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Stepping Out Of Babylon

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Stepping out of Babylon

Varanasi

A meio da tarde o ceu escoreceu e ao longe rebentaram os trovoes, anunciando a aproximacao de chuva; quase de imediato grossas pingas cairam-nos em em cima, colando a roupa ao corpo. Abrigados sobre precarios toldos de lojas de artigos religiosos no centro de Varanasi, assistimos a descarga do ceu que se abateu ferozmente sobre a cidade, inundando ruas e criando pequenos rios que velozmente desciam pelas estreitas ruas arrastando toda a sujidade acumulada. Rapidamente, em menos de cinco minutos as ruas ficaram cobertas de agua, tornado impossivel andar sem mergulhar os pes num caudal lamacento.

Perante este cenario, os habitantes de Varanasi, pouca emocao demonstraram, sem se notar grande mudanca no frenetico movimento da cidade, com muita gente a caminhar a chuva, sem qualquer protecao e sem aparentarem grande pressa. Foi o nosso primeiro contacto com uma chuvada tipica da epoca das moncoes: intensa, ameacadora mas que traz um ar mais limpo e algum alivio ao calor que se sente.

Varanasi, tambem conhecida por Benares, e uma das cidades mais antigas do mundo, datando os primeiros registos do seculo VI AC, constituindo o principal centro da cultura hindu, que atribui a este local o poder de conferir a iluminacao espiritual e a libertacao do ciclo de reencarnacoes a quem aqui morra.

A zona mais antiga da cidade, situa-se ao longo do Rio Ganges, aqui chamado de Ganga, onde diariamente sao realizados os banhos sagrados, nas aguas purificadoras do rio, tanto por peregrinos como por habitantes. E tambem considerado um local auspicioso para a  cremacao dos mortos, existindo “gahts” especificos para a realizacao destas cerimonias, que sao discretas e sem grande aparato.

Segundo ouvimos… “Delhi e a capital, mas Varanasi e o coracao da India”… realmente e uma cidade vibrante, cheia devida, sons, cores, movimento. Somente o calor e a humidade que se sente nesta altura do ano, roubam a energia aos seus habitantes, fazendo com que os corpos se entreguem a uma certa lassidao que leva ao sono leve; passando por uma loja ou olhando para o interior de uma casa cuja porta permanece despreocupadamente aberta, numa soleira de uma porta, ou junto a entrada de um templo encontram-se pessoas a dormitar, completamente alheias do movimento que as rodeia. Corpos abandonados, expostos e vulneraveis.

Ruas estreitas com pavimento em pedra ja gasta pelo tempo, contornam de forma labirintica os edificios que compoem a parte antiga da cidade, onde inumeros templos hindus disputam ardoamente o espaco, convivendo de perto com as habitacoes que se aninham umas contra as outras, elevando-se instavelmente por varios andares, conferindo as ruas uma quase premanente sombra, onde se pode sentir algum alivio do calor e da humidade provocada pela moncao. Nesta densa paisagem urbana, surge esporadicamente o verde brilhante de uma arvore, cujo retorcido tronco ou as suas raizes aereas atestam a sua antiguidade. Muitas delas sao as chamadas arvores de Bodhi, junto a qual Budha atingui a iluminacao e por isso consideradas sagradas e local de devocao pelos hindus.

Varansi apresenta uma aparente decadencia, como se lhe tivessem estendido um manto de humidade e  fungos, cobrindo todos os edificios, casas, lojas e templos, roubando o brilho das cores berrantes com que estao pintados, sem contudo perder a sua dignidade ou a beleza do conjunto.

Por todas as ruas se veem vacas, cabras, caes, criancas semi-despidas a brincar, velhos sentados junto a entrada das casas, mulheres a preparar a comida ou a lavar roupa, homens a tirar aguas dos pocos, vendedores de “paan”, de comida, de artigos religiosos para as cerimonias do “puja”… Nuvens de moscas sobem dos dejetos das vacas, dos caes e dos habitantes a medida que vamos passando, o que juntamente com o lixo domestico existente nas ruas, impregna o ar com um odor acre e azedo. A chegada aos ghats traz uma lufada de ar-fresco e de luz, abrindo as estreitas ruas ao Ganges que corre castanho e lamacento.

Com a moncao e especialmente devido as chuvas que cairam no mes passado provocando inundacoes no estado de Uttarakhand, o nivel do rio subiu bastante, sobmergindo a maior parte dos ghats, tornando impossivel percorrer a cidade junto ao Ganges e impedindo a circulacao dos barcos donde se tem uma vista previligiada de Varanasi. Nos seis dias que aqui passamos, assistimos incredulos a descida do nivel da agua, cerca de dois metros, pondo a descoberto muitas das escadas de acessoao rio.

“Varanasi e uma aldeia com dois milhoes de habitantes” ouvimos esta frase da boca de um australiano que vive a cerca de seis anos, com a familia, nesta cidade, que ama e por vezes odeia. Uma aldeia que cresceu sem planeamentonem infra-estruturas ou de agua, na maioria das casas da parte antiga. As ruas principais encontram-se em mau estado, sem passeios, em valetas e com grandes buracos nas zonas pavimentadas, que quando caem as grande chuvadas, foram grandes pocas lamacentas, dificeis de contornar, tornando as ruas quase intransitaveis e provocando o caos no transito. O lixo e despejado nas ruas e recolhido diariamente de manha, de forma rudimentar com a ajuda de tabuas em substiuicao de pas e vassoras, e reunido em locais especificos em varias zonas da cidade, onde ai vai sendo empilhado permanecendo dias ate ser transportado para outro local,servindo de repasto as vacas, cabras e caes impregnando o ar de um cheiro a azedo e repleto de moscas.

Somente no ultimo dia que passamos em Varanasi vimos um pouco do azul do ceu, que se manteve sempre carregado de espessas nuvens cinzentas e que perante a ausencia de qualquer aragem permaneceram sobre o rio e a cidade roubando-lhe as cores.

Varanasie tem personalidade, alma, passado, devocao e religiosidade. E, sem duvida a cidade indiana mais bonita, onde espero voltar.

Ghats – zona de acesso a um rio ou lago, constiuido por degrau em pedra onde os crentes hindus se banham

Vendedores de flores para a cerimónia do "puja" no Assi Gath
Vendedores de flores para a cerimónia do “puja” no Assi Gath
Vendedores de "chai" num dia de chuva durante o "puja"
Vendedores de “chai” num dia de chuva durante o “puja”
"puja" no Assi Gath
“puja” no Assi Gath
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Varanasi junto aos "ghats"
Varanasi junto aos “ghats”
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Templo inundado em resultado das fortes chuvas da monção
Templo inundado em resultado das fortes chuvas da monção
Varanasi junto aos "ghats"
Varanasi junto aos “ghats”
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
"lingam" símbolo da religião hindu que representa Shiva, a criação e a destuição
“lingam” símbolo da religião hindu que representa Shiva, a criação e a destuição
Assi Ghat
Assi Ghat
Uma das ruas de acesso ao nosso alojamento, um pouco a sul do Assi Ghat
Uma das ruas de acesso ao nosso alojamento, um pouco a sul do Assi Ghat
Om Café perto do Assi Ghat, onde se podem tomar pequenos almoços e refeições ligeiras ao gosto ocidental
Om Café perto do Assi Ghat, onde se podem tomar pequenos almoços e refeições ligeiras ao gosto ocidental
Sonapura Road que limita a zona mais antiga da cidade e liga, paralelamente ao Ganga, o Assi Ghat e o centro da cidade, Godaulia
Sonapura Road que limita a zona mais antiga da cidade e liga, paralelamente ao Ganga, o Assi Ghat e o centro da cidade, Godaulia
Perto do Ganga
Perto do Ganga
O autor do primeiro roubo que fomos sujeitos: atacou sub-repticiamente um saco de mangas, tendo-se apropriado de uma delas
O autor do primeiro roubo que fomos sujeitos: atacou sub-repticiamente um saco de mangas, tendo-se apropriado de uma delas
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Junto ao Manikarnika Ghat, um dos ghats onde se realizam cremações de corpos
Junto ao Manikarnika Ghat, um dos ghats onde se realizam cremações de corpos
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Parte antiga da cidade de Varanasi
Experimentando um "longi"numa das lojas próximo do Dashaswamedh Ghat
Experimentando um “longi”numa das lojas próximo do Dashaswamedh Ghat
Próximo do Dashaswamedh Ghat
Próximo do Dashaswamedh Ghat
Assi Ghat
Assi Ghat
Assi Ghat, com vendedores de artigos religiosos para oferendas durante o "puja"
Assi Ghat, com vendedores de artigos religiosos para oferendas durante o “puja”
Godaulia: centro de Varanasi
Godaulia: centro de Varanasi
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Godaulia: centro de Varanasi
Godaulia: centro de Varanasi
Prayageshvara Ghat
Prayageshvara Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Dashaswamedh Ghat
Restaurante Keshari em Godaulia, que ficámos clientes apesar de termos que apanhar um rickshaw para lá irmos, pois situa-se em Godaulia, na rua de acesso ao Dashaswamedh Ghat
Restaurante Keshari em Godaulia, que ficámos clientes apesar de termos que apanhar um rickshaw para lá irmos, pois situa-se em Godaulia, na rua de acesso ao Dashaswamedh Ghat
Estação de Mughal Sarai, bastante afastada de Varanasi, onde tivemos que ir apanhar o comboio de regresso a Delhi
Estação de Mughal Sarai, bastante afastada de Varanasi, onde tivemos que ir apanhar o comboio de regresso a Delhi

Para fugir a confusao e a intensidade que se vive no centro da cidade de Varanasi, seguimos a sugestao da nossa amiga Rebecca e ficamos no Assi Ghat, o mais afastado do centro. Foi realmente uma boa sugestao pois o local e amplo e muito mais calmo do que qualquer outro que visitamos.

Depois de uma longa procura, onde nos perdemos nas intrincadas ruas em busca de uma guest house, limpa, com o minimo de condicoes e com precos razoaveis, o que se revelou dificil apesar de estarmos em epoca baixa, encontramos o Yoga Mandir; este espaco funciona tambem como centro de yoga, centro de terapias ayurvedicas, escola de massagens e restaurante de comida organica (nao e toda?!?!). Mas o que os levou a ficar aqui alojados foi o espaco: situado junto ao rio, com os quartos disposto em galerias, virados para um pequeno jardim.

Apesar de tudo nao encontramos aqui o ambiente necessario para tornar a estadia agradavel, devido a um misto de antipatia e desinteresse demonstrado pelo pessoal que estava a gerir a guest house, que nao ajudou a criar boa impressao deste espaco, que durante a epoca alta deve estar entregue em melhores maos.

A comida “oarganica” que experimentamos era comestivel mas muito basica e de confecao descuidada.

Para compensar tinhamos wi-fi incluido no preco do quarto, que custou, depois de algum regateio, 600 rupias por noite… mais do que estamos habituados a pagar.

Varanasi vista da guest house onde ficámos alojados, perto do Assi Ghat: Yoga Mandir
Varanasi vista da guest house onde ficámos alojados, perto do Assi Ghat: Yoga Mandir
Perto do Toga Mandir
Perto do Toga Mandir
Acesso do Assi Ghat ao Yoga Mandir
Acesso do Assi Ghat ao Yoga Mandir
Assi Ghat e Varanasi, ao fundo, vistos do Yoga Mandir
Assi Ghat e Varanasi, ao fundo, vistos do Yoga Mandir
Yoga Mandir, onde todas as tarde eram entoados cânticos religiosos ao som de campainha e do harmónio
Yoga Mandir, onde todas as tarde eram entoados cânticos religiosos ao som de campainha e do harmónio
Yoga Mandir
Yoga Mandir
Entrada do Yoga Mandir
Entrada do Yoga Mandir
Vista do nosso quarto no Yoga Mandir
Vista do nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir
O nosso quarto no Yoga Mandir... espartano como uma cela de mosteiro
O nosso quarto no Yoga Mandir… espartano como uma cela de mosteiro

Delhi… segundo “round”

De volta à grande cidade, a segunda maior da Índia com mais de 12 milhões de habitantes, desta vez para enfrentar temperaturas mais elevadas e a intensa humidade provocada pela monção, que contribui fortemente para o desconforto que se sente quando se anda pelas ruas, mesmo de manhã cedo ou depois do pôr do sol, obrigando-nos a procurar refúgio por baixo de uma ventoinha ou com sorte, perto de um ar-condicionado.

Quando chegámos ao terminal de autocarros de Delhi, tivemos a ajuda de um rapaz de Kashmir com quem viajamos, para irmos de metro até Paharganj, evitando assim os astronómicos preços que os condutores de tuk-tuk nos pediam. Uma boa surpresa que em nada fica a dever ao Metro que conhecemos de Lisboa… até na semelhança de apresentarem uma rede extremamente pequena tendo em conta a dimensão das cidades; o ar-condicionado nas carruagens foi uma bênção pois com o calor, humidade e com o peso das malas, o suor escorria em abundância, empapando a roupa e tornando a pele peganhenta e luzidia.

Nesta segunda estadia, afastámo-nos um pouco da zona do Paharganj, junto à estação de comboios de New Delhi, e explorámos o bairro de Connought Place, um pouco mais a sul, mas suficientemente perto para irmos a pé.

Connought Place é uma zona ampla, formada por ruas circulares que se desenvolvem em volta de uma rotunda, onde os edifícios de estilo clássico, com dois ou três piso, disposto homogeneamente em volta da praça central, se encontram bem conservados e uniformemente pintados de branco; à volta desta área vêm-se edifícios modernos, altos e de aspecto pesado. As ruas são largas, onde é possível circular pelo passeios (… sim, aqui há passeios) a confortável distância do trânsito, que nesta zona nem apresenta a habitual confusão nem a sinfonia de buzinas.

Aqui é o coração da zona mais sofisticada de Delhi, onde se podem encontrar, protegidas pelas arcadas apoiadas em pilares, muitas lojas com as mais conhecidas marcas internacionais e outras vendendo luxuosa roupa tradicional indiana, ourivesarias, cinemas, hotéis de luxo, restaurantes sofisticados, boas livrarias… tudo destinado aos consumidores com mais dinheiro. As pessoas com quem nos cruzámos vestem de forma ocidental, alguns com roupa de “escritório”, por vezes falando inglês entre si.

Paharganj, a zona onde estamos alojados, é o oposto: andar a pé é uma verdadeira prova de perícia, tendo constantemente que nos desviar de pessoas, bicicletas, tuk-tuk, motas e carros, poças de lama, montes de lixo, vendedores ambulantes que empurram carrinhos de mão, mendigos, vacas deambulando calmamente pelo frenesim das ruas, alheias ao movimento humano, cães que dormem enroscados durante quase todo o dia nos locais mais estranhos, água que escorre não se sabe bem de onde… enfim um mundo fervilhante de vida!

Com a chuva que chega ocasionalmente mas com bastante intensidade, todo o chão fica lamacento e escorregadio, formando poças nos vários buracos da estrada… não há passeios onde procurar refúgio e um passo em falso pode significar mergulhar dramaticamente o pé, ou mesmo a perna, num liquido escuro, espesso e fétido.

Nas ruas escuras e estreitas que dão acesso ao Main Bazar, a rua principal de Paharganj, nuvens de moscas sobem do lixo e dos dejectos das vacas à medida que passamos; o cheiro dos urinóis que se encontram espalhados pelas ruas secundárias, invade acidamente as narinas.

Esta zona corresponde à imagem tradicional das cidades indianas: confusa, barulhenta e suja, prédios inacabados e outros prestes a cair, mas ao mesmo tempo é intensa, cheia de vida e de cor: são os “sarhees” das mulheres, os “lungis” dos homens, o laranja dos panos que cobrem os “babas”, o cheiro das chamuças acabadas de fritar, do “chai” acabado de fazer, a acidez do leite junto aos vendedores de iogurte e “panner”, o doce dos “lassis”… o perfume das especiarias que sai dos restaurantes cuja cozinha é quase sempre na rua… excessivo, intenso e apaixonante.

Connought Place e Paharganj são duas imagens dos contrastes que a cidade de Delhi apresenta e reflectem também a Índia, em que o desenvolvimento e a ocidentalização caminham paralelamente com a pobreza e as tradições religiosas e culturais. Aparentemente, as mudanças estão a ser aceleradas devido ao rápido crescimento económico, do qual os indianos têm consciência e de que se orgulham, mas que cria uma sociedade mais materialista e que vai minando os valores morais de respeito, honestidade e generosidade que caracterizam o povo indiano. A isto chama-se progresso.

A ultima paragem que fizemos da viagem de Srinagar
A ultima paragem que fizemos da viagem de Srinagar, num restaurante à beira da auto-estrada
Interior do autocarro-cama onde fizemos a viagem de 26 horas entre Srinagar e Delhi
Interior do autocarro onde fizemos a viagem de 26 horas entre Srinagar e Delhi. Viajamos no piso de cima onde os lugares são “camas”… até nem foi das piores viagens!
Connaugath Place
Connougth Place
Connaugath Place
Connougth Place
Delhi. Main Bazar, rua principal do Paharganj
Delhi. Main Bazar, rua principal do Paharganj
restaurante Sita Ram, no Paharganj em New Delhi especializado em "channa bhtura"... e aqui na Índia quando um restaurante se especializa em algo, só tem mesmo isso!!!
restaurante Sita Ram, no Paharganj em New Delhi especializado em “channa bhtura”… e aqui na Índia quando um restaurante se especializa em algo, só tem
mesmo isso!!!
"Channa Bhatura" do restaurante Sita Ram em New Delhi
“Channa Bhatura” do restaurante Sita Ram em New Delhi. Há hora do almoço a fila chega à rua… e foi isso que me chamou a atenção e me fez entrar! O prato, um caril de grão, é servido com caril, um pão frito semelhante ao qe chamamos “massa-tenra”
vendedor de snaks, à base de massa frita temperada com diferentes variedades de "massalas"
vendedor de snaks, à base de massa frita temperada com diferentes variedades de “massalas”, que são feitos no interir da loja, cuja banca ocupa  parte da rua.
Chamussas numa das ruas secundárias do bairro de Paharganj... aqui somente se vendem chamussas, um outro frito semelhante mas de forma circular achatada e os
Chamussas numa das ruas secundárias do bairro de Paharganj… aqui somente se vendem chamussas, um outro frito semelhante mas de forma circular achatada e os tradicionais doces indianos que se encontra com mais frequência por todo o país: gulab
Pelas 5 da tarde, altura em que a loja abre e em que começas a ser fritas, os clientes fazem fila... e com razão, pois foram das melhores que comi... e repeti muitas outras vezes!
Pelas 5 da tarde, altura em que a loja abre e em que começas a ser fritas, os clientes fazem fila… e com razão, pois foram das melhores que comi… e repeti muitas outras vezes!
Espaço anexo que também ocupa parte da rua, como é normal na Índia, onde as maravilhosas chamussas são fritas
Espaço anexo que também ocupa parte da rua, como é normal na Índia, onde as maravilhosas chamussas são fritas
Um dos mais de cinco empregados que esta pequena loja tem, fora os que se encontram nas traseiras a preparar as chamussas
Um dos mais de cinco empregados que esta pequena loja tem, fora os que se encontram nas traseiras a preparar as chamussas
Rua do Hotel Ajay e do Hotel Hare Rama
Rua do Hotel Ajay e do Hotel Hare Rama

Depois da espelunca onde ficamos na primeira vez que aqui viemos, optámos por “abrir os cordões à bolsa” e ficar alojados num sitio decente e com ar-condicionado, para podermos recuperar decentemente das 26 horas de viagem de autocarro, que nos trouxe de Srinagar. Escolhemos o Ajay Guest House, mesmo em frente do Hare Rama Hotel, onde tínhamos ficado em Abril.

Por 1000 rupias (cerca de 14€) tivemos direito a um quarto de luxo, sofá, mesa, secretária, televisão, internet no quarto, limpeza e espaço… muito espaço; até fomos presenteados com os habituais “kits” de hotel que incluem sabonete, pasta e escova de dentes, champô, cotonetes, lâmina de barbear… um luxo para a nossa condição de “backpackers”!

Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay
Delhi. Hotel Ajay

Ajay Guest House

5084-A, Main-bazar, Paharganj, New Delhi

Tel: +91-11-23583125

ajay5084@hotmail.com

www.ajayguesthouse.com

Srinagar e a John Friends Guesthouse

Mesquitas, mausoléus, jardins, lagos, pontes, canais, houseboats e shikaras… nada foi mais marcante em Srinagar, do que o tempo que passamos na John Friends Guesthouse.

Fica situada junto ao lago Dal, numa zona próxima de uma comporta que dá acesso ao Rio Jhelum, daí chamada Dal Gate. Percorremos um caminho pedonal ao longo do lago afastando-nos da movimentada rua principal, onde somos diariamente saudados e convidados a entrar nas várias lojas de recordações e de artesanato de Kashmir, postos de internet w agencias de viagens, intercaladas com alfaiates, talhos, barbeiros, mercearias, padarias… daqui percorremos um estreito caminho em madeira, assente sobre estacas, que apesar de seguimos a direcção oposta ao logo, é todo feito sobre a água.

Na primeira noite ficamos num quarto situado no piso superior da antiga, pequena e aparentemente frágil casa de madeira, onde vive a família do Javid, que é a pessoa que está à frente do “negócio” da guesthouse.

Os restantes quartos situam-se numa construção mais recente, em tijolo, que se esconde por trás da casa da família.

Entre as duas casa temos os jardim, relvado, com flores e árvores de fruto, que juntamente com a restante vegetação da vizinhança cria um ambiente bastante agradável, onde abundam aves, desde o comum pardal, até às águias… e claro as barulhentas gralhas que são muitas das vezes responsáveis pelo matutino despertar.

A varanda da casa onde estamos, como mesa cadeiras e um sofá, tem sido o local de eleição para passar-mos languidamente as horas de maior calor, ou os dias em que a chuva faz descer as temperaturas. Aqui comemos as refeições que compramos diária e “religiosamente” no New Krishna Daba e pomos a conversa em dia com os nossos “vizinhos” que são maioritariamente ocidentais.

Com todas estas condições, e dispondo de um frigorífico que partilhávamos com os donos da casa, fomos aproveitando a abundância de fruta que se encontra por Srinagar, libertando-nos da forçada dieta de bananas e mangas a que temos estado sujeitos desde que chegamos à Índia; aqui temos cerejas, melão, maçãs, alperces… mas foi a melancia que ganhou e serviu para refrescar os lanches nos dias mais quentes.

Sexta-feira é dia santo para os muçulmanos e durante toda a manhã os altifalantes das várias mesquitas espalham pela cidade as orações e os textos do Alcorão, entoando uma monótona melodia que se sobrepõe ao som das buzinas que dominam a atmosfera da cidade. É quase lua cheia, está quente e um pouco húmido. Da casa em frente vêm os sons de uma família que convive após o jantar. As mulheres, sempre de cabeças coberta por um véu, saem pouco de casa para além das deslocações para algumas compras na mercearia mais próxima; cabem-lhes as tarefas domésticas de preparar a comida, lavar a roupa e cuidar das crianças. A casa não dá muito trabalho, pois praticamente não têm mobília nem tão pouco objectos de decoração. Aos homens da casa, que falam inglês, fica entregue o negócio da guesthouse e da venda de pashminas.

Num dos dias que aqui estivemos fomos convidados a jantar com a família do Javid, no alpendre situado à entrada da casa e que funciona como cozinha, local para tomar as refeições, receber os amigos e passar os tempos livres. A comida foi bastante simples e reflecte o que é habitual: arroz, muito arroz, lentilhas (dahl) e um carril de legumes. Ficámos finalmente a conhecer as relações de parentesco entre as dez pessoas que habitam na casa.

Foi por estarmos tão bem nesta casa que fez com que a estadia em Srinagar se prolongasse por dezassete dias!!!

Vista da marginal que circunda o Lago Dal, chamada Boulevard, perto do Dal Gate, onde se situava a John Friends Guesthouse
Vista da marginal que circunda o Lago Dal, chamada Boulevard, perto do Dal Gate, onde se situava a John Friends Guesthouse
A casa da família
A casa da família
... num dia de chuva
… num dia de chuva
O quarto onde ficámos na primeira noite, situado por cima da casa da família
O quarto onde ficámos na primeira noite, situado por cima da casa da família
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
O nosso quarto na John Friends Guesthouse
O nosso quarto na John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
Refeição no New Krishna Daba, antes de termos tido a ideia de passar a lá comprar a comida e levar para casa, onde relaxadamente a podiamos apreciar, sem a pressão que se sente enquanto outras pessoas esperam por lugar
Restaurante New Krishna Daba, pertencente a hindus, que servia comida tipicamente indiana, antes de termos tido a ideia de passar a lá comprar a comida e levar para casa, onde com calma a podiamos apreciar, sem a pressão que se sente enquanto dezenas de pessoas lutam por um lugar no restaurante. Ficámos fãs e clientes diários; nós e os restantes “vizinhos” da guesthouse a quem fomos espalhando a dica. A comida foi sempre boa e em conta… experimentámos praticamente todos os pratos. Aqui estamos a comer uma Dosa, que é servida tradicionalmente ao pequeno-almoço no sul da Índia, acompanhada de um carril leve mas picante (sambar) e por um refrescante chutney de côco.
John Friends Guesthouse
John Friends Guesthouse
Mercearia que frequentávamos asiduamente. Ao lado, pertencendo aos mesmo donos, era o posto de internet, com optimas condições de ligação mas com péssimo aspecto
Mercearia que frequentávamos assiduamente. Ao lado, pertencendo aos mesmo donos, era o posto de internet, com optimas condições de ligação mas com péssimo aspecto
o posto de internet que era uma verdadeira barraca, mal construída em tijolo, madeira e plastico, mas que se aguentava firmemente nos seus três andares
o posto de internet que era uma verdadeira barraca, mal construída em tijolo, madeira e plastico, mas que se aguentava firmemente nos seus três andares
A padaria onde diáriamente íamos comprar o pão para o pequeno almoço, e por vezes para o lanche da tarde.... a manteiga era comprada na mercearia próxima que vendia cubinhos de manteiga por 5 rupias.
A padaria onde diáriamente íamos comprar o pão para o pequeno almoço, e por vezes para o lanche da tarde…. a manteiga era comprada na mercearia próxima que vendia cubinhos de manteiga por 5 rupias.

 

John Friends Guest House

Opp. Dal Gate, Ghat nº1, Pedestrian Mall Road

Srinagar, Kashmir

Tel: 0194-2458342

 

 

Srinagar. Mercado flutuante

Mercado flutuante no Lago Dal
Ainda antes do nascer do sol, enquanto nos encaminhava-mos para o mercado

A vida no lago Dal começa cedo, mesmo antes do nascer do sol e do início da actividade das aves que povoam os molhos de nenúfares e de flores de lótus.

Acordámos bem cedo, para nos dirigirmos na companhia de dois dos nossos vizinhos da guesthouse para a zona onde se realiza diariamente o mercado de legumes, que começa às 4.30h da manhã e termina pouco depois das 7h.

Os vendedores, todos homens, moviam-se agilmente as “shikaras” que se aglomeravam numa zona mais amplas do lago, onde confluíam vários canais. Os produtos transaccionados são resultado da produção dos terrenos alagados existentes no lago, não apresentando muita variedade: couve, nabo, pepino, curgetes…

Da nossa “shikara” fomos observando esta actividade, enquanto éramos abordados por vendedores de bolos, flores e de açafrão.

A chuva que carregava o céu desde que saímos de casa, começou a aumentar de intensidade fazendo com os vendedores se apressassem e o mercado terminasse mais cedo.

O regresso feito também calmamente, mas sob a chuva que pouco depois de chegar-mos ao mercado começou a cair, com a “shikara” deslizando pelo lago, embalando-nos com o suave balanço do barco e com o som dos remos a mergulhar na água, à medida que o sol ia iluminado a paisagem.

Mercado flutuante no Lago Dal
Viagem pelos vários canais do Lago Dal até chegar-mos ao mercado flutuante
Mercado flutuante no Lago Dal
Uma das muitas pequenas ilhotas existentes no Lago Dal, onde se formam pequenas povoações, somente acessíveis por barco
Mercado flutuante no Lago Dal
Mister Happy Flower que vende flores e sementes, mas destinadas aos turistas
Mercado flutuante no Lago Dal
Mister Delicious, que percorre de barco o mercado e aborda as “shikaras” dos turistas para vender bom-bons de chocolate e bolachas
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
A "shikara" onde fomos levados até à zona do mercado
A “shikara” onde fomos levados até à zona do mercado
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal
Mercado flutuante no Lago Dal

Srinagar

Da mesma forma que a viagem pela estrada que liga a Manali e Leh, revelou uma outra Índia, a estrada que fizemos entre Leh e Srinagar, trouxe uma nova realidade; passámos da seca e árida paisagem dominada no alto pelos mosteiros budistas, para uma zona verde onde a presença de água é uma constante e onde os costumes se baseiam na religião muçulmana e na cultura persa, de que Kashmir é herdeira.

Deixámos para trás as saudações habituais hindus, como o “namasté, o “julê” dos habitantes do Ladakh, para passar-mos para o “salamu alekum”. Aqui os indianos são a minoria. O único templo hindu que visitámos está sob fortes medidas de segurança, sendo proibida a entrada com máquinas fotográficas, telemóveis, isqueiros, etc, sendo necessário passar por detectores de metais, tudo isto sob o olhar atento de inúmeros militares e polícias armados. Contudo são bem vindos como turistas, pois representam uma das fontes de rendimento da região, que tem o atractivo do clima ameno, que contrasta com a maior parte do território indiano que nesta altura está sob o domínio das monções ou sujeito a altas temperaturas.

O clima nesta altura do ano é ameno, com dias quentes e noites agradáveis, notando-se bem a humidade que resulta da proximidade do lago; quando começa a fazer mais calor, e as temperaturas ultrapassam os 30ºC, surge a chuva e por vezes trovoadas, que logo atenuam o calor. No Inverno neva.

Srinagar é conhecida internamente como a Veneza da Índia, e muitas vezes eleita como destino para lua-de-mel dos indianos. Para além dos vários rios que serpenteiam pela cidade ligando os vários lagos, poucas mais semelhanças se encontram entre as duas cidades. Aqui as gôndolas são substituídas pelas “shikaras”, pequenos barcos de madeira, compridos e estreitos, movidos a remos, que são usados nas deslocações diárias e nos passeios pelo lago, que constituem a principal atracção turística da cidade com centenas de “shikaras” a percorrer os canais que se formam por entre as “ilhas” de nenúfares e de flor-de-lótus. Neste habitat, apesar de algum lixo doméstico, abundam os peixes, e é frequente encontrarem-se pessoas à pesca, usando canas e utensílios rudimentares, disputando o peixe com as águias, que em voo picado caçam nas águas pouco profundas do lago Dal.

Outras das atracções da cidade são as chamadas “houseboats”, que basicamente são casas flutuantes, que originalmente foram construídas pelos ingleses que aqui estavam proibidos de comprar terreno, e que encontraram assim uma solução para se estabelecerem em Srinagar; actualmente quase todas as “houseboats” são destinados ao turismo. Apesar de à primeira vista ser uma opção atractiva para passarmos alguns dias, depressa mudámos de ideias, não só pelo preço, que triplica em relação a uma guesthouse, mas em principalmente porque estão estacionadas muito próximos umas das outras, formando uma barreira compacta que se estende ao longo das margens do lago.

Nas deambulações pela parte antiga da cidade, onde as casas são construídas numa estrutura triangulada preenchida com pedra, pintando um cenário dominado pelo castanho e cinzento, visitámos a mesquita mais antiga, Jamia Majid, que data do século XVI, mas que tem sofrido melhoramentos que a têm desfigurado, apresentando poucos atractivos.

Da passagem dos mongóis ficaram vários jardim, construídos em alamedas rectilíneas, atravessadas por geométricos lagos e ladeadas por plátanos gigantescos com centenas de anos. São local de eleição para passeios de família em especial aos fins de semana.

Srinagar foi uma surpresa agradável. Desconhecia a existência desta cidade, temia o facto de aqui dominar a cultura muçulmana e receava pelas histórias de guerra e de atentados, o que fazia prever uma estadia curta de alguns dias, para segui rumo para sul.

Contudo o verde, a vida da cidade, o clima e em particular a diferença em termos culturais, fez com que a estadia se fosse prolongado por mais de quinze dias.

Nota-se uma grande diferença fisionómica nos rostos dos habitantes de Kashmir, com traços mais fortes e masculinos, muitos com olhos verdes, cor de avelã e mesmo azuis, talvez herança dos antepassados persas, que criam um forte contraste com a pele morena e escura.

Muitos vestem roupa tradicional, túnica sobre calças largas, geralmente branca, que por vezes lhes confere um ar distinto. As barbas são quase uma constante, em particular nos homens mais velhos. Somente as mulheres hindus andam com a cabeça descoberta, sendo frequente cruzarmo-nos com mulheres com o rosto totalmente coberto, por véus pretos que lhes escondem o olhar.

Quando nas ruas e nos autocarros, cruzamos olhares tanto com homens como com mulheres que nos observam com curiosidade, a reacção inicial é de indiferença ou de desconfiança, mas rapidamente é substituída por um sorriso amigável.

Aqui em Kashmir, ao sermos abordados nas ruas com as habituais perguntas sobre de onde somos, o nosso nome, etc… pode surgir um convite para tomar chá. Foi o que nos aconteceu numa tarde ao passearmos pela parte antiga da cidade, onde fomos interpelados por um rapaz que nos convidou para sua casa, onde estivemos na conversa juntamente com o pai, enquanto bebíamos chá em delicadas chávenas de porcelana e debicávamos bolinhos. Este situação repetiu-se e revelou-se uma excelente oportunidade para tentar perceber mais um pouco desta cultura, das tradições, da forma como encaram a vida e também o sentimento que existe em relação á criação de uma Kashmir independente da Índia e do Paquistão.

Kashmir soa a exótico, frutos secos, açafrão, pashminas… de Srinagar fica a memória de uma cidade verde, abundante e orgulhosa.

Srinagar
Srinagar vista do templo hindu Shakaracharya que se situa no topo de uma das colinas existentes na cidade; ao longe, encontra-se o forte Hari Parbat construído durante a ocupação Mongol
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Vista da zona próxima do Dal Gate, onde se concentra uma parte significativa do comércio da cidade
Dal Gate onde, no meio do arvoredo, se situa a guesthouse onde estivemos alojados
Dal Gate onde, no meio do arvoredo, se situa a guesthouse onde estivemos alojados
Mesquita Jamia Majid; ao longe, no cimo da colina situa-se o forte Hari Parbat
Mesquita Jamia Majid; ao longe, no cimo da colina situa-se o forte Hari Parbat
Lago Dal
Lago Dal, onde as houseboats ocupam uma grande parte das margens
Shikaras estacionadas no Lago Dal
Shikaras estacionadas no Lago Dal, destinadas a passeios turísticos onde também se podem tirar fotografias usando trajes tradicionais e segurando cestos com flores de plástico… muito apreciado pelos turistas indianos
Jardim Salimar Bagh
Jardim Salimar Bagh
Lago Dal
Lago Dal
Lago Dal
Lago Dal ao fim do dia, com a neblina que frequentemente cobre a vista das montanhas que circundam o lago
Passeio por um caminho que atravessa o Lago Dal, entre o Jardim Salimar Bagh e a zona antiga da cidade, que fizemos com a Rebecca e o Olaf
Passeio por um caminho que atravessa o Lago Dal, entre o Jardim Salimar Bagh e a zona antiga da cidade, que fizemos com a Rebecca e o Olaf
uma das muitas hortas existentes no Lago Dal, onde se produzem legumes e flores de lótus cuja raiz é usada para cozinhar
Uma das muitas hortas existentes no Lago Dal, onde se produzem legumes e flores de lótus cuja raiz é usada para cozinhar, e que somente são acessíveis por barco
Concerto de musica Sufi
Vendedores de legumes fritos durante o concerto de musica Sufi
Concerto de musica Sufi onde os homens se sentam na tenda em frente aos musícos; às mulheres está reservada uma outra tenda, situada lateralmente ao palco
Concerto de musica Sufi onde os homens se sentam na tenda em frente aos musícos; às mulheres está reservada uma outra tenda, situada lateralmente ao palco
Concerto de musica Sufi, que comemorou a inauguração de um mausoléu na parte antiga da cidade
Concerto de musica Sufi, que comemorou a inauguração de um mausoléu na parte antiga da cidade
Concerto de musica Sufi durante o qual ia sendo distribuido gratuitamente chá, sumos e pão pela assistência
Concerto de musica Sufi durante o qual ia sendo distribuido gratuitamente chá, sumos e pão pela assistência
Concerto de musica Sufi
Concerto de musica Sufi
Um dos edificios situados na zona antiga da cidade
Um dos edificios situados na zona antiga da cidade
Viagem de autocarro que fizemos no tejadilho, pois à hora de ponto não tinha-mos espaço lá dentro
Viagem de autocarro que fizemos no tejadilho, juntamente com a Rebecca e o Olaf, pois à hora de ponto não tinhamos espaço lá dentro

Eis um pequeno video da aventura:

Viajem de autocarro
Viajem de autocarro
Zona antiga da cidade de Srinagar
Zona antiga da cidade de Srinagar
Uma das muitas lojas que se podem encontrar na zona antiga da cidade onde predomina o comercio tradicional
Uma das muitas lojas que se podem encontrar na zona antiga da cidade onde predomina o comercio tradicional
Zona antiga da cidade de Srinagar
Zona antiga da cidade de Srinagar
Lago Dal
Lago Dal
Lago Dal
Um dos vários caminhos de acesso à guesthouse onde estávamos alojados que liga as pequenas ilhas existente no Lago Dal às ruas principais da cidade
Lago Dal
Uma das muitas espécies de aves que povoam o Lago Dal
Uma das muitas padarias e lojas de doces que encontramos pela cidade. Os doces são realmente muito doces...
Uma das muitas padarias e lojas de doces que encontramos pela cidade. Os doces são realmente muito doces…

Sobre Kashmir

Kashmir é o principal ponto de discórdia ente a Índia e o Paquistão, tendo tornado estes dois países inimigos, com inúmeros episódios de guerra, massacres e atentados, tendo até hoje deixado um rasto de sangue de mais de 60.000 vítimas.

A raiz do conflito remonta a 1947, aquando da independência em relação ao Império Britânico, o Marajá de Kashmir, de origem hindu, optou por se juntar ao território Indiano, em detrimento do Paquistão, apesar de noventa por cento dos seus habitantes serem muçulmanos. Desde então tem crescido um sentimento independentista, apoiado pelo Paquistão, que pretende a criação de um novo estado. Os habitantes de Kashmir reclamam uma herança genética, religiosa e cultura Persa, falam uma língua própria, o kashmiri, derivado do persa, com o correspondente alfabeto em caracteres árabes.

O estado de Jammu e Kashmir, faz fronteira com o Paquistão e com a China, na região do Ladakh, com parte do seu território interdito por questões de segurança, chamadas “zonas de controlo”. Culturalmente é dominado pela cultura e religiões muçulmana, com excepção do zona mais a este, que é claramente influenciada pelo Tibete.

Até à cerca de 10 anos esta região era considerada zona de guerra, e apesar de não estar interdita aos visitantes, era fortemente desaconselhada, em especial a turistas estrangeiros.

Hoje em dia, diminuiu consideravelmente a presença militar na cidade de Srinagar, contudo ainda se vêm, nas principais avenidas, nos cruzamentos e junto a edifícios públicos, postos de controle protegidos por sacos de areia, barreiras feitas de arame farpado, carros blindados e grupos de militares fortemente armados.

Aparentemente a situação na cidade é calma, mas nota-se alguma tensão em especial às sextas-feiras, dia sagrado para os muçulmanos, com o aumento do numero de militares nas zonas mais movimentadas da cidade.

Para mim é bastante estranho estar a caminhar pelas ruas e passar a menos de meio metro de militares vestidos de camuflado, armados com metralhadoras, e protegidos por capacetes e coletes à prova de bala. Acho que nunca tinha estado tão próximo de armas de fogo… vistas de perto até não aparentam serem tão perigosas, se comparar-mos com o que vemos nos filmes, mas por vezes sinto crescer em mim um certo terror que me faz acelerar o passo a afastar-me rapidamente destes locais. Mas estranhamente sinto-me bem nesta cidade.

Recentemente a visita do primeiro-ministro indiano a Srinagar, provocou uma greve-geral, e um onda de protestos e manifestações que culminaram com a morte de cerca de uma dezena de policias, durante confrontos na zona mais antiga da cidade, e onde se localizam as maiores e mais importantes mesquitas. Nas duas noites seguintes houve recolher obrigatório, e mesmo durante o dia fomos aconselhados a não nos afastar-mos muita da zona onde se localiza a nossa guesthouse, que fica junto ao Lago Dal, a meio caminho entre a zona antiga e a parte mais moderna de Srinagar.

Na volta que demos pelas redondezas, no primeiro dia da greve, deparámos com um silêncio invulgar e impensável para uma cidade, e que permitia ouvir o som dos pássaros, em resultado de muitas das ruas principais estarem encerradas ao trânsito como medida de segurança.

Para agravar as coisas, a chegada do primeiro ministro, de religião sikh, coincidiu com as celebrações do inicio da quinzena, que antecede o Ramadão, e que reuniu milhares de pessoas nas inúmeras mesquitas, ao fim doa dia, enquanto pelos altifalantes o som das orações e dos versos do Alcorão se espalhavam por toda a cidade de Srinagar, prolongando-se pela noite dentro, terminado muito depois da meia-noite.

 Estranhamente o dia-a-dia em Srinagar, decorre sem grandes sobressaltos totalmente alheio a todo este aparato militar, com a habitual confusão de trânsito de uma cidade indiana comandada pelo som das buzinas, com o frenético movimentos de pessoas, os vendedores de frutas e legumes à beira da estrada, as crianças a caminho da escola envergando os seus uniformes, as mulheres de cabeça coberta fazendo compras ou lavando a roupa no lago, as vozes dos ajudantes de motorista repetindo o destino do autocarro cada vez que chega a uma paragem, as galinhas engaioladas à espera do seu fim, os carneiros pendurados nos talhos… e o sempre presente som dos “mullah” entoando cânticos e convocando os crentes para as orações, que se repetem cinco vezes durante o dia.

Srinagar. Junto ao Rio Jhelum
Srinagar. Junto ao Rio Jhelum
Srinagar. Junto ao Rio Jhelum
Srinagar. Junto ao Rio Jhelum
Sinagar
Sinagar
Mausoléu Hazratbal
Mausoléu Hazratbal
Sinagar
Sinagar
Srinagar. Lago Dal
Srinagar. Lago Dal

pela estrada fora… entre Leh e Srinagar

Agora que nos aproximamos do dia de sairmos de Srinagar, depois de uma estadia de cerca de duas semanas, é altura de contar como cá chegamos.

Depois da longa viagem de autocarro que nos levou de Manali a Leh, pensávamos que não teríamos que enfrentar novamente semelhante provação, mas deparámo-nos com o facto de a única forma de sair de Leh, ponde de parte o avião, era fazer novamente o caminho de volta a Manali, ou então seguir-mos em “frente” o que significava irmos para a cidade de Srinagar.

Srinagar e toda a região envolvente estiveram até à cerca de dez anos fora do circuito turístico, nem sequer aparecendo nos guias de viagem pois estava vedada a estrangeiros devido à guerra civil entre tropas indianas e os movimentos separatistas que reclamam pela independência de Kashmir, que envolvem também o Paquistão.

Apesar deste cenário, as informações que nos chegarás dos viajantes que encontrámos em Leh, eram bastantes positivas, referindo uma cidade bonita, com forte presença muçulmana mas sem aparentes problemas de segurança. Seringar passou a ser o nosso próximo destino.

Tínhamos pela frente uma viagem de dez horas, para percorrer 434 quilómetros, feita durante a noite num jeep, onde éramos os únicos passageiros. Cedo percebemos que não iria ser uma viagem fácil e iriamos demorar muito mais tempo… o condutor era bastante mau, muitas vezes circulava em contramão, desviando-se no limite com bruscas guinadas no volante, enquanto tentava escrever mensagens no telemóvel.

Um das muitas paragens que fizemos durante a noite, foi em Mulbekh, que curiosamente era um local que queríamos visitar pois aí encontra-se uma estátua de Buda com cerca de sete metros de altura, esculpida na rocha entre os séculos VII e VIII. Mas esta não foi só uma paragem para comer ou beber um “chai”: aqui o motorista decidiu dormir. Assim passamos umas horas dentro do Jeep, parados à beira da estrada, num local completamente isolado, e desértico aquelas horas, rodeados pela densa escuridão sob o olhar protector do Buda.

Com o nascer do dia, passamos por Kargil, a partir de onde se tornaram claros os sinais da cultura muçulmana: mesquitas, bandeiras com as cores do islão, caligrafia árabe, mulheres com a cabeça coberta por véus… nem parecia que estávamos na Índia.

À medida que avançávamos a paisagem foi tornando-se cada vez mais verde, com a estrada a descrever sinuosas curvas ao longo das montanhas, coroadas de neve e vales revestidos de relva por onde serpenteavam rios e pastavam rebanhos de ovelhas e cabras, conduzidos por pastores nómadas, que transportavam os seus haveres em pequenas caravanas de mulas.

Depois de passar-mos Dras, mais uma vila sem aparente interesse, à medida que fomos subindo a montanha em direcção ao ponto mais alto, Zoji La, situado a 3529 metros de altitude, a temperatura começou a baixar a as condições de visibilidade foram drasticamente diminuído com o nevoeiro que por vezes formava uma densa barreira branca. Ao mesmo tempo as condições da estrada foram piorando, transformando-se num trilho estreito e lamacento, que cortava corajosamente a encosta que se desenvolvia quase a pique.

As dificuldades em circular, agravadas pela intensa chuva, pelas linhas de água que atravessavam a estrada, ou por zonas onde o desmoronamento de terras tornava a estrada ainda mais estreita, tornavam o cruzamento de veículos numa tarefa difícil e arriscada, obrigando a longas paragens foram criando longas filas de camiões e de autocarros. Nos pontos mais críticos da estrada, militares controlavam a circulação e vigiavam as condições de segurança da estrada, que por vezes tem que ser encerrada, em resultado de acidentes ou de desmoronamentos.

Perante todo este cenário que piorava à medida que avançávamos, o motorista do nosso Jeep ia buzinando furiosamente e tentando fazer perigosas e impensáveis ultrapassagens, que tentámos algumas vezes impedir.

Foi um acumular te tensão, que me deixou à beira do desespero, ao ponto de ter saído do carro com a intensão de prosseguir o resto do caminho a pé; a persistente chuva, o frio e a lama, que quase me fez escorregar assim que pus os pés na estrada, obrigaram-me a refrear o impulso.

Todo este pesadelo somente abrandou quando começamos a descer em direcção a Sonamarg, e o sol foi timidamente despontando por entre as nuvens; o resto do percurso foi feito sem sobressaltos, por entre vales verdes e floridos, com a estrada a atravessar inúmeras povoações.

À chegada a Srinagar, por volta das duas da tarde, depois de 18 horas de viagem, fomos deixados pelo nosso motorista numa larga e movimentada avenida, ao som da sinfonia de buzinas, que nos tínhamos desabituado de ouvir, enquanto estivemos no Ladakh. Voltámos à Índia!

Leh-Srinagar
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VIPASSANA

(este post encontra-se cronologicamente fora do contexto, pois corresponde ao início de Maio, quando estávamos em Dharamkot, mas a hesitação em escrever sobre a minha experiência no Vipassana, fez com que só agora este texto visse a luz do dia… ou dos pixelsJ)

 

Depois de muita espera pelo início de um novo curso, tivemos que acordar de madrugada para colocar o nosso nome na lista de espera, na esperança que houvessem desistências e conseguisse-mos vaga no curso de Vipassana, pois à meses que as inscrições estava completas.

Às quatro da tarde desse dia, tivemos a confirmação do sentimento que tinha desde o inicio, de que íamos conseguir entrar os dois.

Mutámo-nos da guesthouse onde estávamos de “armas e bagagens” para o Centro de Vipassana de Dharamkot, para enfrentarmos o burocrático processo de inscrição.

Só à chegada ao quarto que me foi atribuído é que me apercebi e tomei pela primeira vez consciência do que me estava a propor fazer: dez dias, afastada do mundo, sem falar ou comunicar, por olhar ou gestos, com as outras pessoas, cumprindo um rígido horário para dormir, descansar e para tomar as refeições, tendo como objectivo principal a meditação.

Chama-se Curso de Meditação mas não se trata propriamente de um conjunto de instruções ou métodos para aprender a meditar: trata-se de um caminho (dhama) que tem que ser percorrido por cada um, solitária e individualmente, seguindo para isso as orientações proferidas diariamente pelo senhor Goenka, que criou este método.

O quarto que me foi atribuído, um verdadeiro luxo tendo em conta as condições do  centro e o país em que estamos, era um pequeno compartimento, ocupado por uma estreita e curta cama, e com o espaço suficiente para passar até à porta de acesso à casa de banho, de onde podia ver a floresta de cedros que envolve todo o centro, através do vidro partido da janela.

Pela claraboia existente no tecto do quarto podia ser o sol a atravessar as árvores e pelas sombras projectadas nas paredes do quarto ia tendo a noção da passagem do tempo, durante os intervalos para descanso; é interdito o uso de telemóvel, máquinas fotográficas, ou de outros equipamentos elétricos, assim como de livros, cadernos, canetas ou qualquer outro objecto que nos possa distrair os nossos pensamentos do objectivo de estarmos em contacto connosco.

A maior parte do dia era passado no maior edifício do centro, o “Meditation Hall”, uma sala grande, ventilada, mantida permanente na penumbra apesar de, a toda a volta, ser rasgada por janela que emolduravam a paisagem densamente de pinheiros. Este era o único local que homens e mulheres partilhavam, pois tanto o refeitório, os dormitórios e as zonas envolventes estavam separadas.

Os quatro dias que lá passei fizeram-me perder totalmente a noção de tempo, pois a rígida rotina e a falta de contacto com os outros ou com o exterior, fazem-nos perder intensionalmente as referências, de forma a ficarmos mais focados em nós para assim fazermos o nosso percurso, caminho, com o mínimo de distrações ou dispersões.

De início pareceu-me exagerada essa atitude tão escrupulosa, mas logo ao segundo dia a vontade de comunicar com alguém foi desparecendo, sendo substituída por uma necessidade de solidão. Mesmo o entusiasmo inicial de passear e de ir conhecendo os limites do espaço ou de apanhar alguns dos raios de sol que corajosamente atravessam a densa floresta de cedros, foi rapidamente substituída pela necessidade de descanso e de isolamento, que me levavam a ir directamente para o quarto, nos intervalos dos períodos de meditação.

Todo o quarto convida ao isolamento desde o momento em que entrei: básico, sem decoração ou mobiliário, para além da cama e de uma minúscula prateleira feita em pedra. Sentia-me como um monge numa cela; inicialmente chamava-lhe catre com alguma ironia, mas rapidamente se transformou num refúgio.

O vespertino horário de ir para a cama, à 9h da noite, tornou-se o momento mais ansiado do dia, que começava implacavelmente às 4h da manhã com o toque de uma campainha e meia hora mais tarde com o som do gongo que marcava o inicio da meditação matinal.

Estranhamente o acordar não era difícil, mas durante as duas horas de meditação que se seguiam o meu estômago reclamava por comida.

As duas principais refeições, o pequeno-almoço às 6.30h da manhã e o almoço às 11h, eram uma verdadeira consolação. O jantar, por volta 5h da tarde era bastante pobre tendo em conta as horas que ainda tínhamos pela frente, consistindo em fruta, tostas e algum arroz tufado.

Para compensar o pequeno-almoço, também servido em estilo de buffet, tinha pão caseiro, fruta, grão e sempre presente “chai”, chá preto com leite, disponível a todas as refeições. A ementa variava a todas as refeições, e a comida foi ficando cada vez melhor ao ponto de no quarto dia o pequeno-almoço apresentar “idlys” e “sambar”, típicos do sul da Índia e difíceis de encontrar por estas paragens, e que já não comida desde a primeira vez que estive na Índia, à cinco anos.

Ao almoço houve sempre arroz servido com deliciosos carris de legumes que formam sempre variando entre batata, courgettte, abóbora e couve-flor, juntamente com sopa de lentilhas ou por um caldo de legumes; tudo acompanhado de “chapatis”, pães indianos, mas feitos em versão miniatura. Muitas foi também servida sobremesa… iogurte, bolinhos, tudo com muito açúcar, e geralmente pouco convidativos como a maioria dos doces indianos.

Parece exagerado estar a descrever com tanto detalhe a comida, ainda para mais tendo sido recomendado para não exagerar nas doses pois tal prejudica a concentração e dificulta o trabalho de meditação, mas era o momento importante para mim e marcava as várias fases do dia, divididos sempre da mesma forma entre períodos de meditação na sala principal e de descanso no quarto.

Todos os dias, ao fim do dia, ouvíamos as gravações ou víamos um video, as instruções para seguirmos no dia seguinte, assim como uma pequena palestra de cerca de uma hora proferido pelo Goenka, sobre o modo de funcionamento do método Vipassana e a forma como devíamos trabalhar para conseguir percorrer o “caminho” e tentar tomar contacto com a nossa consciência.

Havia momentos em que tudo parecia sem sentido, uma farsa, um conjunto de tiques e regras complicadas para parecer mais eficaz e verídico… mais uma das muitas ofertas “espirituais” que se encontram pela Índia, mas no fim do primeiro dia mudei de ideias: parecia que o que o Goenka dizia se encaixava com o que eu sentia, com as duvidas que eu tinha e eram proferidas as frases certas para incentivar e encorajar a continuação do trabalho…. “star again”… “you are bond to succed”… “work hard and diligently”… Todas as frases eram repetidas duas ou mais vezes, inicialmente em hindi e depois repetidas em inglês. Às vezes encorajava, mas às vezes cansava e parecia que a voz do Goenka soava sinistra e cavernosa.

Mas vamos ao que verdadeiramente interessa: o método usado para atingir a meditação. Inicialmente tenta-se diminuir a dispersão dos pensamentos que passam pelo nosso cérebro, fazendo com que a atenção se foque na passagem do ar pelas narinas, mesmo que seja somente durante instantes. Ao fim do primeiro dia essa concentração deve ser conseguida por períodos cada vez mais prolongados. No dia seguinte foca-se a tenção à zona entre as narinas e o lábio superior. No terceiro dia reduz-se a área onde nos focamos, para uma triângulo imaginário entre as narinas e o lábio superior. Assim pretende-se diminuir a intensidade dos pensamentos que constantemente afluem à nossa cabeça como uma cascata ou um rio tumultuoso. Os pensamentos estão constantemente a saltar do passado, antigo ou recente, para o futuro, com previsões e conjecturas sobre o que há-de vir, sempre construindo complexas e instáveis arquiteturas de pensamentos, sem aparente continuidade ou sequer relação. É extenuante o esforço para manter a mente focada no presente.

Quando me apercebia que a minha mente vagueava para outra paragens, voltava a focar-me na espiração, para segundos depois estar novamente alheada dessa intenção.

As horas foram passando e o esforço foi sendo cada vez maior; sentia dores no corpo, não as resultantes de estar sentada muitas foras no chão, de pernas cruzadas, mas uma dor intensa, vinda do interior e espalhada por todo o corpo, como se fosse o sintoma de uma gripe ou a aproximação de um estado febril.

No dia seguinte, após as primeiras horas de meditação essa sensação, que tinha desaparecido com o repouso, voltou, mais intensa e acompanhada de lágrimas que me humedeciam as pestanas, e que não tinham qualquer justificação.

Milhares de pensamentos e de recordações forma passando pela minha cabeça, mas a nenhum eu conseguir atribuir o motivo desta vontade de chorar; nem tão pouco consegui perceber o motivo das dores e do mal estar que sentia. Um pouco desorientada fui falar com a professora, que sempre estava presente durante as meditações, durante o intervalo existente após o almoço e que está reservado para os alunos colocarem questões e duvidas sobre o método; fui esclarecida em relação ao que sentia: era perfeitamente normal e bastante frequente, fazia parte do processo e que devia de continuar… era uma etapa do percurso.

No fim desse dia, o segundo, o mal estar que até então sentia foi substituído por uma certa leveza o que fez com que ganhasse confiança e aumentasse o meu esforço e a minha capacidade de concentração. Pela primeira vez deixei de ansiar pelo som da campainha que marcava o fim de cada uma das secções na sala de meditação.

O terceiro dia foi passado em grande luta interior, mas desta vez deixei-me levar por alguns pensamentos e não me preocupei tanto com a respiração pois estava as sentir que me fazia bem enfrentar alguns assuntos do passado que acho que ainda se manifestam em alguns dos mus comportamentos e medos. Numa das noites, já não consigo situar em qual, sonhei com pessoas e situações que pensava já não terem lugar nas minhas memórias… talvez o passado não tenha ainda passado totalmente.

O quarto dia, que para mim foi o ultimo, foi efetivamente o primeiro dia do processo do Vipassana. Até então tínhamos estado a percorrer um caminho de preparação: inicialmente o “shila” e depois o “samadi” que são como níveis de concentração e que correspondem a uma diminuição da atividade cerebral e a uma maior focagem no presente.

As duas horas que durou o Vipassana, que marca o primeiro contacto com o “pannã”, sempre a ouvir as instruções do Goenka emitidas pelas colunas espalhadas pela sala, foram extremamente intensas, onde a atenção deixou de estar focada na respiração, mas passou a ser dirigida para a procura de sensações, como calor, frio, comichão, movimentos sob a pele, etc… inicialmente no topo da cabeça e daí passando por todo o corpo até aos pés, membro a membro, articulação a articulação…

Pouco depois da primeira hora, o meu corpo começou a dar sinais de que precisava de sair daquela postura de pernas cruzadas. Apesar das indicações para manter a imobilidade durante estas duas horas, não consegui evitar e tive procurar outra posição, mas mesmo assim não consegui evitar uma dor intensa da fundo das costas até à perna, na zona do nervo ciático. Fui chamada à atenção, para me manter na postura inicial, mas foi-me impossível e a partir daí foi um verdadeiro tormento em que ansiava por deixar de ouvir a voz lenta e arrastada do Goenka que em vez de funcionarem de incentivo, só contribuíam para o meu desespero.

Perante esta situação acabei por desistir, sem ter completado os dez dias do curso, mas com vontade de fazer nova tentativa num centro com melhores condições.

 

Algumas frases do discurso do Goenka durante os vários dias do Vipassana, que ajudam a compreender o método; por comodidade optei por manter o texto em inglês:

 

“The final aim of this meditation is not concentration of mind. Concentration is only a help, a step loading to a higher goal: purification of mind, eradication all the mental defilements, the negativities within and thus attaining liberation from all misery, attaining full enlightenment.”

 

“Every time an impurity arises to the mind, such as anger, hated, passion, fear, etc… one becomes miserable. Wherever something unwanted happens, one becomes tense and start tying knots inside. Wherever something wanted does not happen, again generates tension within. Throughout life, one repeats this process until the entire mental and physical structure is bundle of Gordian knots. And one does not keep this tension limited to oneself, but instead distributes it to all whom one comes into contact.”

 

“… meditation course to learn the art of living: haw to live peacefully and harmoniously within oneself, and to generate peace and harmony for all others.”

 

“Breath is a tool with which to explore the truth about oneself.”

 

“On this path, whatever is unknown about yourself must become known to you. For this purpose respiration will help. It acts as a bridge from the known to the unknown…”

 

“One reality of mind (…) is its habits of always wondering from one object to another. It does not want to stay on the breath, or on any single object of attention; instead it runs wild.”

 

“The goal of this technique is to purify the mind, to free it from misery by gradually eradicating the negativities within. It is an operation deep into ones own unconscious, performed in order to uncover and remove the complexes hidden there.”

 

“The contact of these positive and negative forces produces an explosion. Some of the impurities hidden in the unconscious rise to the conscious level, and manifest as various mental or physical discomforts.”

 

“… what seems to be a problem is actually a sign of success in the meditation, an indication that in fact the technique has started to work.”

 

“Continuity of the practice is the secret of the success. You have to do the work; no one else can do it for you. (…) you receive the support of all “Dhamma” forces, but still you have to work yourself. You have to work entire path yourself.”

 

“You will take your first steps in the field of “pannã” when you star to practice Vipassana (…) to penetrate to penetrate in the deeper levels and eradicate the impurities hidden there.”

 

“Work patiently, persistently and continuously for your own good, your own liberation.”

 

“May all being be happy.”

 

Glossary:

Sila: is morality; abstaining from unwholesome deeds of body and speech.

Samadi: is the wholesome action of developing mastery over one’s mind; practicing both is helpful, but neither can eradicate all the defilements accumulated in the mind.

Pannã: is the development of the wisdom, of insight, witch totally purifies the mind.

Vipassana: introspection, insight witch purifies the mind; specifically into the impermanent, suffering and egoless nature of the mental-physical structure; the systematic development of the insight through the meditation techniques of observing the reality of oneself by observing sensations within the body.

Dhamma: phenomenon; object of mind; nature law; law of liberation; touching of an enlightened person.

 

 

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Sou a Catarina, uma viajante de Lisboa, Portugal… ou melhor, uma mochileira com uma máquina fotográfica!

Cada palavra e foto aqui presente provém da minha própria viagem — os locais onde fiquei, as refeições que apreciei e os roteiros que percorri. Viajo de forma independente e partilho tudo sem patrocinadores ou anúncios, por isso o que lê é real e sem filtros.

Se achou o meu blogue útil ou inspirador, considere apoiá-lo com uma pequena contribuição. Cada donativo ajuda-me a manter este projeto vivo e gratuito para todos os que adoram explorar o mundo.

Obrigada por me ajudares a continuar a viagem!

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