena com perto de 5 kg. Não entendo como é possível precisar de tanta coisa!!!

Eis uma lista enfadonha do que levei para o trekking do Annapurna Base Camp, tendo em conta que teria condições para lavar e secar a roupa:

  1. sapatos de caminhada
  2. t-shirts: 3
  3. sweat-shirt: 1
  4. camisola interior: 1
  5. calças: 2
  6. leggings
  7. meias: 3
  8. cuecas: 5
  9. camisola polar
  10. casaco polar
  11. gorro
  12. impermeável
  13. toalha de banho
  14. lenço (para proteger do sol e enxugar o suor, conforme as circunstâncias)
  15. almofada compressível
  16. saco-cama
  17. óculos de sol
  18. lanterna (frontal)
  19. protector solar
  20. chinelos de banho
  21. higiene: sabonete, champô, escova de dentes, pasta de dentes, desodorizante
  22. papel higiénico + lenços de papel
  23. saúde: papacetamol, antidiarreico, adesivos, pastilhas para a garganta, medicamento para a altitude, pomada do “chinês” (dá para tudo!)
  24. detergente para a roupa
  25. cozinha: faca, taça, caneca, colher, resistência para aquecer água
  26. comida: flocos de aveia, barras de cereais, frutos secos, canela, chá
  27. máquina fotográfica + carregador
  28. telemóvel + carregador
  29. caderno + caneta
  30. mapa
  31. garrafa de plástico e pastilhas desinfectantes da água

No total, incluindo o peso da mochila, devia ter entre 6 a 8 quilos às costas. Huffff!

Disto tudo, não fez falta:

  • saco-cama e almofada: as guest houses tinham cobertores suficientes e tanto os lençóis como as almofadas estavam limpos;
  • óculos escuros (ou o sol está encoberto pelas nuvens ou então o suor torna o uso dos óculos um tormento);
  • utensílios de cozinha: é necessário levar um adaptador para ligar as tomadas aos casquilhos das lâmpadas, pois não existem tomadas nos quartos das guest houses; contudo, a estadia nas guest houses implica o consumo das refeições no restaurante anexo, o que torna praticamente desnecessário o que levei para preparar uma refeição ligeira à base de paaps de aveia, com excepção do chá que nas zonas mais altas do percurso é reconfortante;

Ao fim dos primeiros dias, reconheci que não estava devidamente equipada, pois a roupa de algodão não seca de um dia para o outro nas zonas mais frias e húmidas, que são a maioria do percurso. Eis o que me fez muita falta e eu não levei:

  • Botas em vez de sapatos de caminhada: protegem os tornozelos; devem também ser impermeáveis à água, tanto pela chuva como pelos riachos que correm ao longo dos trilhos e no atravessamento de pequenas linhas de água;
  • Bastões de caminhada: achava um equipamento desnecessário e nunca tinha usado, mas são um grande auxilio tanto nas descidas, ajudando a equilibrar, como nas subidas pois ajudam a dar impulso ao corpo… eu desenrasquei-me com uma cana de bambu que encontrei pelo caminho;
  • Camisolas dry-fit, em vez de algodão que custam a secar e conservam a humidade do suor por mais tempo, o que é desagradável quando a temperatura é baixa e se pára para descansar;
  • O mesmo se aplica para as meias, que devem ser também dry-fit, umas para climas mais quentes e um par para as noites e dias mais frios;
  • Calças dry-fit, justas e de meia-perna: facilitam nos movimentos durante a caminhada e secam rápido, em vez de calças de algodão que com o suor ou a chuva se colam ao corpo;
  • Alguma forma de transportar a garrafa de água, para não ter que andar com ela na mão e para não ter que parar e abrir a mochila sempre para tirar de lá a garrafa; ou mochila com depósito de água incorporado ou com local para encaixar a garrafa mas que esteja facilmente acessível.
  • Luvas: dão jeito quando se permanece a maior altitude, mas não são indispensáveis.
  • Proteções elásticas para os joelhos… podem dar algum conforto;

Caso seja necessário, as lojas em Pokhara vendem todo o equipamento necessário, quase todo da North Face: casacos, camisolas, polares, impermeáveis, luvas, sacos-cama, mochilas, botas, borros luvas, meias, assim como lanternas, bastões, toalhas de banho, medicamentos, pastilhas para purificar a água… tudo se encontra nas dezenas de lojas aqui existentes e a preços muito mais acessíveis do que em Portugal. As lojas estão também preparadas com os produtos alimentares necessários, como barras de cereais, frutos secos, chocolates, etc…

esquena com o percurso do ABC Trek fornecido pela ACAP
esquena com o percurso do ABC Trek fornecido pela ACAP, com as altitudes dos vários postos, distâncias, e tempo estimado de percurso

Annapurna Base Camp Trekking

Das muitas opções de trekking na região do Annapurna, cujas mais populares são Poon Hill, Around Annapurna (também conhecido por Annapurna Circuit) e Annapurna Base Camp (conhecido por ABC) optei pelo último que vai directo ao Annapurna Sanctuary, uma região acima dos 4000 metros de altitude rodeada pelo conjunto de montanhas entre as dez maiores do mundo, cujos picos mais representativos são o Annapurna South (7219m), o Annapurna I (8091m), Himchuli (6434m) e o Machhapuchhre (6997m), também conhecido por Fish Tail.

É nesta zona dos Himalayas que se situa a região sagrada para os Gurung, uma das etnias que habita as montanhas nepalesas.

 A duração prevista para o trekking, incluindo a descida e a subida, é de 8 a 12 dias de caminhada, dependendo do numero de horas de caminhada diária, das condições meteorológicas, do estado do trilho, da condição física de cada um e da disponibilidade de tempo para encaixar esta actividade num curto período de férias.

 Optando por uma solução mais económica decidi não recorrer a agências para organizarem o trekking e com muita confiança, decidi ir sem guia e sem carregador, pois das várias pessoas com quem falei, todas em garantiram que seria fácil e que não teria dificuldades de maior em me orientar.

E dia 21 de Setembro começa a aventura!

 

Dia 1#: Naya Pul (1070m) – Ghandruk (1940m)

Praticamente todos os trekking na região do Annapurna têm como base Pokhara, uma cidade situada junto a um pacífico lago, que se desenvolveu em função do turismo.

Daqui é necessário ir de autocarro, ou para quem se encontra num trekking organizado, num dos jeeps disponibilizados pelas agências, em direção a Naya Pul, povoação a partir da qual se pode seguir para o ABC ou para Poon Hill.

A primeira meia-hora é passada atravessando povoações até chegar a Birethani, onde se encontra o check-point que obriga à apresentação da documentação necessária, e onde oficialmente começa o trekking.

A manhã correu sem história, com o percurso sendo feito ao longo de uma estrada, poeirenta, sem grandes inclinações, mas que o sol se foi tornando mais penosa, assim como o constante passar de carrinhas de mercadorias e dos jeeps que transportam os caminhantes até à povoação de Kimche, onde termina a estrada.

Seguindo as indicações dos aldeões e das pessoas que ia encontrando na estrada, pensava dirigir-me para Ghandruk, mas apercebi-me que estava no caminho errado, a andar na direção oposta (no ultimo dia do trekking percebi finalmente que havia dois percursos para Ghandruk, e que afinal não estava no caminho errado).

Com a ajuda de alguns locais apanhei um autocarro, que liga Kimche a Pokhara, que me deixou novamente no caminho certo. Mas toda esta situação me fez perder um pouco da confiança que tinha de que não havia hipóteses de me perder pelos vários trilhos, como me foi garantido por várias pessoas, tendo passado a confirmar o percurso com cada pessoa que via. Foi numa destas ocasiões que encontrei um casal – Irina e Leon – com quem partilhei a minha aventura e que mais tarde no mesmo dia, voltei a encontrar e que num misto de admiração e surpresa quando souberam da minha intensão de fazer o percurso sem recuso a um guia ou carregador, me permitiram partilhar da sua companhia durante o resto do trekking.

Depois do almoço, um reconfortante daal bhat, o caminho foi mais agradável, por caminhos pedonais abrigados por árvores e vegetação, mas com muitos percursos de escadas, formadas por blocos de pedra. Toda a paisagem é verde, com pequenos aglomerados de casas anichadas nas encostas cujo vale é percorrido pelo rio Modi Khola, que irá ser a companhia e o ponto de referência de praticamente todo o percurso até ao Annapurna.

A primeira etapa terminou em Ghandruk, já perto das cinco da tarde, altura em que o denso nevoeiro rapidamente envolvia a povoação num luminosidade cinzenta e húmida, contrastando com o calor que se sentiu durante o dia, e que contribuiu para tornar este primeiro dia muito desgastante.

Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Chimrong e Syauli Bazar
Entre Kimche e Ghandruk
Entre Kimche e Ghandruk

Dia 2#: Ghandruk (1940m) – Chhomrong (2140m)

Apesar de em altitude não ter havido grandes diferenças, o percurso obrigou a descer aos 1715m, antes de chegar a Kimrong Khola para atravessar o rio com o mesmo nomes, e que é um dos afluentes do Modi Khola, através de uma precária ponte que permite cruzar as águas que nesta altura do ano ocupam muito pouco do que é o leito do rio.

O inicio da manhã, pouco depois do sol se mostrar por trás das montanhas, é sempre a parte mais agradável do dia, pois o ar ainda está fresco e mesmo as subidas mais longas, que deixam o coração a bater forte contra o peito, não se tornam tão penosas.

Perto do meio-dia, já com o sol bem alto a aquecer a encosta do vale, deixando o rio Kimrong Khola para trás, inicia-se uma longa subida de mais de hora e meia, para atingir uma zona de vegetação mais densa, onde o caminho se embrenha na floresta de rododendros, com os seus troncos retorcidos cobertos de musgos, e têm que esperar pelos meses de Inverno para exibirem as suas características flores. Os bambus, aninhados uns contra os outros, rangem ao sabor do vento que tornou o percurso deste segundo dia mais agradável do que o anterior.

Chhomrong, rodeada de montanhas cobertas de impenetrável vegetação, onde nas zonas mais brandas surgem pequenos aglomerados de casas rodeados de campo de arroz, dispostos em socalcos, cujo verde claro se destaca na encosta escura da montanha; que apesar de se situar num ponto alto, não se consegue avistar daqui nenhum dos principais picos do Annapurna, que marcaram a manhã, em Ghandruk.

Com a aproximação do fim do dia, farrapos de nuvens, ocupam lentamente o vale, como se se estivessem a desprender do manto compacto que cobre o céu.

Annapurna South visto de Ghandruk ao nascer do dia
Annapurna South visto de Ghandruk ao nascer do dia
Komrong Danda
Komrong Danda
Komrong Danda
Komrong Danda
Rio Kimrong Khola
Rio Kimrong Khola
Rio Modi Khola, antes de chegar a Kimrong Khola
Rio Modi Khola, antes de chegar a Kimrong Khola
Entre Kimrong Khola e Chhomrong
Entre Kimrong Khola e Chhomrong
Machapuchre (Fish Tail)
Machapuchre (Fish Tail)

Dia 3#: Chhomrong (2140m) – Dovan (2505m)

Com o corpo a adaptar-se ao ritmo das cerca de sete a oito horas de caminhada diária, este terceiro dia decorreu suavemente, contribuindo também o facto de o percurso não ter apresentado grandes dificuldades, sendo marcado por descidas de grandes escadarias de pedra, com compactas nuvens brancas a taparem o sol, deixando esporadicamente ver o azul intenso do céu.

O ultimo troço do dia, entre Bamboo e Dovan, onde o caminho se foi gradualmente estreitando, tornando-se num trilho serpenteando no meio da floresta, obrigando a contornar troncos de árvores cujas raízes expostas se destacam no chão de onde despontam blocos de pedra, atravessando pequenos riachos que muitas vezes deslizavam ao longo do caminho, perdendo-se na encosta ao encontrarem um brecha por onde desaparecer.

Foi até agora a parte mais bonita do percurso, com bambus e rododendros formando uma intrincada floresta, cuja luz dificilmente penetra, tornando-a sombria e húmida, mas ao mesmo tempo criando com uma atmosfera mágica e onírica, com feixes de luz solar a atravessar a compacta folhagem indo pontualmente iluminar fetos que se agitam com as gotas de água que se desprendem da copa das árvores. Tirando os insectos, com os seu zumbido incessante, pouca vida animal se avista por aqui.

A temperatura é nitidamente mais baixa, o que se nota quando se pára para descansar, e se sente o frio do suor que ensopa a roupa e que rapidamente arrefece a pele.

Dovan, é uma paragem fria e húmida, com nuvens a formarem-se com a evaporação da água que se desprende do solo e das árvores. Desde Sinuwa que se deixaram de ver campos de cultivo ou aldeias, sendo Dovan não mais do que um conjunto de guest houses de apoio as caminhantes, não só aos trekkers mas também à população e aos carregadores que transportam mercadorias para os postos mais altos do percurso, onde não é possível a agricultura e onde são interditos os animais de carga, por se a região considerada sagrada dos Gurung.

Annapurna South visto de Chhomrong
Annapurna South visto de Chhomrong
Uma das muitas pontes susprensa que evitam atravessar vales sem ter que descer toda a encosta até ao leito do rio
Uma das muitas pontes susprensa que evitam atravessar vales sem ter que descer toda a encosta até ao leito do rio
Entte Chhomrong e Sinuwa
Entte Chhomrong e Sinuwa
Depois de Sinuwa é proibido o consumo de carne de búfalo, porco e galinha, pois trata-se da zona das montanhas considerada sagrada para os Gurung, uma das etnias que povoa as montanhas dos Himalayas
Depois de Sinuwa é proibido o consumo de carne de búfalo, porco e galinha, pois trata-se da zona das montanhas considerada sagrada para os Gurung, uma das etnias que povoa as montanhas dos Himalayas
Entre Sinuwa e Bamboo
Entre Sinuwa e Bamboo
Entre Sinuwa e Bamboo
Entre Sinuwa e Bamboo
Entre Bamboo e Dovan
Entre Bamboo e Dovan

Dia 4#: Dovan (2505m) –  Machapuchre Base Camp (3700m)

A chegada a Machapuchre, o ultimo posto antes do Annapurna Base Camp, foi pelas três da tarde, mas o nevoeiro que em espessas camadas ia ocupando velozmente todo vale, envolvendo rapidamente o Machapuchre Base Camp (muitas vezes designado por MBC) e o conjunto de guest houses aninhadas na zona mais suave da encosta, criando um ambiente fantasmagórico onde o único som vem do rio que tumultuosamente corre lá em baixo, fora do alcance da vista, contribuindo para a sensação de isolamento que aqui se sente, antecipando a noite e entrando a humidade no corpo.

A saída de Dovan, como sempre de manhã cedo, foi feita ainda pela floresta, onde a humidade se foi intensificando, e por onde o trilho avançava sujeito a ligeiras subidas e descidas, atravessados por pequenos riachos, e onde a atenção se deteve perante a agitação provocado por um conjunto de langures, cujas longas caudas e focinho negro dificilmente se identificavam no emaranhado de troncos das árvores mais altas.

À medida que subíamos em altitude, passando o posto de Himalaya em direção a Deurali, o vale foi ficando cada vez mais estreito com o rio Modi Khola a ganhar velocidade, alimentado pelas muitas cascatas que se desprendem verticalmente a centenas de metros de altitude do topo das montanhas, tornando as suas águas acastanhadas e fazendo aumentar o seu rugido que se sobrepõem a todos os outros sons.

As ultimas horas do trajecto foram agravadas pelo esforço que é caminhar acima dos 3000 metros de altitude, obrigando a encurtar o passo e a abrandar o ritmo em particular nos várias zonas de degraus, construídos toscamente em pedra por mão humana, de forma a não se sentir os efeitos da altitude. As paragens para descansar tornaram-se cada vez mais curtas pois o frio rapidamente tornava o suor que envolvia a pele e a roupa numa humidade doentia. A chuva marcou presença, mas por sorte coincidiu com uma das paragens para descanso em Deurali.

Com a noite, a sala de refeições da guest house encheu-se de vozes e dos vapores da comida, transmitindo algum conforto aquecido pelo chá de gengibre, servido em fumegantes canecas metálicas.

À medida que se avança pelo vale em direção a norte, as montanhas adquirem uma beleza cada vez mais intensa; por muito difícil que seja o percurso, estes são os momentos que preenchem os sentidos e que compensam o esforço que se exige ao corpo, sujeitando-o a um ritmo intenso e às condições de temperatura e altitude a que não está habituado. Mas nada se compara com esta beleza: selvagem, abrupta, insondável e dominadora que se mantem impávida aos que se aventuram nas suas encostas, com a humildade devida a estes gigantes de pedra.

Fish Tail visto de Dovan
Fish Tail visto de Dovan
Entre Dovan e Himalaya
Entre Dovan e Himalaya
Entre Dovan e Himalaya
Entre Dovan e Himalaya
Com o guia, Robi
Com o guia, Robi
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Com a Irina e o Leon
Com a Irina e o Leon
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Entre Himalaya e Deurali
Chegada a Machapuchre Base Camp
Chegada a Machapuchre Base Camp
Machapuchre Base Camp
Machapuchre Base Camp
Machapuchre Base Camp
Machapuchre Base Camp

Dia 5#: Machapuchre Base Camp (3700m) – Annapuna Base Camp (4130m) – Dovan (2505m)

Avizinha-se um dia longo, com inicio pelas 4h, ainda sob o manto da noite que a lua em quarto minguante debilmente ilumina, para fazer as duas ultimas horas de percurso até ao Annapurna Base Camp e chegar a tempo de ver o nascer do dia.

O percurso nocturno, apesar da violência que foi sair tão cedo da cama ainda para mais com o frio característico das grande altitudes, teve a sua dose de mística, com a paisagem envolta em sombras formadas pela frágil lua, que se destacava num céu limpo de nuvens.

O Annapurna Base Camp, que funciona como ponto de partida para escalar os vários picos que constituem o Annapurna, representa o fim do percurso para quem se encontra a fazer o trekking. Daqui têm-se a visão dos principais picos: Annapurna South, Annapurna I e do lado oposto, ainda na sombra da noite fica o Fish Tail, cujo nome corresponde à forma criada pelos dois picos mais altos, que de alguns ângulos se assemelha ao rabo de um peixe.

Mas em poucos minutos, praticamente toda a paisagem ficou encoberta pelas nuvens que pontualmente iam criando clareiras que deixavam ver as encostas das montanhas cobertas de espessa neve iluminadas pelo sol da manhã, mas sem nunca se conseguir ter uma visão global de todos os picos.

O cortante ar gélido que se desprende do Glaciar Sul do Annapurna, visível por alguns momentos, com a sua massa azulada e brilhante, torna a permanência no Annapurna Base Camp penosa, fazendo enregelar o corpo, em especial para quem não ia preparado para tais temperaturas, em que uma luvas fazem muita diferença.

Após cerca de uma hora de espera por melhores condições de visibilidade, iniciou-se a descida novamente rumo ao MBC, com a paisagem dominada pela vegetação rasteira que cobre em tufos todo a vale, ficando gradualmente menos nublada e com o sol a brilhar sob a neve que cobre as montanhas, conferindo ao céu um azul intenso, proporcionando as melhores imagens do Annapuna South, o pico mais alto e o que se destaca de todo o conjunto.

Durante a descida começou a notar-se algum cansaço, devido ao acumular dos dias de caminhada e às poucas horas de descanso da noite anterior, mas o caminho não apresentava grandes dificuldades até Bamboo, local previsto para pernoitar. De amanhã, alguns pingos de chuva foram marcando presença, sem contudo criarem preocupação, pois são frequentes na zona mais alta da floresta; mas em poucos instantes um nevoeiro maciço penetrou pelo vale invadindo a floresta, tornando a escurecendo a manhã quase como se fosse o anoitecer, aumentando o humidade e o frio, adensando o ambiente misterioso que envolve o trilho, mas que gradualmente se foi tornando sinistro e ameaçador, trazendo consigo grossos pingos de chuva fria.

Com a chuva a cair forte, rapidamente os riachos que nos dias anteriores pareceram encantadores se transformaram em verdadeiros obstáculos difíceis de evitar, obrigando a mergulhar os pés na água, que aos poucos ia enlameado o trilho. Algumas da linhas de água que atravessei na subida, pisando com cuidado as pedras que alguém colocou ao longo do caminho, estavam agora praticamente cobertas pelo aumento do caudal, obrigando a seguir outro trilho para alcançar uma tosca e escorregadia ponte feita de troncos de árvore e de bambus.

Todo o percurso entre Himalaya e Dovan, um dos mais bonitos e fáceis, foi feito em passo acelerado, tornou-se mais arriscado com a presença da chuva, que em cerca de uma hora deixou a roupa e os sapatos ensopados, que com o frio e a humidade se tronam impossíveis de secar.

Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp. Annapurna South (7219m)
Annapurna Base Camp. Annapurna South (7219m)
Annapurna Base Camp
Annapurna Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
Entre Annapurna Base Camp e Machapuchre Base Camp
 Machapuchre Base Camp
Machapuchre Base Camp
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Entre MBC e Deurali
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Entre MBC e Deurali
Entre MBC e Deurali
Entre Deurali e Himalaya

Dia 6#: Dovan (2505m) – Jhinu Dando (1710m)

O dia amanheceu limpo, sem nuvens e sem vestígios da chuva que no dia anterior atormentou os vários caminhantes e obrigou a encurtar o percurso, dormindo em Dovan, em vez de Himalaya.

Foi um percurso descontraído, continuando pela floresta, cujos riachos e linhas de água mostravam ainda a força da tempestade do dia anterior, com a temperatura a tornar-se ligeiramente mais amena e com a paisagem gradualmente a ganhar presença humana, com casas, animais e campos cultivados, sendo esta diferença mais nítida depois de Sinuwa, que marca o fim da densa e húmida floresta de bambus e rododendros. A agricultura nesta zona dos Himalayas e predominantemente de arroz, cultivado em sucalcos, mas de uma variedade que não necessita de estar em terrenos submerso de água; surgem esporádicas hortas de vegetais couves e espinafres, mas pouco mais se planta nesta altura do ano, tendo que a maior parte dos alimentos vir de Pokhara ou de outras zonas de menor altitude.

Pela manhã, os carregadores que ascendem pelo trilho trazem consigo o cheiro das fogueiras com que na noite anterior se aqueceram, enquanto partilham histórias entre rizadas e copos de “raksi”, uma aguardente produzida localmente.

Apesar de ainda faltar mais um dia de caminhada, começa-se a crescer um sentimento de despedida e uma certa tristeza por abandonar estas montanhas que proporcionaram intensas e marcantes emoções.

Entre Dovan e Jhinu
Entre Dovan e Jhinu
Entre Dovan e Jhinu
Entre Dovan e Jhinu

Dia 7#: Jhinu Dando (1710m) – Kimche (1550m)

O ultimo dia, apesar de ser o que apresentava menos horas de caminhada, foi onde senti mais dificuldades com o corpo a mostrar sinais de cansaço agravado com o calor que se sente durante o dia nas zonas de menos altitude, tendo tido mesmo dificuldades de acompanhar o ritmo da Irina e do Leon, com que partilhei toda esta aventura ao longo de sete dias.

É nas zonas mais habitadas que o percurso se torna mais confuso, não só por existirem vários caminhos possíveis como também por se encontraram alguns trilhos que se desviam para os campos de cultivo. Por todo o lado nos cruzamos com vacas que indiferentes aos caminhantes devoram as ervas que crescem ao longo dos caminhos e entre as pedras dos muros, e com mulas que são usados para transporte de mercadoria até Sinuwa, deixando atrás de si um rasto de dejetos que se mistura com o odor das ervas frescas que os habitantes transportam à costas em pesados fardos para alimento dos animais.

Em Jinhu, conhecida pelas suas nascentes de água quente onde se pode tomar banho, houve tempo para relaxar, mas já não houve coragem para descer até às nascentes que se situam no fundo do vale a meia hora de caminho.

O regresso a Pokhara foi abrupto, com o silêncio e a cala da montanha a serem rapidamente substituídos por uma agitada viagem de Jeep de Kimche até Naya Pul, com o seu bazar barulhento e as ruas cheias de pó, e daí mais duas horas de autocarro até à cidade de Pokhara.

Entre Jhinu e Kimche
Entre Jhinu e Kimche
Chegada a Kimche
Chegada a Kimche

Epílogo

Este como outros trekking que fiz, foi um esforço brutal, onde várias vezes pensei “o que é que eu estou a fazer à minha vida, enquanto podia estar sentada no sofá a ver televisão?!?!”… mas que no fundo sei bem que vale sempre a pena!

Foram sete dias, sendo que o ultimo só durou as primeiras horas da manhã, onde as cerca de 7 a 8 horas de caminhada diária foi excessivo para a minha condição física, tendo em conta o peso que transportava; seria preferível ter demorado mais dois ou três dias. Valia a pena ter ficado mais umas horas em ABC para obter melhores imagens do Annapurna, visto que este era o objectivo de todo o percurso, mas citando uma frase que retive “não é o objetivo que importa, mas sim o percurso que se faz para lá chegar”!

A ideia de fazer o ABC sem guia ou carregador, e em particular sem companhia, não foi o mais acertado, pois nesta altura do ano (meados de Setembro) ainda não é o pico da época alta e o numero de trekkers não é assim tão elevado, o que fez com que não me tivesse cruzado com ninguém no primeiro dia durante a parte inicial do caminho; no regresso contatei que o numero de pessoas a iniciar a subida, curiosamente pelo mesmo horário, era de várias dezenas…

Contudo fazer o ABC fora da época alta tem a vantagem de não haver problema em encontrar quarto nas guest houses, que têm a fama de ficarem cheias e de ser necessário passar a noite nas várias camas que existem no interior dos restaurantes.

Mas sempre que virem imagens de gente sorridente e com ar descontraído a anunciarem trekking pelas montanhas… é tudo falso!!! Durante estas caminhadas longas e fisicamente exigentes, poucas são as ocasiões para sorrir. Em vez disso vêm-se corpos vergados sob o peso das mochilas, do cansaço e da altitude, pés pesados atirados contra o chão, rostos vermelhos do esforço, cabelo colado ao rosto do suor, o cheiro dos corpos, músculos doridos que por mais alongamentos que se façam parecem pedra sempre que arrefecem durante uma qualquer pousa para descanso… este é o aspecto de quem anda quilómetros, por trilhos que penetram em regiões de difícil acesso, de mochila às costas em condições adversas, tornando lúdica uma actividade que as populações das montanhas conhecem como o seu dia-a-dia e que é indispensável à sua subsistência.

São demasiado exigentes para quem não tem boa preparação física, roubando parte do prazer que se poderia desfrutar, fazendo com que o esforço se torne demasiado penoso deixando para segundo plano o desfrute da paisagem, pois as características dos trilhos obrigam a focar a atenção no caminho, às vezes traiçoeiro, para escolher bem onde se põem os pés.

Mas quem já passou por esta experiência sabe que há muito mais do que só admirar a paisagem; há um secreto desafio individual de superar os nosso limites, e acima de tudo as caminhadas que penetram fundo na natureza obrigam-nos a permanecer durante algum tempo isolados, proporcionado momentos de introspecção em que “caminhamos” interiormente e nos vemos confrontados com intermináveis pensamentos e sensações.

Mergulhar as mãos, nas águas frias de um riacho que se cruza no nosso percurso, enquanto o sol aquece as costas expostas ao sol, e deixá-las lá saboreando a cortante sensação do frio da água, que gradualmente as vão tornando brancas, ouvindo o marulhar das águas e o chilrear de alguma ave que pousa por perto, fazendo abanar os frágeis ramos dos arbustos… dando tempo para absorver as sensações mais primitivas em pleno desfrute da simplicidade da natureza, que só em locais como estes podem ser sentidas com tanta intensidade.

Estes percursos intensificam as sensações, despertam os sentidos, predispondo-nos para a contemplação do nosso interior.

Annapurna
Annapurna

Itinerário completo:

Ida:

  • Naya Pul (1070m)
  • Birethanti (1025m)
  • Chimrong (1120m)
  • Syauli Bazar (1180m)
  • Kimche (1550m)
  • Ghandruk (1940m)
  • Komorong Danda (2100m)
  • Kimrong Khola (1715m)
  • Chhomrong (2340m)
  • Sinuwa (2340m)
  • Bamboo (2335m)
  • Dovan (2505m)
  • Himalaya (2920m)
  • Deurali (3230m)
  • Machapuchre Base Camp (3700m)
  • Annapurna Base Camp (4130m)

Volta:

  • Machapuchre Base Camp (3700m)
  • Deurali (3230m)
  • Himalaya (2920m)
  • Dovan (2505m)
  • Bamboo (2335m)
  • Sinuwa (2340m)
  • Chhomrong (2340m)
  • Jhinu Dando (1710m)
  • Kimche (1550m)

Um obrigado especial ao meu amigo Zé Pedro, pelo incentivo e pelas dicas que me deu; e também ao Nuno Oliveira pela ajuda homeopática a esta caminhada!

Lumbini

Lumbini não é mais do que uma pequena povoação, que se desenvolve ao longo de uma rua, e que proporciona alojamento, restaurantes, bancos e postos de internet aos turistas que aqui vêm. Optei por ficar alojada fora da povoação, no interior do recinto construído com o intuído de reunir diversos templos e preservar e valorizar o espaço em volta deste local, sagrado para os mais de um bilião de budistas.

De noite, ainda sobre o efeito da diferença horária que não me permite equilibrar os horários do sono, oiço o silêncio a ser ocupado pelo incessante cantar das cigarras e pelo coaxar das rãs, ao qual à vezes se sobrepõe o misto de uivos com riso escarninho de uns animais selvagens que por aqui vagueiam, um misto de cão e hiena. Reina uma calma absoluta apesar de todas estas manifestações da natureza.

Praticamente não circulam veículos motorizados pelo recinto, sendo a única forma de transporte a bicicleta ou os rickshaws, ou para os mais corajosos o caminhar a pé, que se é desencorajador pelo calor e pelas poucas árvores que se encontram junto aos caminhos que serpenteiam o parque. À volta, estendem-se vastas planícies de arrozais, recém plantados, que nesta altura se apresentam de um verde brilhante.

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Campos de arroz que se estendem à volta do parque
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Campos de arroz que se estendem à volta do parque
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Entrada do parque onde se encontram as ruinas que identificam olocal onde Buddha nasceu, assim como vários templos, gompas, stupas e pagodas relacionadas com o budismo
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Junto à entrada do parque, os rickshaw esperam pela chegada dos visitantes, pois é a forma mais fácil de conhecer o vasto espaço onde os vários templos e mosteiros se encontram a grande distância

Os dias foram passando calmamente, com passeios de bicicleta de manhã ou ao fim da tarde de forma a evitar o calor que torna os dias quase insuportáveis, explorando o parque que alberga mosteiros, templos, pagodas e stupas, construídos por diversos países, assim com um centro de meditação Vipassana e instituições culturais; uma área de aproximadamente dose quilómetros quadrados, densamente arborizada em torno de lagos e zonas pantanosas, disposta em volta do Jardim Sagrado, local onde se encontra a Maya Devi Mandir que corresponde ao local onde Buddha nasceu, na altura com o nome de Siddhartha Gautama, aproximadamente no anos 543 AC.

Lumbini, juntamente com Bodh Gaya, Sarnath e Kushinagar são locais sagrados para os budistas, correspondendo respectivamente aos locais onde Buddha atingiu a iluminação, onde deu o primeiro sermão e onde deixou a sua existência terrena. Em Bodh Gaya junto à árvore de “bodhi” esteve em meditação até atingir a iluminação, morrendo ao fim de 49 dias, deixando de ser Siddhartha, tornando-se Buddha e libertando-se dos ciclos de nascimento e morte.

“After I am no more, Ananda! Men of belief will visit this faitful curiosity and devotion to the four places – where I was born… attained enlightenment… gave the first sermons… and passed into Nirvana” The Buddha (543-463 AC).

Como se costuma dizer: “ninguém é profeta na sua terra”, Buddha passou praticamente toda a sua vida no norte da Índia, sendo Lumbini o único dos quatro locais sagrados que se localiza no Nepal. Para os hindus, Buddha é visto como a sétima incarnação de Vishnu, sendo por isso objecto de culto e de festividades juntamente com o restante panteão de deuses e deusas do hinduísmo.

Lumbini
Lumbini: interior do parque
Mosteiro Chinês, sem duvída o maior de todos os conjuntos de edíficios que integram este recinto
Mosteiro Chinês, sem duvída o maior de todos os conjuntos de edíficios que integram este recinto, actualmente em expansão para poder também albergar visitantes
Templo do Mosteiro Chinês
Templo do Mosteiro Chinês
Mosteiro Chinês
Mosteiro Chinês
Mosteiro Chinês
Mosteiro Chinês
Canal que constitui o eixo central do recinto, em volta do qual, através d eum intrincado conjunto de arruamentos de acede aos vários templos, stupas e mosteiros
Canal que constitui o eixo central do recinto, em volta do qual, através de um intrincado conjunto de arruamentos de acesso aos vários templos, stupas, pagodas e mosteiros
Templo Budista da Malásia
Templo Budista da Malásia
Stupas do templo Budista Nepalês
Stupas do templo Budista Nepalês
interior do templo Budista da Malásia
Interior do templo Budista da Malásia
Jardim sagrado onde diáriamente monges budistas se reunem para orações e meditação
Jardim sagrado onde diáriamente monges budistas se reunem para orações e meditação
Bandeiras de orações junto à Coluna de Ashokan
Jardim Sagrada: bandeiras com orações junto à Coluna de Ashokan
Maya Devi Mandir: edificio que abriga os vestigiios arqueológicos correspondentes a uma antiga "stupa" constuída no local onde Buddha nasceu
Maya Devi Mandir: edificio que abriga os vestigios arqueológicos correspondentes a uma antiga “stupa” constuída no local onde Buddha nasceu
Árvore de "bodhi" com as bandeiras de orações no Jardim Sagrado
Árvore de “bodhi” com as bandeiras de orações no Jardim Sagrado
vestigios arqueológicos junto à Maya Devi Mandir, e ao tanque que é venerado como o local onde a mãe de Buddha se banhou
vestigios arqueológicos junto à Maya Devi Mandir, e ao tanque que é venerado como o local onde a mãe de Buddha se banhou

Com o fim da monção, as regiões no sopé dos Himalaias, voltam ao calor e á humidade típicos do clima sub-tropical. Durante a maior parte do dia o corpo é invadido por um torpor que se alastra ao espírito, fazendo com que a mente se dissipe, entregando-se somente ao som incessante das cigarras e dos grilos que enchem o ar. A humidade impede que o suor que constantemente escorre pela pele, mesmo quando o corpo está imóvel, seque e vá ensopando a roupa, colando-a ao corpo e encarquilhando as páginas do livro que pousa preguiçosamente entre as mãos.

Nem ao fim do dia, que lentamente vai fundindo os contornos das árvores no negro da noite, trás algum alívio ao peso do calor. Enquanto do interior do templo, iluminado por pequenas velas e lamparina, saem os rítmicos cânticos das orações proferidas pelos monges budistas, morcegos atravessam os espaço trazendo nas suas asas o silêncio, enquanto cá fora cresce o som das cigarras e do coaxar das rãs, criando uma sinfonia perfeita para uma noite quente.

Lumbini
Lumbini
Lumbini. Mosterio Coreano
Lumbini. Mosterio Coreano

No Mosteiro Coreano, os dias são passados a um ritmo lento, marcado pelas refeições e pelas orações no templo, que são sempre anunciadas pelo toque do sino. Pelas cinco da manhã, ainda antes do nascer do sol, ouve-se o chamamento para as orações, que marcam o início do dia,  já com o despontar da luz a dar volume e côr ao enorme e maciço edifício de betão que constitui o templo, onde antes somente se via o seu volume negro recortado contra o azule escuto do céu nocturno.

O pequeno-almoço é servido pontualmente às seis horas no alpendre de um dos edifícios que servem de alojamento aos monges e também a quem se encontra de visita, em camaratas de quatro pessoas ou em quartos individuais para quem permanece por longas temporadas. Tanto esta primeira refeição como almoço e o jantar, servidos pelas 11.30 e pelas 6h, respectivamente, não apresentam variações em termos de comida: pickle de couve, uma leve sopa de lentilhas e um desanimado estufado de vegetais, que alternou entre, batata, beringela, tomate, curgete, feijão verde e quiabos, sempre a acompanhar com arroz cozido em panela de pressão, que lhe confere uma consistência maciça e compacta… uma desilusão depois da rica comida indiana e que não constitui um bom cartão de visita para a comida nepalesa. Mas há que reconhecer que se trata de um mosteiro, onde o propósito não é a comida e onde se pode ficar alojado por umas modestas 300 rupias nepalesas, cerca de 2.25€, incluindo as três refeições.

O ambiente é calmo e organizado, mesmo tendo em conta as mais de trinta pessoas que aqui estão alojadas, mas estes quatro dias passados em Lumbini deixaram-me com a sensação de que ainda não estou no Nepal.

Interior do templo do Mosterio Coreano.
Interior do templo do Mosterio Coreano.
Templo do Mosterio Coreano.
Templo do Mosterio Coreano
Mosteiro Coreano. Aqui não existem chuveiros, sendo o banho, de água fria, tomado com a ajuda de bacias e baldes.
Mosteiro Coreano. Aqui não existem chuveiros, sendo o banho, de água fria, tomado com a ajuda de bacias e baldes.
Mosterio Coreano. Camarato onde fiquei alojada e que partilhei com coreanas, chinesas e japonesas
Mosterio Coreano. Quarto onde fiquei alojada e que partilhei com coreanas, chinesas e japonesas
Mosterio Coreano em Lumbini
Mosterio Coreano em Lumbini

 

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Sou a Catarina, uma viajante de Lisboa, Portugal… ou melhor, uma mochileira com uma máquina fotográfica!

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