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Stepping Out Of Babylon

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Stepping out of Babylon

Parvati Valley. Requiem por Swazni

No nosso ultimo dia em Manikaran, enquanto tomávamos o pequeno-almoço, estava ao nosso lado um inglês que comia avidamente a sua paratha recheada de ovo e queijo; nunca tinha visto e resolvi pedir o mesmo. Revelou-se um óptima escolha e serviu de deixa para estabelecermos conversa com o nosso “vizinho”, que nos deu inúmeras informações e dicas importantes sobre caminhadas ao longo do Parvati Valley, pois este é o seu destino à 22 anos.

Como ele ia subir a montanha junto à aldeia de Pulga, para onde nos dirigíamos, combinámos encontrar-nos lá passado quatro dias, para fazermos a caminhada juntos até uma zona chamada swazni (esta é uma tentativa de transcrever a fonética correspondente ao nome que ouvimos).

Enquanto terminávamos o pequeno-almoço juntamente com a nossa companheira de guesthouse, a Tree, surgiu à hora marcada o nosso amigo Green, juntamente com dois carregadores que transportavam o equipamento para uma estadia de três noites na montanha.

Foi uma caminhada suave num ameno dia de sol, feita com várias paragens para descansar, o que permitiu observar com mais detalhes a paisagem, inicialmente composta por escura e densa floresta, até chegarmos ao topo da encosta onde nos esperava um clareira dominada pelo verde da vegetação rasteira que serve de pastagem ao gado, que é levado para zonas mais altas durante o verão, à medida que a neve derrete.

Pelo caminho o Green foi-nos dando dicas sobre orientação na floresta e cuidados, ao mesmo tempo que nos indicava pontos de referência para depois empreendermos o caminho de regresso sozinhos e que nos permitirão, um dia, lá voltar. Foi como se nos estivesse a passar um legado, algo que ele descobriu  e que neste momento está prestes a abandonar, não só porque se sente já velho (são palavras dele) como devido ao aumento de insegurança e à invasão do turismo que tem vindo a descaracterizar estas e muitas outras paragens pela Índia.

Foi como um requiem.

Inicio da caminhada pouco depois de sairmos de Pulga
Inicio da caminhada pouco depois de sairmos de Pulga
Pausa para descanso e conversa
Pausa para descanso e conversa
Pela floresta
Pela floresta
Chegada à zona de clareira no cimo da encosta. Para trás ficou a densa e escura floresta de cedros
Chegada à zona de clareira no cimo da encosta. Para trás ficou a densa e escura floresta de cedros
Mais uma pausa. Nesta altura um dos carregadores já tinha desistido e ido embora, tendo o Green que carregar uma das pesadas mochilas
Mais uma pausa. Nesta altura um dos carregadores já tinha desistido e ido embora, tendo o Green que carregar uma das pesadas mochilas
A caminho de Swazni
A caminho de Swazni

Fizemos a caminhada até à zona onde o Green ia montar acampamento, um gruta formada por uma grande rocha, junto a um riacho e numa zona de clareira acima da densa floresta de cedros, já muito perto da linha de neve. A toda a volta vêm-se montanhas que nos pontos mais elevados estão cobertas de neve, de onde sopra um ar fresco que atenua os efeitos dos raios solares.

A convite do nosso anfitrião, acabámos por almoçar com ele, uma refeição à base de arroz e vegetais, preparada rapidamente numa panela de pressão e cozinhada num portátil fogão a gás…. claro que todos estes luxos juntamente com cobertores, saco-cama, almofadas e muitos mais requintes só foram possíveis a esta altitude com a ajuda dos carregadores.

Pouco depois do almoço, com a aproximação de algumas nuvens cinzentas que ameaçavam chuva, deixamos o Green a preparar o resto do acampamento e juntamente com a Tree, iniciamos a descida para a aldeia de Pulga. Mesmo com todas as indicações que nos foram dadas, falhámos o caminho de regresso, quando saímos da zona de clareira e nos embrenhamos na floresta, mas fomo-nos orientando pela cascata que corria ao nosso lado e que foi companheira de grande parte do trajecto e pelo som dos tambores que vinham da aldeia e que assinalavam o segundo dia de festa.

Foi uma caminhada revigorante, não só pela envolvente como pela contagiante energia do Green. Obrigada Green pela experiência; espero que os nosso caminhos se voltem a cruzar.

A caminho de Swazi
A caminho de Swazi
Este é um dos vários abrigos que encontrámos pelo caminho, que serviu de acampamento ao Green em anteriores visitas
Este é um dos vários abrigos que encontrámos pelo caminho, que serviu de acampamento ao Green em anteriores visitas
Chegada à gruta onde terminou a nossa caminhada
Chegada à gruta onde terminou a nossa caminhada
Preparação do almoço
Preparativos para o almoço
neve!!!!
Neve!!!!
Um pouco mais acima da zona onde o Green montou o acampamento para passar os dias seguintes
Um pouco mais acima da zona onde o Green montou o acampamento para passar os dias seguintes
Os ultimos toques nos temperos do almoço
Os ultimos toques nos temperos do almoço
Momento de descontração antes de inicarmos a descida
Momento de descontração depois do almoço, antes de inicarmos a descida

Parvati Valley. Pulga

As trovoadas têm sido uma constante neste percurso pela Índia: em Delhi, Jaipur e Pushkar, eram uma promessa de uma temperatura mais amena e menos poeira no ar. Nas montanhas, tanto em Dharamkot como aqui no Parvati Valley, trazem quase sempre chuva, frio e muitas vezes granizo.

Enquanto escrevo estas notas, num rústico mas confortável quarto todo construído em madeira, observo através das janelas que rasgam a toda a largura duas das paredes do quarto, as nuvens negras que aos pouco vão cobrindo os picos das montanhas, ainda cobertos de neve, que se avistam da aldeia de Pulga.

Acordo com o sol a aquecer-me a cara e com o chilrear dos pássaros, enquanto os aldeões encaminham o gado para as montanhas ao som de assobios. Dos telhados das casas sai o fumo dos fogões e dos aquecedores de água a lenha, que aos poucos vão enchendo a aldeia com uma neblina que lentamente se encaminha para o céu.

Pulga
Pulga
Pulga
Pulga
Pulga
Pulga
Pulga
Pulga

Pulga, situada a cerca de 2269 metros de altitude, não acessível por automóveis, existindo somente um trilho pedonal que também é percorrido por mulas que aqui asseguram o abastecimento desta aldeia e das que se encontram próximas. Devido a um problema numa central eléctrica também não tem luz há cerca de uma semana… não há música, os frigoríficos não passam de armários, a noite é iluminada por velas e as refeições são cozinhadas a lenha.

Em frente à Apple View Guesthouse, onde estamos alojados, do outro lado do rio Parvati, encontra-se a feia povoação de Barshani, onde termina a estrada por onde chegamos, vindos de Manikaran. Foi uma viagem feita de autocarro, que demorou uma hora para percorrer os cerca de 14 quilómetros que separam as duas povoações. O estado da estrada, sem pavimento e com várias linhas de água a travessá-la, juntamente com o estreito e sinuoso traçado que acompanha de perto o Rio Parvati, fizeram desta viagem uma aventura cansativa, obrigando a paragens frequentes e a manobras complicadas cada vez que o autocarro se cruzava com outro veículo. Por diversas vezes saltamos literalmente do assento quando passávamos por cima de buracos e lombas que eram uma constante ao longo da estrada.

Para compensar, a paisagem que íamos avistando ia-se tornando cada vez mais  deslumbrante com a aproximação das montanhas ainda cobertas de neve, mas olhar para o vale e para o rio que corria lá em baixo obrigava a uma dose de coragem, dada a proximidade com que o autocarro circulava do precipício.

Autocarro que nos levou de Manikaran para Barshani
Autocarro que nos levou de Manikaran para Barshani enquanto esperávamos quase uma hora para a partida. Nos lugares do lado esquerdo cabem duas pessoas, nos do lado direito cabem três, mas tudo muito apertado!!!
Bilhetes da viagem de autocarro entre Bhunter e Pulga
Bilhetes da viagem de autocarro de um das viagens que fizemos no Parvati Valley
Restaurante em Barhsani
Restaurante em Barshani, com a habitual decoração dominada por divindades hindus, gurus e  actores de cinema

Pulga não deve ter mais do 300 habitantes mas é surpreendente a quantidade de jovens e de crianças que se vês nas ruas… ruas é uma forma de identificar os caminhos, muitas vezes enlameados que separam as casas. No centro, entre os dois templos, encontra-se praticamente toda a actividade comercial da aldeia: três mercearias que vendem de tudo um pouco, desde produtos alimentares a alfaias agrícolas. Muitas das casa mantêm a arquitectura tradicional, em que o corpo central é constituído por uma estrutura de madeira, preenchida com pedra e forrada com uma argamassa argilosa; o piso térreo é destinado a armazenamento de forragem , madeira ou destinado aos animais, enquanto que os pisos superiores, rodeados com as características varandas de madeira que circundam toda a casa, são destinados à habitação. As casa de banho são invariavelmente no exterior.

Os dias passados em Pulga foram dominados pela falta de luz, que acentuou o carácter rural da aldeia, cobrindo-a com um silêncio só interrompido pelo mugir das vacas, pelas vozes alegres das crianças enquanto apanham erva para os animas, pelo grasnar das gralhas e pelo ranger dos ciprestes agitados pelo vento, na floresta que envolve parte da povoação e que se estende até às zonas mais altas, com neve.

Este ritmo foi interrompido para a festa anual de Pulga, que reuniu os homens da terra, junto ao templo mais antigo, todos com a cabeça coberta com o tradicional chapéu de feltro, decorado com fitas coloridas feitas em teares manuais, com motivos e cores tradicionais da região.

Ao som de tambores e do som soprado por cornos de vaca, os homens da aldeia foram-se encaminhando para a floresta, para uma zona sagrada onde existe um templo, para aí procederem ao sacrifício de um carneiro, cuja carne é depois é dividida pela população, que apesar deste costume, segue a dieta vegetariana.

Templo no centro de Pulga
Templo no centro de Pulga
Junto ao templo de Pulga
Junto ao templo de Pulga
Concentração de homens junto ao templo no dia da festa
Reunião dos homens da aldeia junto ao templo no dia da festa
Floresta sagrada junto à aldeia de Pulga
Floresta junto à aldeia de Pulga onde existe uma zona considerada sagrada e cujo acesso nos está interdito

No dia seguinte, também ao som de tambores acompanhados por longas trombetas, a população reuniu-se no centro da aldeia. Somente nesta ocasião vimos as mulheres participar na festa, dançando juntamente com os homens, e envergando trajes tradicionais. Como não havia electricidade a festa terminou ao anoitecer.

Apesar das diversas guesthouses existente na aldeia apresentarem uma grande variedade de comida internacional, que não explorámos, a comida em Pulga não apresenta grande diversidade, dominado a batata, a couve flor e por vezes o feijão verde ou umas ervilhas. Como não havia electricidade o panner, que é um queijo tradicional indiana usado frequentemente na culinária de todo o país estava excluído da ementa.

 Apesar da aparente falta de conforto, resultante em parte de não termos luz, nem das comodidades a que estamos habituados, como água quente corrente para tomar banho foram dias muito bons, onde o sono chegava cedo à luz das velas.

À medida que a chuva deixava de nos visitar e em que os dias iam ficando mais quentes, aproveitámos para fazer algumas caminhadas pela floresta e pelas montanhas nas redondezas de Pulga, a uma aldeia próxima chamada Kalga, situada a cerca de uma hora de caminho e a Keerganga que consistiu na “joia da coroa” desta estadia no Parvati Valley.

Pulga
Pulga
Crianças a jogar cricket em Pulga
Crianças a jogar cricket em Pulga junto ao templo mais antigo da aldeia
Pulga
Pulga
Jogo de cricket que reúne semanalmente os rapazes da aldeia de Pulga e das povoações vizinhas, numa das poucas zonas planas da floresta
Jogo de cricket que reúne semanalmente os rapazes da aldeia de Pulga e das povoações vizinhas, numa das poucas zonas planas da floresta
Apple Garden Guesthouse
Apple Garden Guesthouse

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Chill-out da Apple Garden Guesthouse
Chill-out da Apple Garden Guesthouse
Casa de banho da Apple Garden Guesthouse
Casa de banho da Apple Garden Guesthouse. O edificio ao lado era a cozinha
Apple Garden Guesthouse
Apple Garden Guesthouse. O nosso quarto situava-se no segundo andar o que nos obrigava a frequentes descidas e subidas pela estreita e íngreme escada, que rangia a cada passo que dávamos… aliás como toda a estrutura em madeira da casa
Visto do quarto na Apple Garden Guesthouse
Visto do quarto na Apple Garden Guesthouse
Apple Garden Guesthouse
Apple View Guesthouse, que efetivamente estava rodeada de macieiras, mas cujas maçãs só são esperadas para Setembro.
Aquecendo água para o banho na guesthouse onde estávamos instalados
Aquecendo água para o banho na guesthouse onde estávamos instalados, processo que demorava perto de uma hora e que custava 30 rupias (cerca de 0.40€). Um balde dava para tomar-mos banho os dois e ainda sobrava um resto de água quente para lavar a roupa, pois sem electricidade não havia lavandarias a funcionar.
Dado não haver electricidade e o uso de botijas de gás está excluído devido ao facto de a aldeia de Pulga não ter acesso automóvel e de ficar a cerca de 1 hora a pé da estrada mais próxima, a água para os banhos é aquecida neste engenhoso equipamento, onde a lenha é queimada até fazer brasa, e por onde é despejada água que após alguns segundos sai quente, mesmo quente!
Dado não haver electricidade e o uso de botijas de gás está excluído devido ao facto de a aldeia de Pulga não ter acesso automóvel e de ficar a cerca de 1 hora a pé da estrada mais próxima, a água para os banhos é aquecida neste engenhoso equipamento, onde a lenha é queimada até fazer brasa, e que tem um funil por onde é despejada água que após alguns segundos sai quente, mesmo quente!
Pulga
Pulga
Pequeno almoço tradicional indiano com uma paratha, um dos tradicionais e mais comuns pães indianos, que pode ser recheado com vegetais ou ovo. Ao centro está um pickle de vegetais que inclui rebentos de fetos apanhados na floresta... picante e salgado, mas que dá um toque delicioso à paratha, que vem sempre barrada com manteiga. Uma energética refeição para começar um dia nas montanhas!
Pequeno almoço tradicional indiano com uma paratha, um dos tradicionais e mais comuns pães indianos, que pode ser recheado com vegetais ou ovo. Ao centro está um pickle de vegetais que inclui rebentos de fetos apanhados na floresta… picante e salgado, mas que dá um toque delicioso à paratha, que vem sempre barrada com manteiga. Uma energética refeição para começar um dia nas montanhas!

Parvati Valley. Manikaran

Inicialmente o vale por onde corre o Rio Parvati e as aldeias em redor não estavam no nosso itinerário inicial, mas à medida que fomos falando com outros viajantes pareceu-nos um destino apetecível, para fugir ao calor do verão que já invadia a zona de Dharamkot.

Para tornar a viagem menos penosa, em termos de conforto e de numero de horas, optámos por um autocarro turístico, em vez dos velhos e desconfortáveis autocarros públicos, que nos obrigariam a vários transbordos.

Somente conseguimos bilhete para um mini-bus, que saiu de Mcleod Ganj às 9 horas da noite e nos deixou ao nascer do dia na adormecida e desinteressante cidade de Bhunter, para aí esperar-mos pelo autocarro publico que faz o percurso pelas várias povoações ao longo do Rio Parvati.

Foi uma viagem extenuante, pois devido ao estado das estradas e ao percurso sinuoso pelas montanhas os esforços para arranjar uma posição confortável para dormir foram infrutíferos. Contudo os restantes passageiros lá foram dormitando e houve alturas e que eu e o motoristas éramos as únicas pessoas acordadas…. bem, quanto ao motorista não tenho grande certeza, pois por diversas vezes vi o autocarro a sair da faixa de rodagem e circular pelo meio da via só se afastando quando vinha outro veículo em sentido contrário, se bem que por aqui na Índia, esta forma de conduzir é uma prática frequente.

Parámos por diversas vezes em restaurantes desertos à beira da estrada, uma para jantar, já perto da meia-noite e outra para o motorista descansar. Como a espera se estava a prolongar e a conversa com os ouros passageiros esmorecia pelo cansaço e pelo adiantado da hora, fomos saber a causa da demora e informaram-nos que o motorista estava cansado e tinha decidido ir dormir por uma hora.

Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar
Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar
Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar
Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar
Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar
Restaurante à beira da estrada entre Mcleod Ganj e Bunthar

Pelo caminho fomos passando por filas de camiões parados à beira da estrada, envoltos na espessa escuridão da noite, somente iluminada pelos faróis do autocarro, esperando pelo nascer do dia para iniciarem o resto da jornada.

Com o nascer do dia, mesmo antes de se verem os primeiros raios de sol, percorremos o troço final da nossa viagem sempre ao lado do Rio Beas, e das suas águas tumultuosas e turvas, que percorrem o escarpado vale, pelo qual a estrada corajosamente serpenteava.

Em Bhuntar, a espera pelo próximo autocarro que nos levaria ao nosso destino, a aldeia de Pulga, foi amenizada pela alegre companhia da Zia, uma rapariga argentina que conhecemos na viagem, e que nos sugeriu ficar em Manikaran onde podíamos ficar a descansar e a aproveitar as nascentes de águas quentes pela qual é famosa, antes de nos dirigirmos para Pulga. Bem precisávamos, pois os 32 quilómetros que percorremos demoraram cera de duas horas, por uma sinuosa estrada sempre ao longo do rio Parvati, encaixado entre altas montanhas densamente cobertas de pinheiros e cedros.

Manikaran é também um local de peregrinação de Hindus e especialmente de Sikhs que aí têm um grande templo dedicado a Shiva.

Ficamos dois dias em Manikaran, onde o som das revoltas águas do Rio Parvati são uma presença constante, onde para além dos templos e das piscinas de água quente, não apresentava muitos mais atrativos, mas que representou um agradável “regresso” ao tradicional modo de vida indiano, sem as lojas de artesanato, restaurantes com comida internacional e música transe que por vezes transformam zonas como Dharamkot em refúgios para ocidentais, mas que perdem alguma da sua identidade.

Contudo, no segundo dia fomos surpreendidos quando o templo Sikh que foi construído sobre uma das nascente de água quente, o que faz com que todo o complexo de edifícios adjacentes esteja permanentemente envolto numa nuvem de vapor, e onde são cozinhadas refeições em potes de barro emersos nas águas borbulhantes e ligeiramente sulfurosas, e que são servidas gratuitamente a qualquer pessoa, diariamente durante todo o dia.

Quando visitámos o templo aproveitámos para ir ao refeitório onde serviam a comida. Tivemos que deixar os sapatos à entrada e só podemos entrar com a cabeça coberta; depois foi seguir as indicações que nos iam sendo dadas pelos funcionários do templo. Munimo-nos de prato e copo e fomo-nos sentar no chão junto das dezenas de peregrinos, em tapetes corridos que formavam corredores ao longo da grande sala, permanentemente envolta uma morna nuvem de vapor, à espera que nos servissem.

Foi uma refeição simples, constituída por sopa de lentilhas, carril de grão, arroz e chapatis, retirados de balde metálicos e servidos por Sikhs. Pelo que percebemos, todo este ritual tem o nome de parshad, e representa um gesto de hospitalidade que não deve ser recusado.

Foi uma experiencia intensa e muito interessante, não pela refeição em si, mas por toda a envolvência e pelo significado de oferecer comida a qualquer pessoa sem pedir nada em troca. De seguida fomos para o local onde se realizam as cerimónias religiosas, o Gurudwara, onde ouvimos cânticos retirados do livro sagrado dos Sikhs, o Guru Granth Sahib, entoados ao som de tablas e tambores, e que se prolongaram pela noite dentro.

Manikaran
Manikaran
Manikaran
Manikaran. Vendedor de oleos medicinais
Manikaran
Uma das pontes que liga Manikaran à estrada principal que acompanha o Rio Parvati
Templo Sikh em Manikaran
Templo Sikh em Manikaran dedicado a Shiva, constantemente envolvido pelo vapores libertados pelas nascentes de água quente
Templo Sikh em Manikaran onde é cozinhada o prashd
Templo Sikh em Manikaran onde é cozinhada o prashad que é uma refeição servida gratuitamente, durante todo o dia
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Uma das muitas lojas dedicadas à venda de artigos religiosos e de oferendas para os rituais religiosos que se encontram nas ruas junto ao templo Sikh
Manikaran. Rio Parvati
Manikaran. Rio Parvati
Guesthouse O-Rest em Manikaram
Guesthouse O-Rest onde ficamos duas noites em Manikaran na companhia de um pequeno roedor que não nos importunou
O nosso quarto na O-Rest Guesthouse que servia também de armazém de arroz e de açucar
O nosso quarto na O-Rest Guesthouse que servia também de armazém de arroz e de açucar
Manikaran. Rio Parvati visto da janela do nosso quarto na O-Rest Guesthouse
Rio Parvati visto da janela do nosso quarto na O-Rest Guesthouse em Manikaran
Casa de banho da Guesthouse O-Rest em Manikaran, onde a água quente vinha directamente da nascente para um tanque de onde tirávamos a água para o banho
Casa de banho da Guesthouse O-Rest em Manikaran, onde a água quente vinha directamente da nascente para um tanque de onde tirávamos a água com um pequeno púcaro de plástico para nos lavar-mos
Ponte sobre o Rio Parvari, entre Manikaran e Kasol
Ponte sobre o Rio Parvari, entre Manikaran e Kasol, a povoação mais próxima onde estivemos só de passagem
Caminho pedonal entre Manikaran e Kasol
Caminho pedonal entre Manikaran e Kasol

… porque comer é importante ;)

Pelo que conhecemos da Índia e que provavelmente se pode estender a outros países asiáticos, não se encontra aqui o chamado “culto da mesa”, tanto no dia-a-dia como nos restaurantes mais económicos, frequentados quase exclusivamente por indianos.

Quando se chega a mesa está vazia, sem toalha, pratos ou talheres, quanto muito encontra-se o saleiro e o pimenteiro. Logo de imediato são trazidos copos, sempre metálicos, e um jarro de água da torneira, ou de outro recipiente de armazenamento de água. Após o pedido a comida é rapidamente confecionada, encontrando-se a cozinha à vista ou mesmo virada para a rua, sendo de imediato servida, em pratos e taças metálicas, acompanhada sempre por algum tipo de pão, naan, chapati ou pharata, que ajuda a levar a comida para a boca em substituição dos talheres.

Não existe o conceito de “entradas”, pois o que estamos habituados, nos restaurantes indianos em Portugal, a comer no inicio da refeição como chamuças, puri, baghi, são aqui consumidos ao pequeno-almoço ou durante o dia como snack. Somente vem para a mesa o que pedimos e nunca nos perguntam se queremos mais alguma coisa, sobremesa ou café, nem existe na maioria dos restaurantes indianos doces ou tão pouco se vendem bebidas alcoólicas.

O pagamento é sempre feito à saída, a uma pessoa que geralmente só tem essa função, muitas vezes o dono do restaurante. Simples, rápido e eficaz. Com isto as refeições são bastante rápidas, nem nos fazendo sentir confortáveis se ficarmos mais tempo do que o necessário, mesmo que às vezes soubesse bem aproveitar a refeição para dar algum descanso às pernas.

Excepção são os restaurantes mais caros que geralmente só se encontram nas grandes cidades ou os situados em zonas turísticas, onde é raro encontrar clientes indianos; aí temos sempre talheres (colher e garfo, até agora nada de facas), copos e guardanapos, lista de sobremesas e em alguns locais são vendidas bebidas alcoólicas, geralmente cerveja.

Na zona onde estamos de Mcleod Ganj, dado o grande numero de turistas, tanto nacionais como estrangeiros, existe uma grande variedade de restaurantes, servindo comida indiana, tibetana, chinesa, tailandesa, mexicana, as inevitáveis pizzas e lasanhas e muitas especialidades israelitas, pois é de Israel que vêm grande parte dos turistas, chegando a haver hotéis e guesthouses em Dharamkot, praticamente “dominadas” pelo “povo de Israel”, encontrando-se muitas tabuletas escritas em hebraico. Contudo temos optado maioritariamente por comida indiana e tibetana, que para além de ser mais barata, oferece melhores de garantias de qualidade do que as opções ocidentais.

Lista de restaurantes tibetanos, que elegemos em Mcleod Ganj

Tibet Kitchen, na Jobibara Road, perto do cruzamento principal: grande restaurante de três pisos frequentado maioritariamente por tibetanos, com comida vegetariana e não-vegetariana: experimentámos os tradicional momos, o pão tibetanos chamado Timgo (pálido, elástico e cozido a vapor), a Thupka, uma sopa de vegetais e noodles e o Fry Thinthuk, que é uma massa muito larga, em pequenas tiras, que neste caso é salteada com vegetais.

Restaurante Tibetian Kitcken em Mcleod Ganj
Restaurante Tibet Kitcken em Mcleod Ganj
Restaurante Tibetian Kitcken em Mcleod Ganj: momos fritos e Fry Thentuk
Restaurante Tibet Kitchen em Mcleod Ganj: momos fritos e fry thinthuk

Lung Ta, na Jobibara Road: para além de uma grande variedade de pratos japoneses, todos vegetarianos, têm um menu especial, que vaira diariamente e que se repete semanalmente; comemos uma tempura perfeita de vegetais, acompanhada por arroz, duas saladas e uma sopa miso com tofu caseiro por 150 INR por pessoa. Este restaurante apresentou uma qualidade acima da média, batendo aos pontos quase todos os japoneses de Lisboa… todos excepto o Tomo em Algés 😉 Ambiente descontraído e simpático, com uma sala interior e uma varanda para o exterior, recomenda-se por tudo! Foi tão bom que já lá voltámos outra vez 😉

Restaurante japonês em Mcleod
Restaurante japonês Lung Ta em Mcleod Ganj
Restaurante japonês em Mcleod
Restaurante japonês Lung Ta em Mcleod Ganj

Takhyil Peace Restaurant, na Jobibara Road: calmo restaurante de ambiente familiar, vegetariano, onde comemos os melhores momos até agora, a acompanhar a Thinthuk que é uma sopa espessa com legumes, geralmente couve, cenoura e cebola, e tiras de massa larga partida em pedaços grandes e de aspecto tosco.

Peace restaurante em Mcleod Ganj
Takhyil Peace Rrestaurante em Mcleod Ganj

Gakyi Restaurant, na Temple Road: pequeno e verde, onde a Mrs. Kalsang Dickyi cozinha comida tibetana vegetariana, entre momos, tupkas e thinthuk… Pedimos uns momos de espinafres, onde a massa se apresentava mais fina que o que habitualmente encontramos noutros restaurantes. Aprovado ficou também o prato de massa salteada com vegetais, onde predominava a pak-choi. Ficámos clientes, ainda para mais as doses são generosas e podem ser partilhados por duas pessoas.

Restaurante Tibetano Gakyi em Mcleod Ganj
Restaurante Tibetano Gakyi em Mcleod Ganj

Em Dharamkot, encontra-se uma grande variedade de gastronomias, mas nenhum dos que experimentámos se destaca, nem na comida indiana nem na tibetana, com excepção do Trimurti Garden, onde temos comido uns óptimos pequenos almoços, e onde um optimo thali, com um foge um pouco ao tradicional. Encontra-se aqui um óptimo pão e bolos caseiros, assim como cereais com iogurte, sumos, saladas de frutas e todos os mimos que um viajante procura para se sentir em casa, contudo o preço é pouco convidativo, pois um pequeno-almoço aqui pode sair mais caro do que uma refeição num restaurante indiano ou tibetano em Mcleod Ganj. Neste espaço realizam-se aulas e cursos de yoga.

Tahli (refeição completa) no Trimuti Garden
Tahli (refeição completa) no Trimuti Garden…. estufado de beterraba, carril de legumes, salada, yogurt, sopa de lentilhas (daal), arroz e chapati
Pequeno alomoço no Trimuti Garden
Pequeno alomoço no Trimuti Garden
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Trimuti Garden: alojamento, restaurante e escola de yoga

Recentemente descobrimos em Dharamkot, o Half Moon Café, que não é mais do que uma barraca feita de madeira e plástico, com algumas mesas e um excelente vista para o vale que se estende até Bhagsu. Aí temos comido sempre thali, composto pelo tradicional dal (sopa espessa à base de diversos tipos de lentilhas que também pode ter feijão), um carril de legumes, duas paratas e o sempre presente arroz, que por vezes é cozinhado com cominhos (jeera). Tudo isto por 80 INR, cerca de 1.15€ por pessoa.

Tahli no Halfmoon em Dharamkot
Tahli no Halfmoon em Dharamkot… bom, barato e bem servido… talvez o melhor daal que experimentámos até agora
Halfmoon em Dharamkot
Halfmoon em Dharamkot

Workshop de pão tibetano

Depois da experiência do workshop de momos decidi ir fazer um outro, no mesmo local, desta vez dedicado ao pão. Mesmo sabendo que o pão na Ásia não é dos mais famosos, temos tido boas surpresas com as variedades que encontramos tanto nos restaurantes como à venda na rua.

Basicamente a massa usada para fazer os pães tibetanos é muito semelhante à que tínhamos aprendido para os momos: farinha, fermento e água.

Foi quase uma aula privada, pois estava somente uma outra rapariga a fazer o workshop; apesar disso foi difícil obter informações mais detalhadas sobre os hábitos e a cultura gastronómica do Tibete, pois nos momentos de pausa, em que a massa levedava ou em que se cozinhavam os pães, o “chef” estava constantemente ao telemóvel.

Fizemos três tipos de pães, todos com a mesma massa: começamos com um reservado a festas de casamento ou de passagem de ano. É recheado e cozinhado numa panela, mas já experimentámos uma outra versão, que os tibetanos comem a acompanhar a refeição, sem recheio e cozido a vapor, mantendo-se o característico feitio, semelhante a um nó. É comido simples ou com um pedaço de manteiga, que no Tibete é de yak, mas aqui na Índia é de vaca. Da mesma forma, o óleo usado na preparação do recheio é uma adaptação aos costumes locais, sendo a versão original feita também com manteiga de yak, que segundo dizem tem melhor sabor.

Pão de festa depois de cozido numa panela
Pão de festa depois de cozido numa panela

Seguiu-se o tigmo, sendo servido no dia a dia, com ou sem recheio, e cuja forma se obtém com a ajuda de dois “pauzinhos” e um outro pão recheado, servido em dias de festa e ocasiões especiais. Depois de cozinhados ao vapor estes pães abrem como uma flor, mostrando o colorido recheio, à base de cenoura, tomate, alho, gengibre e coentro, sendo o tom amarelo dado pelo açafrão.

Todos os ingredientes são colocados crus na massa do pão, antes de esta ser cozinhada, impregnando-a dos sabores dos vegetais, que são realçados pelo molho de soja que serve de acompanhamento.

Tigmo
Recheio do tigmo, à base de tomate, gengibre, coentros e cebola
Tigmo
Tigmo recheado de legumes e curcuma
Tigmo
preparação dos pães para lhes ser dada a forma caracteristica
Tigmo
Tigmo cuja forma é conseguida com o auxilio de dois “pauzinhos”
Tigmo
Pão recheado com legumes crus, com a forma semelhante a um laço
Tigmo antes de serem cozidos ao vapor
Tigmo e um outro pão recheado preparado para dias de festa, antes de serem cozidos ao vapor
Tigmo
Tigmo

Tradicionalmente no Tibete usa-se recheio de carne, pois dado o clima os legumes não são em abundância, prevalecendo o consumo de carne. A versão vegetariana é aparentemente mais uma adaptação à cultura indiana, onde esta grande comunidade de tibetanos está inserida à mais de 60 anos, encontrando-se diversos tibetanos que não comem carne, assim como restaurantes exclusivamente vegetarianos.

Estes workshops assim como a comida que temos experimentado em restaurantes espalhados por McLeod Ganj, revelaram-nos uma quase desconhecida gastronomia e uma boa alternativa aos pratos indianos, tendo-nos deliciado com os suaves e leves pratos tibetanos, à base de massa, salteada ou servida numa sopa, sempre acompanhada de vegetais levemente cozinhados, onde domina a couve pak-choi.

Notas da India # 2

Tibetanos vs Indianos

A chegada ao estado de Himachal Pradesh, mais concretamente a Mcleod Ganj, permitiu-nos tomar contacto com a cultura, a gastronomia e a forma de estar dos tibetanos. Aqui a comunidade tibetana está perfeitamente integrada, com escolas, bibliotecas, templos, centros de arte e inúmeras associações para divulgação cultura tibetana e da causa “Free Tibet”.

Encontram-se tibetanos à frente de inúmeros negócios, com restaurantes, pensões, livrarias, cafés, alfaiates, lojas de roupa, de artesanato e de arte Thangka, que consiste em quadros com elaborados desenhos relativos às várias etapas da vida de Buda, pintados à mão, com grande detalhe; podem também apresentar mandalas e mantras.

Nota-se contudo uma grande diferença entre as duas culturas, não só em termos de religião, vestuário e alimentação, mas também na atitude. Nota-se na comunidade tibetana um maior dinamismo, que se torna evidente em restaurantes e cafés, onde resultam espaços mais organizados, limpos e com uma decoração mais cuidada, que contrastam com os espaços explorados por indianos, que transmitem uma sensação de preguiça e desleixo que espelha a forma de estar indiana.

Há nos indianos, em especial nas zonas rurais ou em cidades pequenas, uma candura e suavidade que se transmite nos gestos, no ritmo lento e descontraído, e que se pode resumir no característico gesto de abanar a cabeça, em sinal afirmativo, acompanhado de um tímido sorriso.

Nos restaurantes e lojas geridas por tibetanos, sente-se um certo dinamismo, mesmo que não estejam a atender ninguém, vão arrumando e limpado estando atentos a algum pedido, ao passo que nos estabelecimentos indianos sente-se o passar tempo, que deixou a sua marca nas superfícies baças e já sem cor, envolvidas por um de véu de pó e gordura, como se nada tivesse sido mudado desde o dia em que abriram.

Combinando com a lassidão dos gestos, sente-se uma aceitação passiva da decadência provocada pelo passar do tempo, e que se assume à partia como inevitável; como se uma coisa que deixou de funcionar, ao não ser reparada, acabe por ser esquecida, tornando-se desnecessária, sem contudo perder o seu lugar.

A comida reflete o oposto: os pratos indianos são intensos, tanto na cor como no paladar, ao passo que a comida tibetana usa poucos temperos e nenhuma especiaria, sendo suave e leve, deixando sobressair o sabor dos legumes escolhidos. Para isto contribui o pouco tempo de cozedura dos vegetais, tanto nos pratos tibetanos como indianos.

As refeições são servidas a qualquer hora do dia, sendo confecionadas na hora em poucos minutos; nunca se recusam a preparar uma refeição mesmo que estejam a comer ou a dormir a sesta, e mesmo que o pedido exija algum ingrediente em falta, alguém do restaurante sai apressadamente para ir buscar ou pedir a algum “vizinho”.

Há parte de tudo isto, os monges Budistas Tibetanos (pois há outras variantes do Budismo), percorrem as ruas de Mcleod Ganja, com as suas roupas de cor grená, cabeça rapada, saco de pano ao ombro, que cruzando-se connosco nos saúdam com um sorriso amigável. Vemo-los frequentemente em restaurantes, cafés, nas compras ou a fazer passeios pela montanha, usando o seu smartphone, e metendo facilmente conversa com ocidentais.

Pelo que podemos observar é tradição entre a comunidade tibetana comer carne, incluindo os monges, pois o clima do Tibete, não é propício à produção de vegetais; contudo encontram-se sempre nos restaurantes tibetanos pratos sem carne, e até mesmo restaurantes exclusivamente de comida vegetariana.

Honeydew Cafe em Pushkar
Honeydew Cafe em Pushkar

Regras de etiqueta

É sobejamente conhecida a regra de comer com a mão direita, sendo a esquerda reservada para a limpeza após a ida à casa de banho, para a lavagem dos pés ou mesmo para tirar os sapatos.

Não se deve mexer na comida com a mão esquerda, nem limpar a boca, passar objetos ou apontar para pessoas. Da mesma forma, demonstra falta de respeito receber e ou passar comida a outra pessoa com a mão esquerda, se bem que o mesmo gesto usando as duas mão é sinal de respeito. Receber comida ou objetos deve também ser feito com a mão direita.

Já estamos praticamente adaptados a comer somente com uma mão, mas é uma tarefa que requer algum treino e habilidade, pois é necessário gerir o numero de naan, parata ou de chapati (três dos mais comuns tipos de pão consumidos aqui na Índia) de forma a conseguir levar à boca toda a comida, incluindo a tradicional sopa de lentilhas.

A maior parte dos restaurante onde temos comido (frequentados maioritariamente por indianos) não têm talheres, mas atendendo à nossa condição de “ocidentais” é-nos fornecida uma colher e por vezes guardanapos, nas zonas com mais turismo. Contudo já dispensamos tais utensílios tendo-nos adaptado bem a comer com a mão e à habitual lavagem antes e depois de cada refeição, que tem que ser intensa de forma a tentar tirar a cor que o açafrão deixa nos dedos.

Outro aspecto que se deve ter em conta é não partilhar a comida com outra pessoa, nem beber do mesmo recipiente ou garrafa. Caso se partilhe um recipiente de água, deve-se beber de forma a que os lábios não toquem no recipiente.

Nos templos, tanto hindus, jainistas como muçulmanos, os sapatos devem ficar na entrada, onde muitas vezes existem prateleiras ou mesmo um guarda. Para além desta regra, nos templos jainistas não se pode entrar com artigos de cabedal.

A melhor forma de não cometer gafes é observar e imitar o que os outros fazem.

Quanto à roupa, apesar de a maior parte dos homens usarem calças e camisa, e nas cidades já se verem muitas mulheres com roupa ocidental, ainda não é muito aceitável andarem com os ombros descobertos ou com roupa acima do joelho. Em comparação com o sul, tanto em Delhi como aqui no estado do Rajastão encontram-se poucos homens vestidos com as roupas tradicionais. Excepção são as zonas muçulmanas em que o uso de véu é uma constante entre as mulheres, encontrando-se algumas totalmente cobertas, e onde os homens vestem túnica e calças brancas, de algodão fino.

Outro tabu são os abraços e os beijos entre homens e mulheres, pois é considerado ofensivo fazê-lo em publico e pelo que temos visto é realmente muito raro ver gestos de afecto entre casais, mas nota-se alguma descontração neste aspecto em casais jovens oriundos dos meios urbanos. Entre homens este comportamento não é censurado, sendo muito frequente verem-se homens e rapazes a passearem de mão dada ou mesmo abraçados.

Também evitamos dizer que não somos casados, pois inicialmente quando o fazíamos tinhas uma reação um pouco estranha, e não vale a pena estar a criar situações para parecermos ainda mais diferentes; deve já ser suficientemente estranho para um indiano mais humilde que alguém com uma boa vida na europa, venha para um país pobre, deixando a sua família, os amigos e o emprego, carregando pesadas mochila, viajando de comboio nas classes mais baixas, dormindo em pensões baratas e vestindo roupa gasta e descolorida, que nada têm a ver com o padrão que têm da europa, nem tão pouco com a moda indiana. O facto de não termos religião também é um assunto difícil de abordar, num país em que os ritos religiosos fazem parte do dia-a-dia.

Contudo nota-se uma mudança nestes comportamentos, em especial nas camadas mais jovens e com mais dinheiro, oriundas dos meios urbanos, em que a atitude, a forma de vestir, e o comportamento em geral, em nada diferem do que conhecemos na europa. Vestem roupa de marca, têm cursos superiores, falam um inglês fluente, namoram nas ruas, bebem álcool, fumam, não são crentes, ou se o são, reservam a religião para ocasiões especiais. Fogem à imagem estereotipada dos indianos, pequenos e magros: são muitas vezes altos e robustos, já se notando os resultados de uma alimentação mais ocidentalizada à base de açucares e alimentos processados. Parece que antes da Índia conseguir ultrapassar os problemas de subnutrição terá que lidar com o problema da obesidade J

Apesar destas mudanças, o casamento continua a ser um marco importante na vida de uma pessoa, em especial para as mulheres, e o divórcio é ainda um tabu.

No jornal que às vezes lemos nos comboios, restaurantes ou cafés, o India Times, até agora o único periódico que encontramos em inglês, apresenta diariamente várias páginas dedicadas a anúncios de casamento, em que as famílias procuram noivo ou noiva para os seus filhos. A organização destes anúncios é bastante curiosa, pois está dividida por sexo, idade e religião, sendo frequentemente referidas as características físicas, o grau de escolaridade, a profissão e os rendimentos (estes dois tópicos mais para os homens) da pessoa que pretende casar, assim como as características desejadas para o noivo(a) que se procura. Deliciei-me a ler estes anúncios, pois já muitas vezes tinha por lá passado os olhos sem lhes dar atenção, mas não sei até que ponto representam a sociedade actual ou se são somente um resquício de um antigo costume de casamentos combinados.

Pequeno almoço Indiano nas ruas de Pushkar
Pequeno almoço Indiano nas ruas de Pushkar

Triund

Desde que chegamos o tempo tem estado instável, com dias típicos de primavera, com céu azul e temperaturas amenas e outros de chuva, com trovoadas e uma diminuição brusca da temperatura, que segundo nos disseram nada frequente nesta altura do ano.

Depois de dias em chuva, ou com chuvadas fortes, aproveitámos a primeira oportunidade para fazer uma caminhada até Triund, um dos pontos altos do chamado Chambra Valley, situado a 2875 metros de altitude. Segundo nos disseram, necessitávamos de 4 horas para subir e 3 horas para descer, por isso saímos de casa bem cedo, já prevenidos com farnel e água, preparados para a chuva ou o frio, que podem surgir a qualquer momentos nestas montanhas.

A subida foi feita em andamento rápido e demorámos menos de 3 horas, a percorrer os nove quilómetros, por um trilho bem definido e bastante acessível, onde as subidas mais íngremes são feitas à custa de degraus formados pelas rochas, sempre rodeados de florestas. Enquanto contornávamos encostas graníticas, do outro lado do vale víamos o rasto de avalanches de pedra que se desprende durante a monção dos maciços de xisto.

Caminhámos por trilhos protegidos pelas árvores, tendo por companhia o restolhar das folhas secas sob os nosso pés, o zumbidos incessante dos insectos e o ruído da nossa respiração, tenho o cuidado de não esmagar alguma joaninha que surgem por todo o lado. As joaninhas foram uma constante ao longo de todo o percurso, antes de chegar-mos à zona mais alta onde havia menos vegetação e a temperatura era mais fresca, voando para cima de nós, e aí permanecendo como que a aproveitar a nossa boleia encosta acima, para de seguida esticarem as suas assas recolhidas sob a carapaça vermelha salpicada de preto, e nos abandonarem com o seu voo incerto e desajeitado.

Após a subida, feita ao ritmo permitido pela altitude a que estávamos, deparámo-nos com uma vista dos cumes mais altos cobertos de neve iluminados pelos raios de sol que passam por entre as nuvens que envolvem quase permanentemente as montanhas mais altas.

Aproveitando a área quase plana onde se situa Triund, coberta com um denso manto verde de relva que envolve os afloramentos graníticos, foram surgindo pequenos estabelecimentos chamados de “chai-shops”, construídos de forma precária em bambu, madeira e plástico que servem chá, bebidas e refeições ligeiras. Caminhando mais um pouco encontram-se diversas construções em pedra, para abrigo de pastores, que ao som de uma telefonia roufenha, e carregando pesadas mantas, vão encaminhando os rebanhos para pastagens mais altas.

A descida foi feita em ritmo lento, acompanhados de nuvens que por vezes cobriam o céu de cinzento, fazendo pequenas paragens, aproveitando a desculpa de observar a paisagem do vale onde se encontra Dharamkot e Bhagsu, mas que no fundo serviram para ir descansando as pernas e aliviando os pés do irregular caminho de pedras.

Inicio da subida para Triund de onde se tem uma boa ideia do vale onde se encaixa Dharamkot
Inicio da subida para Triund de onde se tem uma boa ideia do vale onde se encaixa Dharamkot onde estamos alojados
Inicio da subida.... ainda com um sorriso nos lábios ;)
Inicio da subida…. ainda com um sorriso nos lábios 😉
Durante quase toda a subida tivemos a companhia de um cão que se juntou a nós logo à saída de Dharamkot, e que à chegada a Triund encontramos mesmo em frente à chai-shop (tenda que vende geralmente, chai, bebidas e alguns snacks) que pertence ao marido da dona da casa onde estamos alojados, e que de imediato nos reconheceu
Durante quase toda a subida tivemos a companhia de um cão que se juntou a nós logo à saída de Dharamkot, e que à chegada a Triund encontramos mesmo em frente à chai-shop (tenda que vende geralmente, chai, bebidas e alguns snacks) que pertence ao marido da dona da casa onde estamos alojados, e que de imediato nos reconheceu
Trilho para Triund
Trilho para Triund
Chegada ao topo
Chegada ao topo
Vista de Triund para os picos mais altos do Vale de Chambra
Vista de Triund para os picos mais altos do Vale de Chambra
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Triund
Pastor em Triund
Pastor em Triund
Triund
Triund
Triund
Triund
Triund
Triund
pic-nic em Triund
pic-nic em Triund, aqui percebemos que não se deve comer queijo na India 😉 exceptuando o paneer, queijo caseiro feito a partir de leite gordo.
pitéu” em Triund, com vista para as montanhas e a companhia de outro cão, tendo sempre por perto as gralhas que sobrevoavam a nossa zona à espera de algum resto de comida. Ganhou o cão ☺
pitéu” em Triund, com vista para as montanhas e a companhia de outro cão, tendo sempre por perto as gralhas que sobrevoavam a nossa zona à espera de algum resto de comida. Ganhou o cão ☺
pic-nic em Triund
pic-nic em Triund
Triund. 2875 metros de altitude
Triund. 2875 metros de altitude

Panorâmica de Triund:

Triund
Triund

Fartos do impessoal e incaracterístico hotel Sky Pie, decidimos sair de Bhagsu, deixando para trás a confusão e subimos a encosta em direção a Dharamkot, desta vez ficamos numa guesthouse; escolhemos a Pink House, governada pela simpática Tripta, com vista para o vale e numa zona só acessível a pé.

Aqui o ambiente é acolhedor, com um pequeno relvado e um alpendre onde nos vamos cruzando e sociabilizando com os outros hóspedes. Ao anoitecer, o ar perfuma-se com o cheiro dos incensos que a Tripta acende quando vai realizar as suas orações junto a um pequeno templo hindus, que se encontra em frente à casa.

Estamos em crer que descobrimos o colchão mais duro de toda a Índia, à primeira sensação que tive quando me sentei na cama é que tinha encontrado uma tábua… a partir daqui todos os colchões serão bons :

Pink House
Pink House
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Pink House
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Pink House
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Pink House
Pequeno-almoço na Pink House em Dharamkot
Pequeno-almoço na Pink House em Dharamkot

Aqui acordamos pouco depois do nascer do sol, ao som do chilrear constante dos pássaros e os barulhos do acordar da casa, encontrando a Tripta, ainda envolta na sua manta de lã a fazer as suas arrumações e limpezas, ouvindo-se no nosso quarto o raspar da vassoura, feita de ramos, no chão de cimento.

Para trás ficam os sharis de cores berrantes usados pelas mulheres do Rajastão… aqui as mulheres vestem calças de balão, muito largas, com uma túnica comprida até ao joelho, geralmente de cores baças, onde dominam os castanhos, amarelo-torrado, etc..; a cabeça é geralmente coberta com um lenço, que muitas vezes se encontra atado atrás da cabeça de forma a facilitar os movimentos dos trabalhos do campo. Alguns homens ainda usam a roupa tradicional, que não difere muito da das mulheres, acrescentando um coletes de fazenda, e cobrindo a cabeça com um pequeno chapéu justo à cabeça, de feitio cilíndrico, também de fazenda.

Jack and Jill went up the Hill…*

Os dias têm-se passado calmamente. Não há dias de semana nem fins de semana, todos passam ao mesmo ritmo. O dia começa cedo com o cantar dos pássaros e o tocar dos sinos nos templos.

Temos aproveitado para ir conhecendo as redondezas, fazendo diariamente uma caminhada durante a manhã. Cascatas de água gelada. Aldeias encavalitadas nas encostas. Florestas de cedros dos Himalaias. Pastores conduzindo rebanhos de cabras ou pastando vacas. Macacos. Árvores de tortuosos ramos e escassas folhas, no extremo dos quais nascem molhos de flores vermelhas. Borboletas. Aves de rapina deslizando pelas correntes de ar quente que se libertam da encosta. Trovoada. Joaninhas… muitas joaninhas que são as nossas companheiras durante os passeios.

As manhãs trazem sempre consigo o frio da noite, mas pouco depois o sol vai aquecendo estas encostas, sem contudo derreter a neve que cobre o cimo dos picos mais altos e que somente são visíveis quando nos afastamos da encosta onde estamos. Chove frequentemente durante a noite. O clima aqui é muito instável e caprichoso: pode amanhecer com sol e passado pouco tem vir um espesso nevoeiro, que se transforma em chuva persistente, que se evapora com o sol que surge no céu azul, ao fim da tarde.

Quando saímos para a montanha cruzamo-nos com crianças, que com as suas elaboradas fardas (um misto de roupa tradicional com restos da tradição britânica) com coloridos emblemas, correspondentes à classe em que estudam, descem a encosta em direção à escola, no chilrear habitual das crianças. Todos impecavelmente penteados, risco ao meio, e as raparigas com tranças enfeitadas com laçarotes vermelhos.

Nas nossas refeições, temos optado por pequenos almoços ao estilo ocidental, com cereais, fruta, iogurte (aqui chama-se curd) torradas, papas de aveia (o britânico porridge) e café, enquanto para as refeições principais optamos por comida indiana, que aqui tem sempre que ser pedida com picante, pois caso contrário é feita de forma a agradar ao paladar ocidental. Temos também experimentado alguns restaurantes de comida tibetana, que proliferam em Mcleod Ganj… uma boa surpresa.

Cascata perto de Bhagsu; devido à facil acessibilidade é local de passeio para os visitantes indianos, em especial aos fins-de-semana
Cascata perto de Bhagsu; devido à facil acessibilidade é local de passeio para os visitantes indianos, em especial aos fins-de-semana
deixando o tempo passar....
deixando o tempo passar….
A caminho da aldeia de Nadi... não atingimos o objectivo pois perdemo-nos por algum por algum trilho e fomos para a outro sitio.
A caminho da aldeia de Nadi… não atingimos o objectivo pois perdemo-nos por algum por algum trilho e fomos para a outro sitio.
Por Dharamkot
Por Dharamkot
A caminho de uma outra cascata, na parte norte de Dharamkot, que nos a uma caminhada de mais de duas horas.
A caminho de uma outra cascata, na parte norte de Dharamkot, que demorou mais de duas horas.
Pequena povoação a caminho da cascata, que mantem ainda as casas tradicionais desta zona, feitas em pedra e com telhados de xisto
Pequena povoação a caminho da cascata, que mantem ainda as casas tradicionais desta zona, feitas em pedra e com telhados de xisto
Cascata, onde o Bruno tentou mergulhar, antes de ter sentido a temperatura da água
Cascata, onde o Bruno tentou mergulhar, antes de ter sentido a temperatura da água
Montanhas perto de Dharamkot
Montanhas perto de Dharamkot
Dharamkot com o céu a ameaçar a trovoada que se aproximava
Dharamkot com o céu a ameaçar a trovoada que se aproximava
Jack and Jill when up the hill...
Jack and Jill when up the hill…*

* canção de embalar inglesa

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Sou a Catarina, uma viajante de Lisboa, Portugal… ou melhor, uma mochileira com uma máquina fotográfica!

Cada palavra e foto aqui presente provém da minha própria viagem — os locais onde fiquei, as refeições que apreciei e os roteiros que percorri. Viajo de forma independente e partilho tudo sem patrocinadores ou anúncios, por isso o que lê é real e sem filtros.

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